Precisamos ou não de uma nova entidade estudantil?

Decadência e governismo da UNE impõe o debate sobre uma nova alternativa. Para que a Frente de Luta seja vitoriosa, ela não pode se restringir a ser um espaço superestrutural, muito menos um acordo entre correntesA subida de Lula ao poder e a transformação da UNE numa entidade chapa-branca do governo abriu uma dura polêmica e dividiu águas na esquerda do movimento estudantil brasileiro. De um lado, ficaram aqueles que ainda acreditavam na disputa de seus rumos. Do outro, os que abriram um novo caminho e formaram a Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes (Conlute).

Hoje, já não existe a polêmica sobre a possibilidade de resgatar a UNE para as lutas. Até mesmo os setores moderados do PSOL, como o Movimento de Esquerda Socialista (MES) e a Ação Popular Socialista (APS), não sustentam mais esse discurso. Não era para menos. Após sucessivos congressos, a UNE se tornou cada vez mais governista, burocrática e com uma hegemonia esmagadora do PCdoB e seus aliados. A vice-presidência da entidade que estava nas mãos da “esquerda” petista passou para a Articulação, corrente de Lula, Zé Dirceu e companhia. O PSOL, que tinha dois cargos na Executiva, atualmente tem apenas um.

Entre os estudantes das universidades públicas e também das particulares, a UNE é repudiada em todas as lutas ou simplesmente não é reconhecida. Foi assim na vitoriosa ocupação da USP, que derrotou os decretos do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), nas ocupações de reitorias que se alastraram por todo país nas universidades federais contra o Reuni de Lula e nas mobilizações contra as reformas curriculares na PUC-SP e na Fundação Santo André.

A UNE passou para o outro lado
Nesse processo, a UNE não passou de um aparato do Ministério da Educação a serviço da reforma universitária do Banco Mundial. No auge da luta contra o Reuni, sua presidente tentou desmoralizar as ocupações declarando que se tratava de um movimento elitista contra a democratização das universidades federais. Mais do que isso. Os diretores da UNE se transformaram literalmente em seguranças das reitorias e se enfrentaram fisicamente com os estudantes que lutavam nos conselhos universitários. A UNE não sumiu das lutas. Na verdade, se colocou do outro lado da trincheira. Juntou-se ao governo Lula, às reitorias e dividiu tarefas com a Polícia Federal.

A degeneração e inutilidade da UNE para as lutas é um fato demonstrado pela realidade, que não desperta maiores debates. Somente o PCdoB poderia dizer o contrário. A UNE, cada vez mais institucionalizada, foi cooptada não somente pelo atual governo, como também pelo Estado e pelo regime. Nem mesmo contra Serra, nome forte do PSDB para as eleições de 2010, a UNE foi capaz de se movimentar.

No entanto, o PSOL continua sustentando essa entidade, usando o pobre e o último argumento de ser a UNE uma “entidade histórica”. Se assim fosse os estudantes estariam condenados a ser eternos prisioneiros de um passado distante e veriam ruir diante de si a universidade pública.

A Frente de Luta e a nova entidade
Não por acaso, surgiu no final de 2006 a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária com o objetivo de reunir CAs, DCEs e Executivas de Curso para barrar os ataques do governo e lutar em defesa da universidade pública. A Frente, logo de início, ganhou a simpatia e a adesão do conjunto do ativismo e cumpriu um papel muito progressivo de unificar a oposição de esquerda ao governo Lula. A Conlute teve um papel protagonista no lançamento da Frente e seguirá não medindo esforços nesse sentido.

Mas para que a Frente de Luta seja vitoriosa em sua empreitada, ela não pode se restringir a um espaço superestrutural, muito menos um acordo entre correntes. A Frente deve se fortalecer através da construção de comitês de base, ampliar sua audiência com materiais periódicos, construir um site, congregar um número ainda amplo de entidades, enfim, tornar-se cada vez mais orgânica.

Os companheiros do PSOL, pelo menos nas palavras, dizem ter acordo com essas propostas. Então, fazemos a seguinte pergunta: o que é a Frente, senão o embrião de uma nova entidade estudantil?

Essa é uma justa expectativa de grande parte das entidades e dos ativistas do movimento. A Executiva Nacional dos Estudantes de Letras (ExNEL) deliberou em seu último encontro uma posição favorável a essa política e fez uma carta chamando o conjunto dos estudantes a se somarem nessa tarefa.

Além da ExNEL, as executivas de Pedagogia e Geografia também já romperam com a UNE. A histórica Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) aponta no mesmo sentido e já orientou a ruptura para as suas escolas.

Fica cada vez mais evidente que a construção de uma nova entidade representativa é uma necessidade do movimento e que, através dela, poderá se derrotar o governo Lula e seu projeto privatizante. As tentativas de maquiar o cadáver da UNE desperdiçam tempo e energia, que poderiam ser canalizadas para construção do novo.

O desafio agora é reconstruir a unidade de todos os lutadores e fundar uma nova entidade nacional capaz de responder a altura os novos tempos, independente do governo e das reitorias e tenha a democracia interna e a aliança com os trabalhadores como seus princípios. Nessa luta os companheiros do PSOL são parte fundamental.

CONFIRA AS DATAS DAS PRÓXIMAS ATIVIDADES DA FRENTE:

  • 16/2 – Frente de Luta Contra a Reforma Universitária (UFRJ/Campus da Praia Vermelha)
  • 17/2 – Fórum de Executivas e Federações de Curso (UFF/Niterói)
  • 18/2 – Nova entidade (UFRJ – Campus da Praia Vermelha)

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