Para onde vai o PSOL?

A trajetória do PT fez um enorme estrago nas lutas dos trabalhadores do país. Os governos Lula e Dilma convenceram os trabalhadores de que vale a pena governar junto com a burguesia, deixando para trás o classismo dos primeiros anos.

Da mesma forma, o PT legitimou na esquerda o “vale tudo eleitoral” com a lógica de que isso é “realista”. Afinal, opinam eles, não se pode ganhar eleições sem conseguir dinheiro das empresas e fazer acordos eleitorais com partidos burgueses. Alguns setores da esquerda petista resistiram, mas foram se adequando as vitórias eleitorais do partido. Pouco a pouco todas as correntes que não romperam com esse partido terminaram por aceitar essa mesma lógica. Hoje, a esquerda petista quase inexiste.

O PSOL nasceu de uma ruptura com o PT questionando essa lógica petista. Mas isso está seriamente questionado. A vitória de Clécio Luís, em Macapá (AP), pode legitimar a tática com a qual foi construída essa candidatura, e impor ao conjunto do PSOL o “padrão” do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). Afinal, para os que se guiam unicamente por resultados eleitorais, o PSOL do Amapá está “dando certo”, elegendo um senador e agora um prefeito.

O PSOL nessa cidade fez um acordo com o DEM, PSDB e PTB no segundo turno. Segundo o senador Randolfe do PSOL, no discurso em que se anunciou esse acordo, ele não seria apenas para as eleições, mas “para governar”. Uma demonstração a mais da profundidade dessa aliança eleitoral é que ela se expressou também em Santana, segunda cidade do Amapá. Ali o PSOL não teve candidato próprio e apoiou no primeiro turno Robson Rocha, do PTB, que também foi apoiado pelo DEM e PSDB.

A tática aplicada em Belém (PA) no segundo turno (o acordo com o PT, PDT e um vereador do DEM) mostra que não se trata de um “problema do Amapá”. A fala de Lula em defesa do voto Edmilson divulgado amplamente em Belém diz explicitamente que é necessária uma boa relação entre a prefeitura de Belém e o governo petista e, por isso, chama o voto no candidato do PSOL. Isso nega qualquer postura de oposição de esquerda dessa prefeitura. Houve um claro acordo nesse sentido por parte do PSOL em Belém. Não se pode explicar de outra maneira o engajamento de Lula, Dilma, Marta Suplicy, Mercadante na campanha de Edmilson.

Algumas correntes do PSOL, como a CST, criticam a campanha de Edmilson, usando como exemplo a ser seguido a campanha de Marcelo Freixo, do Rio de Janeiro. Mas esse candidato, quando perguntado se cortaria o ponto de funcionários grevistas, respondeu: “depende”. Em outra passagem, admitiu a remoção de uma comunidade como a prefeitura atual defende. E o financiamento da burguesia foi defendido abertamente pelo candidato, sem nenhuma resistência de qualquer corrente do PSOL. Existe uma lógica presente nas três campanhas: para disputar a eleição, é preciso assumir o programa e os métodos da direita.

Uma oportunidade eleitoral perdida
Na verdade, a ida para o segundo turno do PSOL em Belém e Amapá, assim como a grande votação de Freixo, representou a perda de uma oportunidade política. A ampliação do espaço a esquerda nas eleições poderia se transformar em um ponto de apoio importante (dentro e fora das instituições) para as lutas dos trabalhadores. Poderia se construir uma referência de esquerda contra a burguesia e o governo, que incluísse os espaços sindicais, estudantis e populares de mobilização direta e também os mandatos de parlamentares e prefeituras eleitas. Algo de um valor inestimável perante a crise que se aproxima.

Isso foi o que o PSTU fez na campanha eleitoral. As votações expressivas conseguidas por Amanda Gurgel, em Natal, e Cleber Rabelo, em Belém, e Vera Lúcia, em Aracaju, foram construídas sem um tostão da burguesia, nem acordos com partidos patronais. O PSOL associava isso ao fato do PSTU não ter resultados eleitorais importantes. Para os socialistas revolucionários, o método de como se avalia uma campanha eleitoral não se resume aos votos, mas no avanço na consciência dos trabalhadores e fortalecimento do partido.

Mas também no terreno eleitoral, hoje se pode contrapor os resultados. A eleição de Cleber e Amanda fortaleceu a luta dos trabalhadores, assim como o PSTU. A vitória de Clécio levou crise para a base do PSOL e ameaça generalizar os mesmos critérios.

O que vai fazer a esquerda do PSOL?
Havia no PSOL toda uma expectativa de que a esquerda poderia “ser maioria”. Muitos militantes e quadros honestamente acreditavam nisso. Todo esse episódio contraria completamente essa possibilidade. Foi aplicado em Belém e Macapá, assim como na campanha de Freixo, no Rio, uma orientação abertamente direitista. E são essas as perspectivas do partido: alianças com partidos burgueses, programa de conciliação de classes, financiamento de empresas.

Houve uma resistência de setores da esquerda petista contra a postura da APS, corrente majoritária da direção do PSOL que dirige Macapá, Belém e tem o presidente do partido Ivan Valente. Houve várias manifestações contrárias, que nós saudamos. Mas a direção nacional do PSOL sequer se reuniu para definir uma posição. E agora? O que vai ser feito contra Clécio Luís, agora um prefeito eleito?

Caso se imponha a lógica que vem sendo construída no PSOL, nada acontecerá a não ser algumas frases de efeito e declarações sem efeito prático. Isso significa a vitória desse setor. Vai se impondo a mesma lógica do PT: vitórias eleitorais acabam com a resistência que existia.

A esquerda do PSOL tem a palavra.

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