Protógenes depõe na CPI, mas não detalha corrupção

CPI toma o caminho da pizza e da negociação entre oposição de direita e o governoEm depoimento no último dia 8 à CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas, o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz decepcionou aqueles que esperavam revelações bombásticas sobre a corrupção no país. Afinal, o próprio delegado tinha prometido tais revelações semanas atrás num seminário do Movimento Terra e Liberdade (MTL).

O delegado até fez alguns disparos contra o corrupto banqueiro Daniel Dantas, investigado pela Operação Satiagraha. Protógenes acusou Dantas de ter armado um amplo esquema de exploração nociva do país, que iria muito além de seus negócios na telefonia e incluiria a transposição do Rio São Francisco e uma eventual privatização da Petrobras. Mas se recusou a dar nomes aos bois e revelar mais detalhes.

Protegido por uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), por mais de 48 vezes o delegado se recusou a responder as perguntas dos deputados, especialmente aquelas que comprometiam integrantes do governo. O delegado alegava segredo de justiça para ficar calado.

Queiroz negou as denúncias que teria investigado figurões da República. Disse que não investigou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, nem o filho do presidente Lula, nem o presidente do STF, Gilmar Mendes.

Contudo, causou espanto os elogios de Protógenes dirigidos a Lula, à ministra Dilma e ao próprio Parlamento. Num determinado momento, o delegado disse que a imprensa é mentirosa quando diz que os deputados não trabalham. Disse que os parlamentares trabalham sim, e deu como exemplo a presença dos deputados em seu longo depoimento.

A postura de Protógenes fez com que muitos deputados da oposição de direita não o atacassem diretamente. Muitos temiam que também fossem revelados os esquemas de corrupção envolvendo Daniel Dantas durante o governo tucano de FHC. Dessa forma, a impressão que ficou é de que a CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas está tomando o caminho da pizza e da negociação entre oposição de direita e governo. Afinal, não interessa nem ao governo do PT nem ao PSDB a revelação e o detalhamento sobre os esquemas de corrupção de Dantas.

Protógenes e o PSOL
A investigação da Operação Satiagraha provocou a fúria dos poderosos do país, pois atingiu em cheio um dos maiores corruptores da República. Dantas fez fortuna frequentando os bastidores do poder, realizando negócios escusos, corrompendo funcionários do Estado e financiando campanhas eleitorais.

Preso duas vezes pela Polícia Federal, o banqueiro foi solto graças a liminares concedidas pelo presidente do STF. Desde então, uma forte campanha de mídia foi desatada contra Queiroz. De investigador, o delegado passou a ser investigado e tratado sem cerimônias como uma suposta ameaça ao Estado de direito.

Mas a atuação independente de Queiroz deu lugar a um aparente acordo que coloca a CPI na via da pizza. O delegado sabe do envolvimento dos grandes partidos como PT e PSDB em esquemas de corrupção envolvendo Dantas. Tinha na CPI a oportunidade de revelá-los a todo país. Mas, infelizmente, não o fez. Preferiu elogiar os parlamentares e o governo.

Num outro debate sobre corrupção na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizado no mês passado, o delegado disse que Lula é o “presidente que mais trabalhou neste país. E tentam achincalhá-lo aqui, numa revista que não tem credibilidade nenhuma. Não se pode fazer isso com um presidente da República”. Sobre Dilma Rousseff, Queiroz afirmou que a ministra “prestou serviços relevantes ao país” e é “uma das maiores ministras da Casa Civil” que o Brasil já teve.

Durante seu depoimento à CPI, o delegado não contou apenas com uma liminar do STF para continuar com a boca fechada. Contou também com o apóio dos deputados do PSOL. Os deputados Chico Alencar e Luciana Genro, que compõem a CPI, atuaram no sentido de defender sua postura de se esquivar das perguntas.

Num determinado momento, o deputado Raul Jungman (PPS) perguntou ao delegado se era verdade que a Rede Globo tinha filmado as prisões da Operação Satiagraha no lugar na Polícia Federal. Luciana Genro defendeu o delegado, dizendo que a pergunta de Jungman estava usando informações sigilosas de inquéritos que não poderiam ser utilizadas.

Na prática, a postura dos parlamentares do PSOL jogou água no moinho daqueles que optaram em conduzir a CPI na via do acordão.