Humilhação. Esse tem sido o sentimento dos trabalhadores que até agora não receberam o auxílio de R$ 600 do Governo Federal. Depois de aprovado o benefício, Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, enrolaram durante dias para efetivá-lo. Em seguida, disseram às pessoas que baixassem um aplicativo da Caixa Econômica Federal e fizessem um cadastro. Foi aí que Pedro Duarte Guimarães, o irresponsável que é presidente da Caixa, chutou que 20 milhões teriam acesso ao benefício. Errou feio e mostrou que nem ele nem ninguém do governo sabem alguma coisa sobre a realidade social brasileira.

Na verdade, o número de trabalhadores informais que buscam receber o auxílio emergencial de R$ 600 deve ultrapassar os 70 milhões – isso representa cerca de 40% da população em idade ativa no país, de 172 milhões, segundo dados do IBGE. Como são informais, sem carteira assinada, foram apelidados pela burguesia brasileira como “invisíveis” segundo o ministro Guedes. Mas esse contingente de “invisíveis” representa um terço do país e equivale a seis vezes o número de habitantes de Portugal e 20 vezes o do Uruguai.

Já faz quase 40 dias que o governo está enrolando para pagar. Milhares de trabalhadores ainda estão em fase de análise. Outros tantos até foram aprovados no cadastro, mas não conseguem receber. O resultado é que, em plena pandemia, as pessoas têm de ir às agências bancárias para tentar receber, porque já falta comida na mesa. Assim, amontoam-se em filas e correm o risco de contrair o vírus.

Cheguei às seis horas, já tinha muita gente na fila. Como o atendimento será até as duas horas, foram distribuídas senhas. Muita gente não conseguiu, incluindo eu. Aí começou uma revolta das pessoas que não conseguiram o atendimento. Fecharam a Estrada do Coco. A população está revoltada. É muita humilhação para receber o auxílio. E também muita desorganização”, conta o vendedor ambulante Carlos Antônio Souza. Ele vende lanches no Centro do município de Lauro de Freitas (BA), região metropolitana de Salvador, mas o comércio está fechado por causa da pandemia. Seu cadastro foi aprovado, mas ainda não conseguiu receber. A Estrada do Coco é a principal avenida da cidade e foi fechada com pedras, paus e lixo durante toda a manhã do dia 2 de maio.

Revolta similar foi vista no Espírito Santo. Depois que uma agência da região de Vila Velha não abriu, as pessoas que buscariam o benefício se irritaram e atearam fogo em objetos na rua em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal.

No ABC paulista, a trabalhadora M., que prefere não se identificar, mãe de família, moradora do bairro Itaparque, na cidade de Mauá, relata que apenas uma parte dos moradores de sua rua receberam os R$ 600. “Tem muita gente passando necessidade e o dinheiro não vem. Isso é covardia”, diz.

Ela conta que, quando alguém recebe o dinheiro, vai comprar comida imediatamente. “Tem muitos que moram em uma casa pequena com a mãe, filhos, netos e irmãos que estão desempregados com contrato suspenso, sem ter de onde tirar dinheiro”, explica. “Quando um morador da rua recebe o dinheiro, sai gritando ‘Saiu! Saiu!’. É uma alegria só. Mas sabemos que é muito pouco e não dá pra pagar o que se deve, continuamos passando dificuldades”, diz.

Aline, do movimento Luta Popular e moradora da Ocupação Queixadas, em Cajamar (SP), gravou um depoimento com extrema indignação. Ela conta que sete vizinhas suas tinham o recebimento do Bolsa Família e do auxílio emergencial confirmado, mas não receberam. “O que eu tô falando aqui é indignação. Cadê o nosso auxílio que tá em análise? Pra mãe que tá esperando pra dar o mingau e o leite do seu filho, isso doí. Por mais que qualquer um possa ter recebido o seu, tá faltando dez, vinte que não receberam. O Luta Popular tá aqui ajudando pai e mãe de família que o Bolsonaro tá humilhando. Minha vizinha não tinha nem feijão pra comer. Minha outra também. Cadê nossa renda?”, questiona.

Enquanto aguardam pelo auxílio emergencial que nunca vem, os preços dos alimentos disparam. “Os preços dos alimentos aumentaram muito. Para se ter uma ideia, o preço do ovo era R$ 30 noventa ovos. Hoje está 30 ovos por R$20. Os preços do arroz e do feijão estão pela hora da morte, o leite de caixinha nem é bom falar. Subir no momento em que estamos sem dinheiro, é muita covardia”, explica M.

EXEMPLO
Solidariedade ativa e auto-organização

Distribuição de alimentos na ocupação coordenada pelo Luta Popular em Jacareí (SP)

Enquanto Bolsonaro abandona os pobres à morte, a própria população toma iniciativas de auto-organização em suas comunidades. O movimento Luta Popular tem distribuído alimentos e máscaras em várias ocupações país afora. M. explica que em sua rua os moradores estão organizados para ajudar quem está em dificuldade. “Eu e outras mulheres estamos costurando máscaras e dando sabonete, daí trocamos por alimentos, com esses alimentos fazemos cesta básica, marcamos um ponto e entregamos para os que estão passando necessidade”, diz.

Esses são exemplos que devem ser seguidos. Esta organização precisa avançar e discutir a fundo medidas que coloquem em xeque o sistema capitalista que mata a população pobre enquanto dá trilhões aos grandes empresários e banqueiros.

*Colaboração: Roberto Aguiar (Salvador) e Emannuel Oliveira (São Paulo)