Potências fracassam em dar uma resposta à crise capitalista

Apesar dos discursos, a reunião do G20 não aprovou nenhuma medida concreta para pôr fim à crisePerguntado por jornalistas sobre o que seria preciso para a reunião do G20 ser um sucesso, dias antes do encontro, o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, não teve dúvidas: “vocês dizerem que foi um sucesso”. O britânico indicava, desta forma, o verdadeiro objetivo da reunião de cúpula realizada no dia 2 de abril: um golpe de marketing para dar ao mundo e ao mercado a falsa impressão de que os principais países do globo estão unidos na luta contra a crise mundial.

As preparações para a reunião foram acompanhadas por uma crescente expectativa, inflada pelos próprios governos e pela mídia. Contribuiu para isso o fato de essa ter sido a primeira reunião de cúpula com a presença de Barack Obama já como presidente dos Estados Unidos. As tensões entre os países, porém, pareciam se aprofundar a tal ponto que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, chegou a ameaçar abandonar a reunião antes mesmo de seu início.

Aparentemente, dois blocos se formaram. De um lado, os EUA e o seu fiel escudeiro, o governo do Reino Unido, pedindo mais ajuda financeira aos mercados. Do outro, a União Europeia, com França e Alemanha à frente dos pedidos por uma nova regulação e fiscalização do sistema financeiro internacional.

A declaração final do encontro tenta contemplar as duas posições. Anunciado como o primeiro passo de uma nova ordem mundial, o conjunto de medidas do G20 prevê US$ 1,1 trilhão para reaquecer a economia, fortalecendo o FMI e o Banco Mundial como órgãos de ajuda aos países em dificuldade. A condenação do protecionismo e dos paraísos fiscais e a retomada da Rodada Doha (negociações para abertura comercial na OMC) foram alguns dos compromissos firmados. Foi também anunciada a criação de um Conselho de Estabilidade Financeira, órgão que, ao lado dos outros organismos multilaterais, supervisionaria o mercado.

Palavras vazias
As palavras dos chefes de Estado ao final da cúpula, no entanto, parecem valer tanto quanto as ações da General Motors hoje. A carta de intenções do encontro não difere muito daquela divulgada na última reunião do G20, realizada em novembro do ano passado, em Washington. Após esses meses, no entanto, a crise não só se aprofundou como o conjunto de países que integram o grupo adotou, segundo a OMC, nada menos que 47 medidas protecionistas.

Já o grupo de medidas divulgado em Londres não apresenta qualquer ação concreta para enfrentar a crise. Grande parte do trilhão que viria dos países para aplacar a crise faz parte de pacotes já anunciados. Não se tem detalhes de como funcionaria o tal novo órgão de fiscalização internacional, mas os EUA já disseram que não aceitariam tal instrumento. A condenação dos paraísos fiscais, por sua vez, veio apenas através de uma lista de países que funcionariam como fuga de dinheiro. “A era do sigilo bancário acabou”, chegou a blefar Gordon Brown.

Tal lista, porém, exclui os maiores paraísos fiscais do mundo, como a Suíça. Algumas regiões dos Estados Unidos também servem como refúgio para capitais de origem obscura. Países como a China também se opõem à medida. De fato, seria impensável um capitalismo sem lugares adequados para se guardar todo o dinheiro de corrupção, narcotráfico, manobras financeiras ilegais e todo o tipo de prática que já é parte integrante e fundamental do sistema financeiro.

Mais um exemplo do vazio das palavras dos líderes do G20 se deu no próprio dia da reunião. Ao final do dia 2, as bolsas de todo o mundo fechavam em alta. Esse ânimo repentino, porém, não foi despertado apenas pelo otimismo da declaração final do encontro. Foi causado por uma mudança no sistema de avaliação das ações dos bancos nos EUA. O governo norte-americano permitiu que os próprios bancos e empresas colocassem preço em seus ativos furados. Tal medida legitima, na prática, a maquiagem contábil, podendo valorizar em até 20% o valor dessas ações.

Enquanto em Londres se discutia uma maior regulação do sistema financeiro, nos EUA o próprio governo institucionalizava a fraude contábil nos grandes bancos.

Uma nova ordem mundial?
A reunião do G20 mostrou, sobretudo, que o mundo não caminha para uma nova ordem mundial. Por enquanto, assiste à desagregação da velha ordem. Mas, se nenhuma mudança concreta ocorreu, teria pelo menos o G8 morrido para dar lugar a um suposto mais democrático G20? Nem isso. Por mais que Obama diga que Lula é o cara, são as grandes potências capitalistas que continuam a ditar as regras do jogo, com os EUA à frente.

Os sorrisos e as poses para as fotos dos chefes de Estado não podem esconder, por outro lado, o aumento da tensão entre o imperialismo norte-americano e o europeu. A verdadeira discussão é quem vai pagar a conta da crise.

Os EUA já não suportam um déficit ainda maior e pressionam a Europa a seguir seu exemplo e despejar trilhões nos mercados financeiros. O atual presidente da União Europeia, o premiê da República Checa, já afirmou que esse caminho levará o mundo “ao inferno”. A quebradeira dos países do Leste Europeu, porém, ameaça o sistema bancário europeu e pode levar ainda mais instabilidade ao sistema financeiro.

Nenhuma medida cogitada, no entanto, prevê qualquer mudança significativa. Mesmo que esses países resolvessem suas disputas e conseguissem pôr em prática o que foi prometido em Londres, não amenizariam a crise.

Não foi por menos que, ao lado da crítica à desregulamentação do sistema financeiro, o comunicado final do G20 fez questão de renovar sua fé nos princípios do livre mercado. A grande proposta é justamente reforçar os mesmos FMI e Banco Mundial, que tiveram grande parcela de responsabilidade na atual crise.

Enquanto isso, o protecionismo cresce. O comércio externo tem a primeira redução em trinta anos e todos os organismos internacionais já preveem um período de recessão mundial. A economia mundial está num impasse e a resolução dessa crise nos marcos do capitalismo virá através do aprofundamento do predomínio do capital financeiro parasitário. Isso significa o aumento da exploração dos trabalhadores e dos países semicoloniais. Tudo para viabilizar uma maior taxa de lucros que permita um novo período de crescimento.

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