PUNK: trinta anos de protesto

Independentemente da polêmica sobre a data e a “certidão de nascimento“ do punk, há trinta anos, pelo menos, o movimento tem canalizado a rebeldia e o protesto da juventudeEra fácil ser jovem nos EUA e na Europa, nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial. Na chamada Era de Ouro do capitalismo, a economia crescia continuamente, os níveis de desemprego eram irrisórios, e os salários cresciam junto com a produção. Era o nascimento da sociedade de consumo de massa, em que os desejos eram facilmente preenchidos pela compra de bens materiais.

Em meados dos anos 1960, esse arranjo social é posto em xeque. Os movimentos sociais de 1968 aparecem como uma fratura, um sinal do esgotamento desse modelo econômico. A economia entra em um período conhecido posteriormente por estagflação (estagnação econômica e inflação), o desemprego aumenta, e os EUA começam a viver em um pântano no Vietnã. O brilho da Era de Ouro apaga-se de vez. Os anos a partir de 1973 seriam, de novo, de crise.

“No Future”
É nesse contexto, de crise social, desemprego crescente e aumento das desigualdades, que surge o movimento punk, por meio de uma juventude sem futuro que resolve voltar-se contra esse estado de coisas. Uma geração que, insatisfeita com tudo, invoca o espírito da mudança. Jovens operários, pobres e desempregados de Londres e Nova Iorque, não enxergam perspectivas de futuro nesse sistema e se revoltam.

A resposta à repressão e ao moralismo da época foi dada usando o próprio corpo como forma de expressão. Contra o conservadorismo da sociedade burguesa, as roupas do dia-a-dia foram rasgadas, e receberam mensagens, símbolos, alfinetes e correntes, com um visual que fugia aos padrões de todo tipo de modismo e consumismo. Os cabelos – coloridos, moicanos ou espetados – também chocaram a sociedade e os bons modos.

Os punks queriam mostrar seu repúdio a todas as formas de fascismo, racismo, sexismo e autoritarismo, com boicotes, passeatas e panfletagens. Seguindo o lema “faça você mesmo”, proliferaram fanzines (publicação independente dedicada a um público específico), com colagens que divulgavam sua cultura anticapitalista.
Como base para todo esse inconformismo social, vinha a música, refletindo todo tipo de frustração dessa juventude. O som da última metade da década de 1970, o rock progressivo, com músicas que tinham mais de dez minutos e solos de guitarra intermináveis, representava tudo o que eles rejeitavam. Era o rock como obra-de-arte, conceitual, caro e superproduzido, egocêntrico, representado por bandas como Yes, Emerson Lake and Palmer, Gênesis etc. Para os jovens do movimento punk, esse som era chato e alienante, perdera sua identidade. As letras falavam de coisas abstratas, que não faziam sentido nenhum para os jovens daquela época. A música deveria ser direta, mais acessível e expressar a indignação. Nada de rebuscamento e teoria. O som punk poderia ser tocado por qualquer um. Três acordes bastavam.
Em 1974, aparece a primeira banda punk, os Ramones, que, contra todo modismo progressivo, fazem um som simples e direto, com músicas de dois minutos que causam impacto imediato. Os Ramones reviviam o espírito do rock original dos anos 1950 e 60, uma sonoridade que influenciou diretamente a cena punk inglesa. Pronto, agora, todos podem ter suas bandas! Como acontecia freqüentemente após os shows dos Ramones, em Londres, alguns garotos que assistiram o show resolveram montar suas próprias bandas. Entre essas pessoas estavam Joe Strummer, que formaria o The Clash, e Johnny Lydon (que, devido aos seus dentes estragados, ficou conhecido como Johnny Podre), que se tornaria vocalista dos Sex Pistols.

Há uma polêmica sobre quando e onde teria surgido o punk, e se ele estaria completando 30 anos ou mais. Esse debate pode ser resumido assim: se em Nova Iorque surgiu a primeira manifestação musical punk, foi depois, em Londres, que o som explodiu como movimento. É lá que o punk deixa de ser substantivo, no caso de vagabundos e delinqüentes, para tornar-se um pólo aglutinador de toda uma geração inconformada.

Em 26 de novembro de 1976, o Sex Pistols lançam o single “Anarchy in the UK”, que representava um pouco da ideologia punk: “eu sou um anti-cristo, eu sou um anarquista, não sei o que quero, mas sei como consegui-lo”. Contra uma sociedade moralista e conservadora, Johnny Rotten diz, pela primeira vez na televisão, um palavrão (fuck) num programa às 5 da tarde. O apresentador do programa foi suspenso, e toda imprensa fez uma cobertura completa do acontecimento com manchetes de primeira página. O punk fora longe demais e a gravadora EMI rescinde o contrato com os Pistols e recolhe o disco das lojas.

O movimento punk, porém, não pode mais ser sufocado. Bandas como JAM e The Clash assinam com outras gravadoras. Em junho de 1977, os Pistols, mais uma vez, chocam o conservadorismo inglês. Em pleno jubileu da rainha, os Pistols lançam outro single: “God Save the Queen”, que diz “Deus salve a rainha e seu regime fascista”. É a revolta dos marginalizados do sistema contra a hipocrisia.
Em novembro de 1977, os Pistols lançam um dos discos clássicos do punk-rock, “Never Mind the Bullocks”, e saem em turnê pelos EUA. Quando a turnê chega ao fim, a banda também termina: uma aparição rápida e explosiva.

Os Sex Pistols não foram a primeira banda punk, mas, sem dúvida, a que fez do punk um estilo de vida e musical conhecido. No entanto, não deixou de lado o apelo comercial e de marketing, com Malcolm McLaren produzindo todo o visual da banda, ou quando troca o baixista Glen Matlock por Sid Vicious, amigo de Johnny, que mal sabia tocar baixo, mas representava melhor o “estilo punk”.

O Começo do Fim do Mundo no Brasil
O punk no Brasil surge em São Paulo, vindo dos subúrbios. Motivos não faltavam para um movimento de rebeldia jovem no Brasil. O país vivia sob uma ditadura que sufocara os movimentos sociais, que, naquele momento, ressurgia com grande força.
Uma juventude que entendeu o recado do movimento lá fora e adaptou-o à realidade local. As primeiras bandas aparecem em 1978, mas somente em 1982 é lançado o primeiro disco punk, “Grito Suburbano”, com três bandas: Olho Seco, Inocentes e Cólera. A realização do festival “O Começo do Fim do Mundo” foi o primeiro grande evento punk realizado no Brasil. Em manifesto aberto ao público, os punks declararam: “Nosso movimento surgiu numa época de crise e desemprego com tal força que logo se espalhou pelo mundo, e cada um, à sua realidade, adotou esse tipo de protesto, punk”. Clemente Tadeu, o vocalista de Os Inocentes, era mais direto: “Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

Após 30 anos, ainda existem muitas bandas e jovens punks. Embora a sonoridade e a atitude do movimento continuem influenciando muitos grupos (como Nirvana e Green Day) e a música como um todo, o caráter contestador, que ia dos costumes às questões políticas, infelizmente hoje permanece adormecido na maioria das bandas e artistas.

Post author Quincas Rodriguez, do Rio de Janeiro (RJ)
Publication Date