PAN 2007: A festa acabou

Carlos Drummond de Andrade escreveu um famoso poema, depois de uma Copa do Mundo, que dizia:

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

Esses versos merecem ser lembrados ao final dos Jogos Pan-Americanos. O sentido dos versos de Drummond tem a ver com a necessidade de que o povo encare de novo seus problemas reais. E o Brasil de hoje precisa de Drummond, de sua poesia e de seus ensinamentos.

O povo se emocionou com algumas vitórias esportivas memoráveis. Em particular, será recordada por muitos anos a goleada da seleção feminina de futebol sobre os Estados Unidos, com um futebol clássico e maravilhoso. Mas, como bem recordou a goleira de nossa seleção, Andréia Santuque, nada vai mudar após o Pan… Sequer para o futebol feminino, que ainda hoje não tem um campeonato nacional.

Passadas as competições, tudo volta à mesma rotina de falta de estrutura para a maioria da população brasileira. Assim como o povo não tem acesso à educação e à saúde de qualidade, tampouco pode expressar todo seu potencial esportivo.

Cuba, que tem uma população 16 vezes menor que a nossa, teve mais medalhas de ouro que o Brasil. Isso porque esse país viveu uma revolução socialista que possibilitou um avanço qualitativo para a população. A mortalidade infantil em Cuba é de 5,3 para cada mil nascidos, melhor que a dos EUA (sete para mil) e infinitamente superior à brasileira (31 para mil). A expropriação das grandes empresas privadas e a planificação da economia possibilitaram um salto na educação, na saúde e no esporte.

Hoje tudo isso está em retrocesso, porque se impôs em Cuba uma restauração do capitalismo pela via chinesa, a partir da própria ditadura castrista (o que boa parte da esquerda brasileira não admite). Isso também se expressou no Pan-Americano, no qual Cuba teve um rendimento esportivo menor do que em outras edições e enfrentou a fuga de quatro atletas, o que levou a um retorno antecipado da delegação para evitar novas deserções. Mas, apesar de tudo, Cuba seguiu à frente do Brasil, pelos avanços conquistados no passado pela revolução.

O governo Lula investiu pesado para capitalizar eleitoralmente as vitórias do Pan. O orçamento inicial de R$ 400 milhões foi transformado pela corrupção desenfreada em R$ 3 bilhões. Alguns enriqueceram nessa jogada, outros passaram de ricos para muito ricos. A maioria vai ficar mais pobre, porque vai ter de pagar pelo enriquecimento de alguns.

A vaia histórica no Maracanã, que impediu Lula de falar na cerimônia de abertura, indica que os planos do governo não deram muito certo. Depois do estádio, as vaias perseguiram Lula em todas as suas aparições públicas, como se pôde ver na visita ao Nordeste do país. O desastre aéreo em Congonhas foi um passo a mais no desgaste que o governo já acumula neste segundo mandato.

É possível que o povo brasileiro esteja começando a seguir na prática os conselhos de Drummond. As vaias indicam que pelo menos uma parcela está encarando a realidade e se preparando para lutar.

Em pouco mais de um mês, na Semana da Pátria, uma parte muito importante das entidades do movimento de massas do país estará impulsionando um plebiscito popular. Encabeçados pela Assembléia Popular, com várias organizações da Igreja, a Conlutas e o MST, um amplo setor do movimento vai se organizando para lutar. Apesar do boicote da CUT e da UNE, que querem limitar o plebiscito à questão da Vale, a maioria das entidades vai encaminhar a consulta com as quatro perguntas.

É hora de o movimento se colocar em marcha, em todos os sindicatos e entidades estudantis e populares para garantir esse plebiscito. O povo, essa multidão de Josés e Marias que trabalha e constrói o país, será chamado também a se posicionar em relação à reforma da Previdência, à reestatização da Vale do Rio Doce, ao pagamento da dívida e às tarifas de energia elétrica.

E agora, José? É hora de José e Maria dizerem não.
Post author Editorial do Opinião Socialista nº 308
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