Pobres pagam a conta da destruição ambiental

É isso que diz o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) divulgado em Bruxelas (Bélgica) no dia 8 de abril. O documento prevê que as mudanças climáticas no planeta, causadas pela emissão de gases estufa, afetarão, sobretudo, regiões onde vive a parcela mais pobre da população mundial.
Mais uma vez, temos uma pequena dimensão do que o capitalismo está fazendo com o nosso planeta. O relatório diz que cerca de 250 milhões de pessoas sofrerão com a falta de água na África, com uma redução de até 50% na produção agrícola em alguns países, até 2020. O mesmo pode ocorrer com regiões inteiras da Ásia, afetando mais de um bilhão de pessoas.

Com a relação à América Latina, a previsão aponta para a desertificação de regiões mais secas. O texto ainda diz que o nordeste do Brasil pode perder 70% da recarga de seus aqüíferos.

Em fevereiro deste ano, um primeiro relatório do IPCC apontou, pela primeira vez, que a queima de combustíveis fósseis é responsável pelo aquecimento do clima. Segundo o texto, até 2100 a temperatura da Terra aumentará entre 1,8ºC e 4ºC. O pior de tudo é que IPCC diz que o aquecimento já produziu fenômenos irreversíveis.
A adoção de combustíveis fósseis (petróleo, gás, etc) como matriz energética libera o dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, que cria “um cobertor”, impedindo a energia solar se dissipar no espaço. Esse fenômeno é conhecido como efeito estufa.
Os EUA são os maiores consumidores desses recursos e responsáveis pela emissão de 20% de todos os gases-estufa na atmosfera. Mas a transformação da China (segundo maior poluidor mundial) em uma plataforma de exportação imperialista aumenta ainda mais a degradação ecológica.

O último relatório do IPCC mostra algo que todos já sabiam. Os países capitalistas ricos destroem o meio ambiente, e quem paga a conta é população pobre. Mesmo que todos os países pobres adotassem políticas de conservação ecológica seria impossível impedir o avanço da destruição, uma vez que os maiores responsáveis são os países imperialistas.

Uma importante diferença
Os dramáticos resultados do desequilíbrio ecológico estão aí para todo mundo ver. Há décadas o planeta sofre uma destruição ambiental provocada pela lógica destrutiva da acumulação capitalista. Fenômenos climáticos extremos (enchentes, secas, furacões, ondas de calor, etc.) estão se tornando uma constante e não adianta tapar o sol com a peneira, dizendo que o aquecimento do planeta é algo natural. É certo que o clima do planeta não é algo estanque e imutável. Ao longo de bilhões de anos, a Terra passou por inúmeras e bruscas mudanças climáticas. Contudo, a intervenção humana está acelerando esse processo a olhos vistos.
Cidades costeiras podem ser inundadas com a elevação dos oceanos causada pelo derretimento do gelo polar. Habitantes de continentes e regiões super-habitadas irão sofrer com a seca e a diminuição de terras cultiváveis.

No entanto, há uma diferença nisso tudo. Apenas os países imperialistas poderiam promover as profundas adaptações que a mudança climática vai exigir. Podem, por exemplo, impedir que suas cidades sejam devastadas pela elevação dos oceanos. Um exemplo é a Inglaterra. Por muito tempo, Londres, que se encontra praticamente no nível do mar, sofria inundações quando chuvas prolongadas ou o brusco derretimento da neve coincidiam com marés altas, afetando o volume de água do rio Tamisa, que corta a cidade. A solução foi a construção, em 1982, de um sistema de comportas para regular o fluxo das marés. Com a ameaça de uma elevação do nível dos oceanos estuda-se agora a construção de um novo sistema para impedir qualquer ameaça de inundação.

Mas os países semicoloniais não possuem recursos para tal adaptação, uma vez que suas riquezas são espoliadas pelo imperialismo. É muito pouco provável que Bangladesh (ex-colônia britânica, um dos países mais pobre do mundo que é afetado por constantes enchentes) possa construir um sistema de comportas como o de Londres. Uma pequena elevação dos oceanos pode ter conseqüências catastróficas para esse pequeno, mas populoso país asiático.

Mas não são apenas os países pobres que irão sofrer as conseqüências do aquecimento global. A população pobre dos países imperialistas também terá menores condições de enfrentarem as mudanças do clima. Um exemplo disso foi a catastrófica enchente que se abateu sobre Nova Orleans (EUA) em 2005, que provocou dias de barbárie em pleno coração do império. A passagem do furacão Katrina rompeu os diques que protegiam a cidade e destruiu bairros onde vivia a população negra e pobre. Até hoje o governo Bush não reconstruiu os bairros afetados.

Por outro lado, os países semicoloniais também enfrentam a degradação ambiental provocada por multinacionais e grandes corporações. A África, por exemplo, se tornou uma espécie de “aterro sanitário” do imperialismo e das multinacionais. Lixo radioativo na Somália, derrama de produtos tóxicos junto à Costa do Marfim, mais de 5 mil litros de cloro abandonados nos Camarões, são apenas alguns exemplos que tornam o continente o destino de uma boa parte do lixo tóxico do mundo.

O Brasil é outro exemplo dessa dinâmica. O acordo com o governo Lula e Bush sobre o etanol prevê a ampliação do agronegócio e, conseqüentemente, haverá mais desmatamentos das florestas.

Fala-se que o etanol seria a energia limpa, menos poluente que a gasolina. Entretanto, o plantio da cana para produzir o etanol precisa ser feito em grandes áreas (o que ameaça nossa soberania alimentar). Seu cultivo depende de muitos agrotóxicos e superexplora os cortadores de cana. Além disso, o cultivo utiliza o método das queimadas. Basta ir a Ribeirão Preto (SP), grande região produtora de cana, para ver que a população da cidade respira fumaça por meses ao longo do ano.

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