Palmares: mais do que um símbolo, um método

Celebrar a Consciência Negra deve significar o resgate daquilo que Zumbi e seus companheiros fizeram de mais radical: colocar a destruição do sistema no centro da luta pela real liberdadeDepois da reeleição, Lula fez questão de destacar, dentre seus “muitos feitos” no primeiro mandato, a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), afirmando que, apesar de contar com um orçamento anual de apenas R$ 18 milhões, a Seppir tem uma “enorme importância simbólica” no que diz respeito aos direitos dos afrodescendentes do país.

Para início de conversa, parece desnecessário qualquer comentário mais extenso sobre a quantia destinada para tratar dos graves e históricos problemas que afetam cerca de metade da população brasileira. Isso quando se sabe, apenas para citar um exemplo, que esse mesmo governo, em dezembro de 2005, agraciou o FMI com a antecipação de uma parcela da dívida de “simbólicos” US$ 15,57 bilhões.

Se isso não bastasse para desmascarar o descaso do atual governo para com a questão racial, é preciso também lembrar que o verdadeiro combate ao racismo está há anos-luz dos “simbolismos”. Principalmente quando eles vêm na forma de migalhas que se perdem em meio às montanhas de políticas sociais e econômicas que, ao atacar o conjunto dos trabalhadores e pobres do país, atingem de forma ainda mais contundente aqueles que foram historicamente marginalizados, como negros e negras.

Por isso mesmo, para celebrar o Dia Nacional de Consciência Negra, em 20 de novembro, a primeira coisa que temos que fazer é reafirmar a luta sem tréguas contra o governo recém-reeleito e o sistema ao qual ele serve, em defesa dos interesses de seus aliados, os velhos e “neo-escravocratas” encastelados no controle do capital industrial e financeiro e espalhados na base governista e na oposição burguesa.

Além disso, é necessário reafirmar mais uma vez, particularmente para os setores do movimento negro que hoje majoritariamente apóiam o governo, que mesmo que “atos simbólicos” possam ter sua importância no combate ao racismo, eles não têm absolutamente nada a ver com a hipócrita simbologia alardeada por Lula.

Devemos isso à memória e à luta de Zumbi, aos milhares de quilombolas que lutaram nesse país e a todos os homens e mulheres negros que há séculos lutam contra a opressão racial e a exploração capitalista.

No meio da Colônia, havia uma República
Desde seu surgimento até sua destruição em 1695, Palmares provocou um especial temor nas elites da época devido ao seu alto grau de organização política, social e econômica. Uma organização oposta à lógica colonial.

A partir dos vários relatos que sobreviveram à destruição do quilombo, sabe-se que os cerca de 20 mil negros, indígenas e “despossuídos” que se abrigaram na Serra da Barriga mantinha um sistema coletivo de produção, negociavam com seus vizinhos e haviam criado sistemas próprios de justiça e administração.

Esta, com certeza, é a principal lição de Zumbi. Se naquela época, a construção de uma república era o único caminho para a verdadeira libertação, hoje, somente a destruição da base de um sistema que superexplora a população poderá apontar para uma sociedade que permita a extinção do racismo.

Somente um mundo socialista pode reverter a situação que faz a população negra, país afora, ganhar um terço do que ganham os homens brancos; que nossos jovens sejam a maioria dos abandonados nas ruas e, conseqüentemente, dos atacados e mortos pela violência policial; que os índices de analfabetismo, precariedade de saúde e todo o resto sejam vergonhosamente mais altos quando comparados a todo o resto da sociedade.

Versão “neoliberal” do Cucaú
Já que os governistas gostam tanto de simbolismos, propomos o resgate de um que eles parecem ter esquecido. Em meio aos ataques contra o quilombo, por volta de 1680, o então dirigente de Palmares, Ganga-Zumba aceitou um acordo para se transferir para a inóspita região do Cucaú.

Em troca da “paz”, Ganga-Zumba aceitou que fossem mantidos livres apenas os negros que nascessem no Cucaú e que todos se submetessem às autoridades da capitania, prometendo, ainda, entregar os escravos que dali em diante fugissem e fossem para Palmares.

Assim que foram transferidos para essa espécie de “reserva”, os negros perceberam que haviam sido traídos, tendo que viver à míngua, sob constante vigilância dos portugueses e suas tropas. Os poucos que sobreviveram àquela situação terrível retornaram a Palmares ou se dispersaram.

Hoje, o que o governo Lula nos oferece é uma versão “neoliberal” do Cucaú. Negros e negras podem sobreviver às custas das migalhas assistencialistas como o Bolsa Família ou dependendo do trabalho informal, precarizado ou semi-escravo. Dentro do “mundo” fantasiado pela Seppir e pelas entidades do movimento que a apóiam, negros e negras podem ganhar algum espaço caso não questionem o sistema ou o fato de que a enorme maioria do povo negro continua vagando pelos campos e cidades, presos à miséria e ao desemprego.

O resgate de Zumbi, para nós, só pode se dar através da reafirmação daquilo que pautou sua luta: a negação do próprio sistema, a total independência em relação aos poderosos, o rechaço de qualquer acordo que comprometa a libertação de todo o povo negro.

Isso significa, no 20 de novembro, articular negros e negras que acabaram de passar pela experiência da Frente de Esquerda, que estão construindo a Conlutas e a Conlute ou estão buscando uma alternativa de combate ao sistema, em atos e atividades onde possamos entoar bem alto um grito de guerra. Um grito “simbólico” do quanto esse governo e seus aliados e integrantes, como o ministro Gilberto Gil, se afastaram da verdadeira luta de Zumbi: “A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!”.

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