Programa eleitoral na TV: o nada embalado em superprodução hollywoodiano

Em uma campanha que começou antecipada, o primeiro dia do programa eleitoral gratuito na TV, nesse dia 17 de agosto, foi cercado de expectativa. É lá que os candidatos vão tentar consolidar seu favoritismo ou virar nas pesquisas de intenções de votos. Não é novidade, portanto, os milhões que os grandes partidos gastam na produção dos programas eleitorais, que cada vez mais se aproximam de verdadeiras superproduções cinematográficas.

Se o último período já foi vazio de qualquer espécie de debate eleitoral, a despolitização que marca a campanha só tende a se aprofundar. O primeiro programa dos dois principais candidatos, José Serra e Dilma Roussef, já mostraram que os marqueteiros vão tentar esconder a completa ausência de diferença política entre as duas candidaturas, com muitos efeitos especiais, além de uma série de artifícios novelescos, como uma trilha sonora emocionante e o enfoque na biografia dos presidenciáveis. Tudo para não falar de política.

O Zé do PSDB
O que primeiro chama a atenção na propaganda eleitoral gratuita, que deveria em tese ser um espaço para os candidatos exporem suas ideias aos eleitores, é o profundo caráter antidemocrático dessas eleições. As coligações encabeçadas pelo PT e PDSB detêm juntas mais de 17 minutos do horário dedicado aos candidatos ao Planalto, monopolizando quase que totalmente o tempo dedicado aos presidenciáveis, enquanto as demais candidaturas se espremem em tempos que vão de 1 minutos e 23, que é o caso de Marina Silva, aos reduzidos 55 segundos do PSTU.

Nesse teatro eleitoral, os dois principais candidatos podem se dar ao luxo de esbanjar o tempo com longas vinhetas embaladas por músicas e imagens estonteantes. Produzidos por marqueteiros, os candidatos são moldados como um produto qualquer, quase como um sabão em pó na prateleira de um supermercado. Vale a máxima de que conteúdo não é nada, mas imagem é tudo.

Nessa linha, a tentativa do PSDB de retrabalhar a imagem de José Serra beirou o ridículo. O nome do tucano, com toda a razão, está associado às elites, às privatizações do período FHC e à direita. O programa do partido, porém, tentou apresentar aos eleitores um candidato diferente, um “Zé” de origem humilde e próximo ao povo. Exatamente o contrário de tudo o que o candidato representa. Nessa tentativa frustrada, o mais constrangedor foi uma favela cenográfica usada como palco para o candidato e o seu jingle, que diz “quando o Silva sair, é o Zé que quero lá”.

Os marqueteiros tucanos chegaram a trocar as cores tradicionais do partido, utilizando o verde e amarelo no lugar do histórico azul. O programa do PSDB se centrou no histórico do candidato, enfocando sua passagem pelo ministério da Saúde no período FHC, ao mesmo tempo em que pintava o estado de São Paulo como uma ilha de prosperidade e abundância devido ao seu governo. As epidemias de dengue durante a época de Serra como ministro, assim como as privatizações, o desemprego e o aumento da pobreza durante o governo FHC foram evidentemente ignorados. Assim como os pedágios nas estradas paulistas.

Uma personagem chamada Dilma
Já o programa da candidata governista trouxe uma superprodução hollywoodiana para apresentar Dilma ao grande eleitorado. No primeiro programa, na parte da tarde, os 10 minutos do PT dedicaram-se a conferir a Dilma uma personalidade própria, a fim de fugir à pecha de candidata “poste” de Lula. Desta forma, a biografia da candidata foi editada para mostrar uma linha de continuidade entre seu passado de luta contra a ditadura, seu engajamento no processo de abertura política até sua atuação como ministra no governo Lula. Nessa última parte, a história foi reescrita para mostrar Dilma como figura central do governo Lula desde seu primeiro momento. Na verdade, ela assumiu posição de destaque só após o escândalo do mensalão, que derrubou todo o alto escalão do PT no governo.

O programa da noite da candidata petista tentou reforçar a ligação de Lula a Dilma, assim como a ideia de continuidade do que seria seu futuro governo. Tomadas aéreas e belas imagens filmadas em película de cinema traziam um Brasil idílico, só existente na ficção que se tornou o programa eleitoral. A fala, os gestos e até mesmo a entonação de voz, foram visivelmente ensaiados, num exercício de “media training”. Por fim, uma trilha emocional tentava arrancar lágrimas dos espectadores.

Tanto Serra quanto Dilma se esmeraram em dar o tom mais emocional possível aos seus programas. O motivo não é difícil perceber. Sem argumentos racionais para se diferenciarem politicamente, o terreno das emoções é o único onde podem encenar essa falsa polarização.

PSOL ataca financiamento de bancos, mas…
O primeiro programa de Plínio Sampaio se resumiu à biografia do candidato. Já o segundo, exibido à noite, causou mais impacto ao trazer uma paródia de Dilma e Serra, ambos caracterizados como lutadores de boxes num ringue, financiados pelos grandes bancos. Eles são “nocauteados” pelo PSOL.

A denúncia é correta e o programa é bastante criativo. Mas fica um questionamento ao partido de Plínio. Não pode ter financiamento de bancos, mas e de empresas? Em 2008 o PSOL do Rio Grande do Sul recebeu R$ 100 mil da Gerdau, além de recursos da Taurus. Agora, a polêmica sobre financiamento privado foi um dos principais pontos para a não reedição da Frente de Esquerda.

PSTU: um operário e socialista dessa vez
A candidatura de Zé Maria abriu sua série de programas mostrando que o Brasil divulgado pela imprensa e o governo está longe do país de verdade em que vivem cotidianamente milhões de trabalhadores. Nos seus parcos 55 segundos, o programa denunciou os baixos salários e as dívidas que crescem a cada dia.

“Muitos apóiam o governo porque o comparam com os terríveis anos de FHC; o PT usa essa lembrança para esconder que poderia ter mudado realmente esse país”, explica Zé Maria, contextualizando os altos índices de popularidade do governo Lula, mesmo com uma política econômica que nada deve aos oito anos de FHC.

“Não é verdade que o único caminho era governar com os patrões; é possível ter salário decente e emprego para todos” , afirma ainda Zé, dizendo que para isso é necessário “enfrentar as grandes empresas e os bancos”. O candidato denunciou ainda o boicote da mídia à sua candidatura e a falta de democracia na campanha eleitoral, chamando as pessoas a entrarem no site e conhecerem mais sobre a candidatura.

VEJA O PRIMEIRO PROGRAMA DO PSTU