Por que não vamos ver o Papa

Impulsionada por uma forte campanha de mídia, comandada pela rede Globo, a visita do Papa Bento 16 levanta uma expectativa em grande parte da população brasileira. Nada mais natural, afinal, num país em que a maioria da população é, de alguma maneira, católica, a visita do líder máximo da Igreja provoca, pelo menos, uma certa curiosidade. Mas afinal quais os motivos que trazem Bento 16 ao Brasil?

Oficialmente o Papa virá abrir a 5ª conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Mas na agenda de Bento 16 também há espaço para encontros com Lula e José Serra, missas, visitas a atividades sociais da Igreja e ainda a canonização de Frei Galvão, o primeiro “santo brasileiro”. No fundo, entretanto, os objetivos da visita do Papa podem ser resumidos: bendizer o governo Lula (logo depois de Bush), combater uma série de medidas progressivas no campo da moral, reforçar a política de reorientação conservadora da Igreja e tentar atrair de volta para as igrejas parte dos católicos brasileiros.

Extrema direita católica em festa!
A chegada de Joseph Ratzinger ao Brasil abriu a oportunidade para os setores mais conservadores da Igreja virem a público e defenderem suas posições contra o aborto e contra a união civil entre homossexuais, ou mesmo contra os setores progressistas da Igreja. Afinal, esses grupos sabem que Bento 16 é um aliado de longa data (veja biografia ao lado) e que ele não perderá a ocasião para defender as suas posições reacionárias.

O novo Papa não esconde suas idéias, já qualificou o divórcio como uma “praga”; mantém a condenação ao uso de preservativos, o que favorece a proliferação da Aids, especialmente nos países pobres; além de condenar o aborto, os métodos anticoncepcionais, pesquisas com a utilização de células-tronco e uma série de medidas progressivas no campo da moral. Dessa forma, no Brasil, o secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e novo arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, já se declarou contrário à realização de um plebiscito sobre a legalização do aborto, e, na Cidade México, a Igreja ameaça excomungar os deputados municipais (vereadores) que pretendem aprovar o aborto.

”Limpar terreno”
A ofensiva conservadora, contudo, também visa eliminar ou pelo menos enfraquecer os setores mais progressistas da Igreja, notadamente a Teologia da Libertação na América Latina. Assim, não deixa de ser sintomático que a 5ª conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) tenha sido transferida do Equador, após a vitória do nacionalista burguês Rafael Correa, para o Brasil, depois da reclamação da igreja chilena, uma das mais conservadoras do continente e que colaborou com a ditadura de Augusto Pinochet, prontamente atendida pelo Vaticano.

Neste sentido, também se explica a recente condenação do jesuíta Jon Sobrinho, basco emigrado em El Salvador, com a qual o Vaticano tenta calar as vozes discordantes dentro da Igreja, da mesma forma como já foi feito contra outros teológos da Teologia da Libertação, como o brasileiro Leonardo Boff. Para o próprio Boff, com tais medidas “eles (os grupos ligados ao Vaticano) querem limpar o caminho para a chegada do Papa ao Brasil”.

Para Bento 16, não basta atacar os setores da igreja progressista, é necessário reforçar a igreja conservadora, daí sua aliança com os grupos católicos mais obscuros, como a Opus Dei, e a promoção para locais importantes da hierarquia de padres conservadores.

Por isso tudo, a expectativa é que Bento 16, velho inimigo da Teologia da Libertação, aproveite a visita ao Brasil para atacá-la. Afinal para o Papa, é inaceitável que a Igreja defenda uma nova ordem social na terra, ou seja, que os padres, em sua opção pelos pobres, não só condenem as misérias sociais trazidas pelo capitalismo, mas que também lutem pela superação da atual ordem social. Portanto, não causa espanto, que o novo arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, recém empossado, declare em uma entrevista à Folha de S. Paulo que o “tempo da Teologia da Libertação já passou”. Scherer é considerado um dos maiores representantes do vaticano no Brasil.

Intolerância e retorno ao passado
Desde que assumiu, Ratzinger utiliza uma série de expedientes para tentar atrair de volta às igrejas os fiéis cada vez mais distantes, daí a idéia de reintroduzir o latim na missa ou a midiática canonização de Frei Galvão (frade paulista que viveu entre os séculos XVIII e XIX em São Paulo).

Por outro lado, em um momento de agressão militar do imperialismo norte-americano e britânico a países islâmicos, Ratzinger pronunciou um discurso, no ano passado, que provocou a fúria do mundo muçulmano. Ele relacionou a religião islâmica e seu máximo profeta Maomé à questão da violência. “Mostre o que Maomé trouxe de novo e achará somente coisas más e desumanas, como sua ordem para espalhar pelo medo da espada a fé que pregava”, disse o pontífice. Analistas do Vaticano opinaram que o pronunciamento do Papa indicou uma mudança de postura da Igreja Católica depois da sucessão de João Paulo II, tido como um conciliador entre as religiões.
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