Protestos contra a crise e os cortes da troika chegam à Paris

Protesto em Paris reuniu 80 mil
Esquerda.net

União Europeia e a Zona do Euro registram desemprego recorde causado pelas políticas de austeridade e cortes sociaisApesar das desigualdades, os protestos contra a política de cortes e austeridade fiscal ditada pela troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) ampliam-se pelos países da Zona do Euro. Após a marcha que cercou o congresso em Madri no dia 25 e a greve geral que parou a Grécia no dia seguinte, foi a vez de Paris viver uma mobilização de dezenas de milhares de pessoas contra a política de arrocho fiscal e os cortes sociais.

No dia 30 de setembro, domingo, cerca de 80 mil pessoas foram às ruas da capital francesa protestar contra os cortes anunciados pelo presidente ‘socialista’ François Hollande. A exemplo do governo grego de Samaras, foi a primeira grande manifestação enfrentada por Hollande, eleito em maio último. O governo francês anunciou o maior ajuste fiscal em três décadas, com aumento nos impostos e corte no Orçamento, a fim de poupar 30 bilhões de euros até o final de 2013.

Os cortes anunciados fazem parte do chamado “Tratado Merkel”, um acordo europeu que visa reduzir o déficit público dos países do euro para o limite de 3%. A França tem, hoje, déficit equivalente a 4% do PIB.

Apesar de dirigido pela Frente de Esquerda e seu ex-candidato, Jean-Luc Mélenchon, a ONG Attac (que defende taxação sobre transações financeiras), assim como o NPA, setores que estão longe de questionar o capitalismo e que criticam apenas alguns pontos do tratado de austeridade, a mobilização mostrou o descontentamento dos trabalhadores e da juventude francesa com os efeitos da crise e os rumos do governo Hollande. “Não à ditadura da troika”, estampava faixas e cartazes.

Já na Itália, os efeitos da crise econômica também se aprofundam e trinta mil foram às ruas no último dia 28, contra o governo de Mário Monti. O protesto com paralisação reuniu principalmente servidores públicos, como professores universitários e funcionários da limpeza e saúde pública. Monti aprovou em agosto um novo corte nos gastos do governo que inclui a redução do orçamento na Saúde. Seu governo já impôs uma reforma trabalhista, a alta nos impostos e a redução das aposentadorias.

Espanha e Portugal dizem ‘não’ à troika
Se a população começa agora a voltar às ruas em países como França e Itália, contra os cortes sociais, na península a situação é bem mais avançada. Tanto em relação à crise quanto à resistência imposta pelos trabalhadores e a juventude. Em Madri, após o multitudinário protesto no dia 25, que circundou o parlamento e enfrentou dura repressão (que deixou mais de 100 presos e dezenas de feridos), a multidão com a juventude à frente voltou às ruas desafiando o governo.

As manifestações continuaram no dia 26, coincidindo com um dia de greve geral no País Basco convocado pelo Sindicalismo Independente, e no dia 29, sábado, quando uma multidão ainda maior ocupou as ruas do centro de Madri ao redor da Praça Netuno, próximo ao Congresso, exigindo a “demissão” do governo de Mariano Rajoy. A massa de jovens e trabalhadores desafiou o governo, que havia declarado ‘ilegal’ o protesto.

Para este dia 2 de outubro, entidades sindicais de policiais convocavam um protesto em frente ao Ministério do Interior, contra os cortes e o governo Rajoy. “Há determinados profissionais da política que se especializaram em se esconder atrás do trabalho da polícia para não terem que dar explicações à sociedade por seus erros”, afirma um comunicado conjunto divulgado à imprensa.

O governo Rajoy, por outro lado, se prepara para realizar oficialmente um pedido de resgate à Comissão Europeia, o que vai lhe exigir ainda mais cortes e aperto fiscal. Os protestos no Estado Espanhol, porém, vem se radicalizando e tomando um caráter claramente anti-regime, com a palavra-de-ordem “que se vayan todos” sendo retomado das insurreições que derrubaram uma série de governos na América do Sul da virada do século.

Portugal também vive um aumento nos protestos contra a política da troika. Nesse dia 29, Lisboa testemunhou outra grandiosa manifestação que ocupou o Terreiro do Paço (praça localizada junto ao Rio Tejo), convocado pela central sindical CGTP. Segundo a imprensa, a concentração na cidade foi ainda maior que a jornada de protestos realizada no dia 15 desse mesmo mês. No dia anterior, funcionários do metrô faziam uma paralisação de 24 horas contra o corte dos salários e a privatização da empresa.

Em Portugal, o governo do primeiro-ministro Passos Coelho, além dos planos de austeridade exigidos pela troika, tentou aprovar uma medida que foi recebida como uma verdadeira provocação pelo povo que, ao lado da Grécia e Espanha, enfrenta os piores efeitos da crise na região. A medida, apelidada de “Robin Hood às avessas”, aumentava em 7% a contribuição dos trabalhadores para a aposentadoria (de 11% para 18%), enquanto reduzia a contribuição das empresas em 5,75% (de 23,75% para 18%). Ou seja, significava uma transferência direta de parte dos salários dos trabalhadores para os empresários.

As mobilizações forçaram o governo a recuar da medida. Nesta semana, a CGTP discute a convocação de uma greve geral no país.

Crise e resistência
A política de austeridade e cortes imposta pela troika e o governo alemão de Angela Merkel vem arrastando os trabalhadores do continente para uma verdadeira tragédia social. Avança o processo de colonização dos países periféricos da Zona do Euro e amplia a crise nos países hegemônicos, como vemos na França. De forma geral, aprofunda a crise da União Europeia.

Neste dia 1º de outubro, o escritório Eurostat, da Comissão Europeia, divulgou o recorde no desemprego na Zona do Euro, que bateu os 11,4% em agosto, o que significa nada menos que 18 milhões de pessoas sem trabalho no bloco. Em toda a União Europeia, o número de desempregados chega a 25 milhões, um aumento dramático de 2,2 milhões em apenas um ano. No Estado Espanhol, o índice de desemprego chega a 25,1%, enquanto que na Grécia é de 24,4%. Em Portugal, 15,9% da população economicamente ativa não encontra trabalho.

As mobilizações contra a crise e seus efeitos, porém, aprofundam-se nos países periféricos da Zona do Euro, como Espanha, Portugal e Grécia, tendo sinais de retomada na Itália, e avançam na França, o centro do bloco econômico, ao lado da Alemanha. Assistimos assim, apesar de todas as desigualdades, uma sincronização cada vez maior da crise e das lutas contra a crise em seu atual epicentro.

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