Plenária Nacional na USP aponta o caminho

No último sábado, dia 16, ocorreu na USP a Plenária Nacional em Defesa da Universidade Pública. O local não poderia ser mais apropriado. Afinal de contas, foi lá que estudantes ocuparam a reitoria por mais de 40 dias e se tornaram referência para todo o país, desencadeando em nível nacional a maior mobilização estudantil desde o início do governo Lula.

No momento em que fechávamos esta edição, o desenlace da ocupação da USP ainda estava em aberto. De qualquer forma, a plenária nacional cercou de solidariedade a comunidade uspiana, consolidando as perspectivas de vitória.
A realização do evento se deu a partir de uma proposta da Conlute, que foi aprovada na assembléia dos estudantes da USP e referendada pelo Fórum de Executivas de Curso e pela Frente de Luta Contra a Reforma Universitária.

A plenária foi um sucesso. Participaram dela cerca de 700 estudantes de 13 estados, entre eles ativistas de dezenas de entidades representativas, como as executivas de comunicação social, serviço social, agronomia, letras, farmácia, medicina e filosofia.

Após uma jornada de lutas que se iniciou com as reivindicações por assistência estudantil na Unicamp, passou pelas mobilizações pelo passe-livre em Florianópolis e ganhou repercussão nacional com as ocupações de reitorias da USP e das universidades federais, a plenária consagrou a vitória do movimento frente aos ataques dos governos estaduais e federal, e comemorou as conquistas arrancadas.
O recuo parcial dos decretos de Serra, o adiamento da implantação da reforma universitária na UFRJ e a ampliação do restaurante universitário da UFAL são exemplos que animam e fortalecem os estudantes que lutam.
A plenária se iniciou com informes das universidades e das categorias presentes (servidores, metalúrgicos e metroviários), seguida de uma fala do professor e diretor do Andes-SN, José Vitório Zago, que discorreu sobre a autonomia universitária e a mercantilização da educação.

Foram formados 15 grupos de discussão (GDs) sobre conjuntura, universidade, mobilização e calendário, e formuladas propostas à plenária final. As principais resoluções da plenária foram: reafirmação da luta contra a reforma universitária de Lula e do FMI; contra os decretos estaduais e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI); mais verbas para educação; realização de uma campanha contra as perseguições aos movimentos sociais.
Para dar continuidade às mobilizações, um calendário foi votado para todo o segundo semestre. A volta às aulas será marcada por atividades junto com o MST, dentro das universidades, de 3 a 15 de agosto. Já em setembro, na semana da pátria, os estudantes se incorporarão ao plebiscito sobre a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce. Uma data votada com enorme euforia foi o 13 de julho, quando haverá uma manifestação no Rio de Janeiro na abertura dos Jogos Pan-americanos, para denunciar as reformas neoliberais e a farsa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Com o intuito de nacionalizar e unificar as lutas, a plenária aprovou o fortalecimento da marcha à Brasília, que está sendo preparada para outubro pela Conlutas e demais organizações.

O auge da plenária final foi a aprovação de um chamado aos CAs, DCEs, executivas de curso e à Frente de Luta Contra a Reforma Universitária para a construção de um encontro nacional de estudantes.

O segundo semestre promete. O arquivamento do Projeto de Lei 7.200/06 (última versão da reforma universitária apresentada pelo MEC) já é quase uma realidade. O movimento estudantil, a partir dessa vitória e do desfecho positivo da ocupação da USP, pode finalmente deixar de fazer lutas apenas defensivas e partir para cima do governo.

O grande temor de Lula e de sua amiga UNE está se confirmando. Os quatro anos e meio do governo do PT não passaram em vão. A cada ocupação de reitoria realizada e a cada passeata organizada, os estudantes identificam o governo e a UNE como seus inimigos. Um novo caminho começa a ser construído pela juventude em movimento.

Lições das lutas
O governismo e a traição histórica da UNE já não são novidades. Talvez o que ainda não esteja claro para o conjunto da esquerda do movimento estudantil é a sua completa falência e a total impossibilidade de resgatá-la para a luta.

As mobilizações que ocorreram nos últimos meses, além de passarem totalmente por fora da UNE, se chocaram com ela. Não foi à toa que Gustavo Petta foi expulso da ocupação da UFAL. Outro exemplo foi a resolução votada por ampla maioria no Encontro Estadual das Universidades Estaduais Paulistas, que dizia “a UNE não fala em nome dos estudantes em luta”. A plenária nacional na USP não deixou nenhuma dúvida disso. Até mesmo os diretores da Frente de Oposição de Esquerda da UNE (FOE) tinham dificuldades em se apresentar como membros da entidade.

Se ao menos a UNE, apesar de seu governismo, ainda mobilizasse amplos setores em torno de bandeiras mínimas, restaria alguma justificativa para o PSOL defender a permanência em seu interior. Mas a realidade mostra o contrário. O 6 de junho, dia nacional de ocupação de reitorias da UNE, foi um verdadeiro fiasco. Já as ocupações realizadas pela Conlute e pela FOE de 11 a 15 repercutiram em nível nacional e ganharam destaque nos principais veículos de comunicação.

Hoje a UNE não passa de uma casca vazia a serviço do governo. Seus fóruns não refletem em nada o que se passa na base das universidades. A ocupação da USP, a greve das universidades federais que se inicia e as mobilizações pelo passe-livre passam muito longe do próximo Congresso da UNE (CONUNE). O natural seria que a UNE se fortalecesse em meio a tantas lutas. No entanto, seu governismo e burocratismo impedem que isso aconteça. Os companheiros do PSOL já admitem que a UNE não se encontra mais em disputa.

Se apegar a um passado glorioso de lutas e gastar energia num jogo de cartas marcadas é perder tempo e deixar escapar as oportunidades da história. O movimento estudantil está às portas de um novo tempo. A Conlute, juntamente com a FOE, executivas de curso e centenas de CAs e milhares de ativistas independentes têm total capacidade de construir o futuro do movimento estudantil.

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