Polícia aumenta repressão aos atos e governo de Pernambuco impõe Lei Seca nos bairros

A repressão do governo do Estado de Pernambuco está cada vez mais próxima da política de segurança de países imperialistas, como os Estados Unidos e a França. Seguindo o estilo “tolerância zero”, o governo de Jarbas Vasconcelos (PMDB) resolveu de forma simultânea impor a lei seca nos bairros populares de toda a região metropolitana do Recife e uma brutal repressão contra o movimento estudantil e popular que está em luta contra o aumento das passagens de ônibus e metrô.

Em sua segunda semana, a mobilização contra o aumento da passagem continua forte, apesar da postura cada vez mais ditatorial de Jarbas e de João Paulo, prefeito do Recife, pelo PT. Na terça-feira, dia 22, quarto dia da revolta, continuaram ocorrendo ações espontâneas, mas fora do Centro do Recife. Ocorreram ações em diversos bairros da Zona Norte e em Olinda e também na Zona Sul. Cerca de 115 manifestantes foram presos nas mobilizações, muitos ficaram feridos e ao menos 74 ônibus foram depredados.

Até agora, houve uma grande unidade entre Jarbas (PMDB), PT, PCdoB, imprensa, deputados estaduais e as entidades estudantis governistas (Umes, UEP, UNE). Essa unidade começou com todos as prefeituras aprovando o aumento da passagem, a começar pelas de Recife (PT) e de Olinda (PCdoB). Paralelo a isto, o governo estadual impôs um verdadeiro estado policial. O comandante da tropa de choque afirmou: “Se tiver baderna a gente dá porrada. Se não tiver, a gente dá porrada para prevenir”. Assim, grupos de manifestantes em passeatas são recebidos com cassetetes e bombas, apenas por estarem reunidos. Na segunda-feira, até mesmo um militar, que pediu aos policiais que parassem de agredir dois estudantes, virou alvo: “Eles deram pontapés, chutes e coronhadas. Um tenente chegou a colocar uma pistola na minha cabeça, ameaçando atirar“.

O papel da CUT e da UNE tem sido deplorável. As entidades governistas se comprometeram a entregar para a polícia qualquer “baderneiro” que não seja estudante e que não esteja agindo de forma ordeira e pacifica. Mesmo tentando dividir o movimento, a CUT e a UNE convocam mobilizações, para supostamente ajudar na luta.

O aparato policial e os seus serviços de informações continuam a atuar à moda dos tempos da ditadura militar. Os membros do Comitê Contra o Aumento estão sendo seguidos e intimidados. Isto ocorreu com os companheiros Rafael Baltar, da Conlute e do PSTU, Izabel, da UESPE e do PCR, e dirigentes do P-SOL.

Com o aumento da repressão, até a imprensa começou a mudar o tom e romper a unidade com Jarbas. O Jornal do Commercio, depois de dias condenando os protestos e chamando os manifestantes de baderneiros, classificou a ação policial como truculenta. O Diário de Pernambuco estampou na capa a manchete “PM exagera na dose”. A OAB também mudou de tom, e seu presidente pediu a destituição do comandante da PM, o coronel Meira, após a publicação de uma foto onde este dava uma `gravata` em um estudante.

Estado de sítio na periferia
Enquanto ocorria as mobilizações contra os aumentos da passagem, entrava em vigor o decreto estadual que estabelece a lei seca em 34 bairros populares e favelas da Região metropolitana do Recife. A ação obriga bares, restaurantes, churrascarias, casas de espetáculos e vendedores ambulantes a interromperem as atividades das 23 horas às 5h da manhã, diariamente. Esse decreto se aplica às denominadas Regiões Especiais de Defesa Social, isto é, os bairros populares e favelas. Caso os estabelecimentos se neguem a cumprir este decreto, serão interditados por 90 dias.

Famosas casas de espetáculos como a gafieira “Clube das Pás”, de Campo Grande, que funciona há 117 anos e o “Boa Vista Social Clube”, no Alto Santa Terezinha, terão que fechar as suas portas mais cedo. Essas tradicionais casas de espetáculos não estão localizadas em Boa Viagem ou na Piedade, onde a burguesia e a alta classe média continuarão a se divertir a noite toda, sob a devida proteção policial.

Não foi mera coincidência a imposição da “lei seca” em 34 bairros populares da Região metropolitana e a entrada em vigor dos aumentos da passagem de ônibus e do metrô. Também não é gratuita a ira e a radicalização da juventude plebéia e da população em geral contra o aumento das passagens.

Burguesia e PT fecham as portas para qualquer negociação
Até este momento, não houve o menor aceno de negociação por parte do governo ou das prefeituras. Ao contrário, o governo e os patrões afirmam que o aumento, em média de 9,55%, foi pequeno. A Assembléia Legislativa preparava uma audiência pública para esta quarta, mas até mesmo esta falsa negociação foi suspensa. Classificando essa atitude como “ato de prudência”, os deputados acabaram com as ilusões de grande parte dos manifestantes. Segundo o deputado Sergio Leite, o fim da audiência foi feito em resposta às depredações e aos conflitos da semana passada. A hipocrisia do PT não tem limites. Leite afirma que a Assembléia continuará “acompanhando a negociação para encontrar uma saída para o impasse”.

Para não deixar dúvidas de que está de forma incondicional ao lado dos patrões e do governo estadual, a prefeitura do Recife e o governo estadual, em nota conjunta, reafirmam e justificam os aumentos. Além disso, o prefeito petista e o governador “repudiam a forma violenta dos protestos e continuarão a fazer todos os esforços para que a população não seja prejudicada em seu direito de ir e vir”.

Não é exagero comparar as mobilizações de Recife com a insurgência da juventude de origem árabe e africana da França, assim como a política e a repressão do governo Jarbas e do PT guardam enormes semelhanças com a política imperialista de Chirac, Sarkozy e Villepin e também da “oposição” social-democrata.

Continuar os protestos
Os vários atos marcados para esta quarta, dia 23, prometem ser decisivos para a luta. Pela manhã, haverá um ato na Praça da Independência, que, depois, se somará a uma marcha do MST e do MTL, em luta pela reforma agrária.

Continuar as mobilizações e unificar com setores operários e populares é a única alternativa capaz de derrotar Jarbas, João Paulo e os patrões. Ampliar a aliança social dos oprimidos e também a pauta de reivindicação para barrar outros aumentos como o pão, a luta contra o desemprego e a moradia. No caso específico do Recife, lutar para derrotar o “estado de sítio nos bairros populares” denominado de Lei Seca, e combinar esta luta com a pela estatização dos transportes, da energia e contra a corrupção de Lula e da oposição de direita, pelo Fora Todos.

Além disso, é preciso fazer uma campanha nacional de defesa de todos os lutadores, pela libertação dos ativistas ainda presos e de denúncia dos governos de Jarbas e João Paulo. Chamamos a solidariedade de todo o movimento operário, estudantil, popular e democrático de todo o país para derrotar as medidas ditatoriais.