Porque nos opomos ao PSUV

Alguns dirigentes de organizações na Venezuela já anunciaram que irão se incorporar ao PSUV, se submetendo ao controle do comandante Chávez.Uma das propostas que Chávez realizou foi a formação do PSUV (Partido Socialista Único da Venezuela). Todas as organizações e setores que o apóiam deveriam se integrar na estrutura desse novo partido. Como esta proposta foi realizada junto com o anúncio da “construção do socialismo do século 21”, o PSUV é apresentado como a organização política que encabeçaria essa fase. Entretanto, acreditamos que os objetivos reais do PSUV e seu conteúdo de classe como organização são totalmente diferentes.

`Bonapartismo sui generis`
Nesse Correio Internacional, analisamos que a Venezuela continua sendo um país capitalista semicolonial e que a política de Chávez não pretende transformar essa situação. Chávez encabeça o aparato de Estado e um regime político cujo objetivo é defender o sistema capitalista. Por isso, o PSUV será, desde sua própria formação, um partido burguês, construído a partir do Estado burguês e com uma direção burguesa, mesmo que sua base seja operária e popular.

O projeto do PSUV não representa, na realidade, nenhuma novidade histórica, já que será muito parecido ao que foi o peronismo argentino, o PRI mexicano ou os partidos do nacionalismo árabe. Estes partidos encabeçam um tipo de regime político que Trotsky denominou de “bonapartismo sui generis”. São expressões burguesas dos países atrasados que buscam se apoiar no movimento de massas para tentar compensar sua debilidade frente ao imperialismo, e assim chantageá-lo para conquistar alguma margem um pouco maior de “independência”.

Entretanto, ao se apoiar nas massas, acabam “brincando com fogo”, pois existe o sério perigo de que a mobilização se transforme num processo independente e revolucionário que rompa os marcos do Estado burguês. Por isso, ao mesmo tempo, esses têm a necessidade imperiosa de exercer um férreo controle sobre elas, de construir “diques de contenção” para impedir que percam o controle do movimento de massas.

Para isso, empregam ferramentas clássicas para controlar a mobilizações. A primeira é a transformação da estrutura sindical em um aparato estatal totalmente dominado pelo governo, através de seus agentes, e sem nenhuma margem (ou com margens muito escassas) de democracia operária. A outra ferramenta chave é a construção de um partido ultracentralizado em torno do “líder”, ou do “alto comando”, com poderes totais. As conquistas ou concessões que esses governos dão às massas são uma forma de ganhar sua adesão e a justificativa desse controle totalitário.

O exemplo do peronismo
Um fato da história argentina mostra claramente o objetivo da direção burguesa de controlar e disciplinar as massas. Em sua primeira vitória eleitoral, em 1946, Perón se apoiou no Partido Trabalhista, organizado nos sindicatos e na burocracia sindical. Após o triunfo, Perón dissolveu este partido, prendeu vários dos seus dirigentes que se opuseram à medida, como Cipriano Reyes, e criou o Partido Justicialista, rigidamente disciplinado à sua direção pessoal. Apesar do apoio, o Partido Trabalhista representava um perigoso processo de organização independente dos operários.

Uma grande necessidade
No caso do chavismo, a necessidade de controlar as massas se agudiza porque elas vêm de duas grandes mobilizações revolucionárias independentes: o Caracazo (1989) e a luta contra o golpe e o lockout patronal (2002-2003). O verdadeiro objetivo do PSUV não é “impulsionar a revolução e a construção do socialismo”, mas disciplinar o movimento de massas sob a direção burguesa do Comandante Chávez e sua política de frear o processo revolucionário. O primeiro passo é disciplinar os quadros e organizações “chavistas autônomas”, em especial, a UNT (União Nacional dos Trabalhadores).

Nossa Proposta
Nos opomos ao ingresso das organizações operaárias aos PSUV, muito mais se for “compulsória” ou que seja sob pressão do Estado e do governo. Defendemos o direito de todas as organizações políticas, sociais e sindicais a permanecerem fora desse partido.

Ao mesmo tempo, defendemos a necessidade de construir um partido dos trabalhadores, independente de qualquer setor burguês, incluído o governo chavista. Neste marco, levantamos a necessidade da construção de um partido operário revolucionário que lute pelo verdadeiro socialismo contra a política do “chavismo” de manter o capitalismo na Venezuela.

Debate no interior do PRS e da CCURA
Os trabalhadores venezuelanos vivem um rico processo de reorganização cuja expressão mais importante está sendo a construção de uma central sindical: a UNT (União Nacional dos Trabalhadores) em alternativa à velha CTV.

Também se desenvolvem experiências como a construção do PRS (Partido da Revolução e do Socialismo) e da CCURA (Corrente Classista Unitária Revolucionária), ligada ao PRS e de bastante peso no interior da UNT. Embora as posições expressadas pela maioria de seus dirigentes sejam favoráveis ao chavismo, em ambas organizações estão agrupados centenas dos melhores ativistas operários dos últimos processos.

Atualmente se desenvolve tanto no PRS como na CCURA, um debate sobre a atitude que se deve adotar sobre a proposta do PSUV. A CCURA votou uma resolução de ingressar no PSUV, ainda que exija algumas condições. Acreditamos que isso seria um completo erro. Seria um equívoco inclusive mesmo que essas organizações se integrem como correntes ou tendências, como propõem alguns dirigentes. Tal atitude significaria liquidar as experiências de organização independentes dos trabalhadores para ingressar num partido burguês e se submeter à sua direção.

Defendemos que o PRS e a CCURA se mantenham fora do PSUV. Chamamos todos os militantes e correntes que atuam no seu interior para levarmos juntos essa batalha, pois isso é uma necessidade dos trabalhadores e das massas venezuelanas para construir as ferramentas que permitam que o processo revolucionário avance realmente até o socialismo.

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