Para controlar crise, EUA anunciam profunda reforma financeira

FMI prevê maior crise desde o crash de 1929No último dia 30, o secretário do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, anunciou uma ampla reestruturação financeira para conter a crise. O plano prevê o fortalecimento do Federal Reserve (Fed), o banco central do país, que passará a ter maior poder de fiscalização sobre o sistema financeiro.

A idéia de transformar o Fed numa espécie de xerife das instituições financeiras sofria resistência do mercado, que acabou acatando a medida diante do pânico crescente que toma conta dos investidores. A reestruturação dá o poder ao banco de fiscalizar não só os bancos comerciais, mas os bancos de investimentos e demais instituições financeiras.

O objetivo é impedir que bancarrotas como a que ocorreu recentemente com o banco de investimentos Bearn Stearns espalhe pânico e atraia pessimismo sobre outros bancos e o resto do mercado. O Bearn Sterns estava à beira da falência quando o governo norte-americano injetou US$ 30 bilhões no banco articulou sua compra pelo JP Morgan a preço de banana. Com as novas medidas, o Fed espera socorrer as instituições antes que elas desabem.

Plano não resolve crise
O megaplano do governo Bush parte do princípio de que a atual crise é provocada pela desregulamentação excessiva do mercado financeiro. Mais do que isso, torna-se uma tentativa desesperada de debelar a crise e afastar o pessimismo, uma vez que a política de injetar bilhões em ajuda aos bancos não tem surtido efeito. Estima-se que nos últimos meses o Federal Reserve tenha gasto metade de todas as suas reservas em ajuda aos mercados, num total de US$ 400 bilhões.

Apesar do estardalhaço com que foi anunciado, o plano foi recebido com ceticismo e indiferença. Não se acredita que uma administração em final de mandato e desacreditada, como a de Bush, consiga impor mudanças profundas. Enquanto isso, a percepção de que uma se desenha uma grande recessão aumenta a cada dia.

Maior recessão desde 1929
No dia 2 de abril, o presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu pela primeira vez a possibilidade dos EUA passar por uma recessão no primeiro semestre de 2008. “Parece agora que o PIB real não crescerá muito, se é que o fará, no primeiro semestre de 2008, e poderia até mesmo se contrair ligeiramente”, chegou a afirmar. Se o próprio representante financeiro dos EUA, responsável por manter a todo custo a calma nos mercados, faz esse tipo de confissão, é de se imaginar o tamanho da crise. Bernanke afirmou, também, que o desemprego aumentará no período e haverá “queda nas folhas de pagamento”.

O presidente do Fed apenas adapta seu discurso à situação atual, fazendo parecer que a crise não é tão grave quanto realmente é. No entanto, nos bastidores, a percepção das autoridades é de que a atual crise financeira é a mais grave desde 1929. É isso o que está escrito no documento do FMI apresentado numa reunião fechada na Ásia, que acabou vazando.

No relatório, o FMI revisa pela terceira vez a expectativa de crescimento global e da economia norte-americana. Para o fundo, em 2008 o mundo vai crescer meros 3,7%, e a possibilidade do crescimento ficar abaixo dos 3% é de 25%. Já os EUA devem crescer apenas 0,5%, um terço do que o FMI havia previsto em janeiro.