Pacote de Obama transfere mais recursos públicos ao capital financeiro

Medida não deve deter a crise econômica e ainda pode agravar a crise políticaO governo norte-americano divulgou nesta segunda-feira, 23, em Washington, novos detalhes sobre o megaplano de resgate dos bancos. O anúncio foi realizado pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, e representa, até agora, o lance mais ousado do governo Obama para evitar o aprofundamento do cataclismo que varreu o sistema financeiro do país e se espalhou para o mundo.

O plano não é novo. As medidas tomadas chegaram a fazer parte de um pacote do governo Bush, abandonado devido às críticas e a resistência a sua aprovação.

Intitulado Programa de Investimento em Parceria Público-Privada, o plano prevê gastos de até US$ 1 trilhão no salvamento de instituições financeiras à beira da falência. Ao contrário de medidas tomadas anteriormente para salvar bancos em dificuldades, como a compra de seus ativos, processo que tendia à quase completa estatização do sistema financeiro, desta vez a ação do Estado se resume à garantia dos lucros de investidores e especuladores.

Capitalismo sem riscos
Pela nova proposta do governo Obama, os bancos que estão atolados até o pescoço com ativos podres, ou seja, ações lastreadas em crédito imobiliário com poucas ou nenhuma chance de terem retorno, poderão colocá-los à venda através de um leilão. Isso, segundo o governo, resolve parte do problema verificado anteriormente, que era justamente colocar preços em tais ativos “tóxicos”. Com esse leilão, o próprio mercado ficaria responsável em determinar seu valor.

A Comissão Federal de Seguros de Depósitos Bancários (FDIC, na sigla em inglês), fundo garantidor de depósitos, do governo, é quem vai organizar o leilão. O grande lance do pacote é justamente quem vai comprar isso tudo. Quem se interessaria por um monte de papéis sem lastro que infesta o mercado? O governo resolveu isso propondo a constituição de fundos público-privados, ou seja, fundos com a participação de recursos públicos e de capital privado. Para cada US$ 1 do setor privado investido, o governo fica responsável por colocar outro dólar.

Isso, porém, não é tudo. O próprio FDIC vai financiar e garantir as compras desses ativos. Ou seja, se após o leilão esses ativos se valorizarem, o investidor lucra. Se esses papéis se desvalorizarem ainda mais, o prejuízo é coberto pelo governo. É o milagre do capitalismo sem risco financiado pelo governo Obama, através do dinheiro público. O Nobel de economia, Joseph Stiglitz, que não é de esquerda e nem coisa parecida, chegou a declarar que “isto equivale a um roubo ao povo americano”.

Riscos
A divulgação dos novos detalhes do pacote causou euforia nos mercados. A bolsa de Nova Iorque fechou o dia com alta de 6,84%. Mas nem tudo são flores. Se o pacote não representa uma estatização do sistema financeiro, ele estatiza os riscos e privatiza os lucros.

No caso de falhar, pode representar uma perda trilionária aos cofres públicos e aumentar ainda mais o já gigantesco déficit público norte-americano. A crise política desatada com os escandalosos pagamentos dos bônus aos executivos da AIG será fichinha num caso assim.

O pacote de Obama reforça, sobretudo, o papel do Estado de garantidor dos lucros do capital financeiro parasitário, cuja multiplicação, nos últimos anos, foi responsável por aprofundar a dimensão da crise capitalista.