Peter Fryer, o cronista da revolução húngara

No dia 31 de outubro morreu, aos 79 anos, o jornalista revolucionário e escritor socialista inglês Peter Fryer, o qual se destacou, dentre outras coisas, por ter sido enviado à Revolução Húngara de 1956. Sua morte ocorreu – por uma enorme coincidência – justamente no aniversário de 50 anos dessa grande revolução proletária que sacudiu a burocracia stalinista. Peter Fryer, de origem social operária, nasceu em 18 de fevereiro de 1927. Inicialmente anarquista, Fryer aproximou-se definitivamente do Partido Comunista Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, e juntou-se à equipe do jornal Daily Worker – órgão oficial do PC.

Em outubro de 1956 foi enviado à Hungria para cobrir a revolução política contra a burocracia stalinista e a dominação da URSS sobre o país. Os informes enviados, que incluíam a brutal repressão das tropas russas sobre as massas húngaras, foram censurados ou diretamente suprimidos pela direção stalinista do partido. Foi expulso primeiro do jornal e depois do PC inglês, “por publicar na imprensa burguesa ataques ao partido comunista” – nas palavras de seus detratores. Seu livro, “A Tragédia da Hungria”, foi escrito com base em vários daqueles artigos e foi publicado pouco tempo após o término da revolução, constituindo registro fundamental desta revolução política, operária e popular, contra a ditadura stalinista.

A denúncia do crime stalinista
Os informes de Fryer colocaram-se contra a linha oficial do PC, que caracterizava a insurreição húngara como uma mera contra-revolução, reacionária e fascista. Sobre a revolução que presenciou, Fryer afirmou que “não era nem organizada, nem controlada por fascistas ou reacionários, mas pelo povo comum da Hungria: operários, camponeses, estudantes e soldados”.

Na verdade, Fryer relatou os fatos tal como os encontrou: nem mais, nem menos. Já tinha coberto os prelúdios embrionários da insurreição húngara para o jornal e, após o discurso secreto de Khrushchev em 1956, expôs algumas das abomináveis realidades do domínio de Stálin. Mas agora se viu diretamente confrontado nas ruas da Hungria com os Conselhos Populares (soviets) “anti-soviéticos” – na verdade, anti-stalinistas –, e com os corpos de trabalhadores revolucionários ao chão, metralhados pelas mesmas autoridades que se reivindicavam “comunistas”.

A descrição de Fryer dos sovietes húngaros – ressaltados por sua “notável semelhança, em muitos aspectos, aos conselhos de operários que surgiram na Rússia durante as revoluções de 1905 e 1917” – é vívida e rigorosa: “Estes comitês, que se estenderam em cadeia por toda a Hungria, desde o começo se mostraram órgãos da insurreição – reunindo os delegados eleitos em fábricas, universidades, minas e unidades do exército e órgãos de auto-governo popular, que gozavam de ampla confiança do povo armado. Como tais, tinham tremenda autoridade, e não é exagero afirmar que até o ataque soviético de 4 de novembro o poder real do país estava em suas mãos”. Fryer estava em Budapeste quando os russos lançaram – durante quatro dias e quatro noites ininterruptos – bombardeios que deixaram vastas zonas da cidade, sobretudo os bairros operários, praticamente em ruínas.

Um testemunho histórico
“Nenhuma nação pode ser livre se oprime as outras”. Essas palavras de Lenin serviram como advertência sobre os desvios grão-russos e nacional-chauvinistas de Stálin que se confirmaram totalmente. Desde o fim da Segunda Guerra, nas chamadas “democracias populares” (no Leste Europeu) ocupadas pelo Exército Vermelho, houve a expropriação da burguesia, mas surgiram regimes totalmente deformados, controlados diretamente pela burocracia de Moscou.

Logo após a morte de Stálin e depois de uma greve operária em Berlim Oriental, em 1953, contra a burocracia stalinista, a Hungria protagonizou sua revolução política, não só contra a opressão que exercia a URSS, mas também contra a burocracia húngara.

Embora a revolução tenha sido esmagada pelos tanques soviéticos, ela foi o estopim da revolução política nos países do Leste Europeu, como se deu posteriormente na Tchecoslováquia (1968) e na Polônia (1980), sendo o início da crise mundial do stalinismo.

(*) Com a colaboração de Martin Ralph, de Liverpool, Inglaterra.

Post author Roberto Barros, da redação*
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