Patrões gaúchos inventam ‘empréstimo compulsório’ de salário

Sindicato cutista aceita emprestar salário ‘até passar a crise’Em 1990, o país vivia a hiperinflação provocada pelo governo Sarney. Os preços eram corrigidos várias vezes durante a semana. O corrupto Collor de Mello se elegeu e promoveu um pacotaço, cujo ponto mais polêmico foi o confisco de milhões de cruzados das poupanças. Trabalhadores perderam a economia de toda uma vida. Além do confisco, Collor criou o “empréstimo compulsório” e prometeu devolver o dinheiro, corrigido, anos depois. Caiu antes.

Anos depois, os patrões gaúchos usam o mesmo discurso da crise e do sacrifício coletivo para impor um novo confisco. Cerca de 800 metalúrgicos da fábrica MWM International, vão “emprestar” 15,7% de seu salário até passar a crise. A empresa jura que devolverá metade dos salários retidos em seis meses e o restante assim que recuperar a capacidade produtiva.

Enquanto os trabalhadores são obrigados a ir ao cheque especial ou a agiotas para saldar suas dívidas, os patrões tomam dos salários para não reduzir seus lucros.

Ainda assim, o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Santa Rita (RS), filiado à CUT, está comemorando o que chama de “acordo inédito”. Negociou – e conseguiu aprovar – a redução da jornada de trabalho em 20% e de salário em 15,7%. Os prejudicados serão os trabalhadores, pois além de terem o salário reduzido, continuarão com seus empregos ameaçados – a estabilidade foi garantida apenas até junho.

A capacidade produtiva da empresa, porém, só poderia ser recuperada com o fim da crise mundial. A MWM é filial de uma das maiores fabricantes de motores a diesel do mundo, a norte-americana Navistar International. A empresa tem parceria com gigantes como a General Motors.

As unidades instaladas na América do Sul – duas no Brasil e uma na Argentina – exportam para mais de 30 países. No ano passado, a MWM foi eleita empresa do ano pelo Prêmio AutoData 2008, além de levar o prêmio na categoria Exportadora.

Ou seja…
Em primeiro lugar, quem pode dizer quando a crise vai acabar? Segundo os próprios analistas da burguesia, “é recessão o nome do que estamos vivendo”, nas palavras de Mirian Leitão.

“A grande questão continua sendo a de sempre: por quanto tempo as coisas ainda vão piorar antes de começarem a melhorar? Por enquanto, não há nada no horizonte que permita alguma dose de otimismo na resposta a essa pergunta”, resume Fernando Canzian, da Folha de S. Paulo.

Enfim, não há nada que garanta que a produção da MWM vai se normalizar. A empresa é dependente da economia mundial e não pode melhorar sozinha. Vai produzir para exportar para quem? Ou vai ficar produzindo normalmente e estocando motores até que a economia mundial resolva se acalmar? Todos os dados até o momento dizem que a tendência é contrária: mais queda na produção. O ano de 2008 fechou com a maior queda desde 1991, 12,4% com relação a novembro.

Em segundo lugar, sendo a gigante que é, a MWM lucrou muito em anos de exploração de trabalhadores dentro e fora de seu país de origem, os Estados Unidos. Exatamente onde a crise começou. A remessa de lucros para as matrizes de todas as multinacionais aqui instaladas nunca foi tão alta.

Assim, a medida mais justa seria não enviar mais nenhum centavo para fora do país e usar este dinheiro para garantir os empregos, os salários e os direitos dos trabalhadores. Por que não foi essa a política do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita?

Em terceiro lugar, é certo confiar nos patrões? Nenhum salário será devolvido se a crise não se resolver. A postura do sindicato é um crime contra os trabalhadores e prepara novas derrotas. Diante da falta de alternativas oferecidas pelo sindicato, os trabalhadores acabam aceitando – de narizes fechados – a redução de salário e a imposição a mais restrições a suas vidas.

Mas o que eles precisam saber é que existe saída: a da luta e da resistência. Os trabalhadores brasileiros estão diante de uma encruzilhada: ou sacrificam ainda mais suas vidas para manter os lucros e a boa vida dos patrões, ou resistem e constróem uma grande batalha para que os ricos paguem pela crise.