Outubro: chega a hora de tomar o poder

Para Lênin, nos primeiros meses, a conquista do poder passava pela conquista da maioria nos sovietes. Com este objetivo, impulsionou diferentes táticas. Em maio, quando se formou o governo de coalizão, o Partido Bolchevique lançou a consigna “fora os 10 ministros burgueses” e exigiu aos mencheviques e aos socialistas revolucionários que rompessem com a burguesia e assumissem o poder. Em julho, saíram a conter o movimento de massas. Em agosto, desenvolveram a unidade de ação militar com o governo para derrotar o golpe de Kornilov. Mas sempre houve uma tarefa central: a explicação paciente de que a única saída era a derrubada do Governo Provisório pelos sovietes e a tomada do poder.

Depois das jornadas de julho, Lênin chegou, por um lado, à conclusão de que a única forma de conquistar o poder era mediante uma insurreição armada. Por outro lado, acreditou que os sovietes, produtos de sua direção conciliadora, haviam perdido seu caráter revolucionário, que teria de apoiar-se nos comitês de fábrica para desenvolver a insurreição e que os sovietes, como órgãos de poder, seriam reconstruídos depois do triunfo da insurreição.

Em sua segunda hipótese, se equivocou, já que, em dois meses, os bolcheviques conquistaram a direção dos sovietes das principais cidades. Segundo Trotsky, “a natureza do erro de Lênin é muito característica de seu gênio estratégico: examina seus planos mais audaciosos à luz das premissas menos favoráveis (…) Assim como em 5 de julho, comentava: ‘talvez nos fuzilem a todos’, do mesmo modo, agora, partia do pressuposto de que os conciliadores não nos permitiriam assumir a maioria dos sovietes”.

Lênin chama a tomar o poder
Não perdeu tempo em corrigir seu erro. Quando os bolcheviques foram maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou, disse: “nosso momento chegou”. os levantes camponeses que se deram em setembro foram um elemento decisivo para sua tomada dedecisão.

Ainda na clandestinidade em que se encontrava desde as Jornadas de Julho, desenvolve um grande combate contra os setores conservadores do Comitê Central que se negam a ver que chegou a hora. O Congresso dos Sovietes estava marcado para o dia 20 de outubro e esses setores do CC alegavam que não se podia tomar o poder antes que se reunisse o Congresso. Lênin insistia em que não se podia perder tempo, que não se podia esperar pelo Congresso, que o Comitê Executivo (dirigido pelos conciliadores [1]) poderia posterga-lo. “Agora ou nunca!”, dizia e ameaçava sair do CC para defender sua posição na base do partido.

Não foi necessário. Em 10 de outubro, aconteceu uma reunião especial do CC, 12 de seus 21 membros estavam presentes e Lênin concorreu disfarçado. Com somente dois votos contrários, foi aprovado começar a preparação técnica da insurreição.

O problema militar
Quando Lênin falava da insurreição armada necessária, não se referia a uma ação espontânea das massas, mas a uma ação milimétricamente preparada. E nessa preparação, o aspecto militar era de primeira ordem.

Depois da derrota de Kornilov, os conciliadores ainda seguiam dominando a guarnição de Petrogrado, a classe operária estava desarmada e os guardas vermelhos só tinham alguns fuzis. Se continuasse essa situação, a insurreição estava condenada ao fracasso. Mas os bolcheviques souberam responder a este problema central.

O primeiro Governo Provisório se comprometera a não desarmar nem tirar de Petrogrado os regimentos que participaram da Revolução de Fevereiro. Como disse Trotsky, assim se expressava o dualismo militar, parte inseparável do duplo poder. Porém, como tmabém afirma Trotsky, “o direito a dispor das forças armadas é o direito fundamental do poder governamental” e o governo sempre tentou impor seu poder. Isso se refletia na polêmica sobre se esses regimentos avançariam ou não.

Os soldados não queriam morrer numa guerra na qual não acreditavam. A imprensa burguesa se lançou a um violento ataque contra a “covardia dos soldados que se negavam a defender a pátria”, enquanto, das fábricas dirigidas pelos bolcheviques, saíam manifestações de apoio aos soldados. Assim, foram se fortalecendo os laços entre operários e soldados e, cada vez mais, entra a prática bolchevique nos regimentos.

Em outubro, os conciliadores, com o objetivo de despertar o sentimento patriótico das massas, propuseram que o soviete criasse um “Comitê de defesa revolucionária” para que os operários se envolvessem na defesa da cidade. Ante sua surpresa, os bolcheviques aceitaram de bom grado a proposta. A explicação era simples: esse comitê lhes permitiria concentrar em suas mãos todas as bases militares da capital. “a iniciativa patriótica dos bolcheviques não poderia surgir mais oportunamente para facilitar a criação do Estado Maior da revolução, que não tardou em adotar a denominação de Comitê Militar Revolucionário, convertendo-se na principal alavanca da insurreição” [2].

A partir do comitê e sob a direção de Trotsky, o Partido Bolchevique começou a resolver o problema militar em duas pontas: ganhando as guarnições militares para a tomada do poder e armando o proletariado. Trotsky chegou à conclusão de que, para conseguir o segundo objetivo, o melhor era recorrer à iniciativa operária: “quando se apresentou a mim uma comissão de operários para manifestar que necessitavam de armas e lhes disse ‘Por acaso não sabem que o arsenal não está em nossas mãos?’, responderam: ‘Temos ido à fábrica de armas de Sestroretsk’. ‘Bem, e daí?’ ‘Pois lá nos disseram: se o soviete nos ordenar, daremos armas’. Dei ordem para que lhes entregassem 5 mil fuzis e, naquele mesmo dia, os receberam. Era a primeira experiência” [3].

Assim, sob a legalidade da comissão proposta pelos mencheviques, os bolcheviques avançavam rumo à solução do problema militar.

A tomada do poder
Em seu artigo Lições de Outubro, Trotsky disse: “Para apoderarmo-nos do poder, atuamos no nível da política, da organização e da técnica militar. Porém encobríamos legalmente nossa jornada ao remetermos para o próximo Congresso dos Sovietes a decisão sobre a questão. (…) O governo acreditava seriamente que atuávamos de acordo com o parlamentarismo soviético, que se tratava de um novo congresso, em que se adotaria uma nova resolução sobre o poder. (…) Tal era o pensamento dos pequeno burgueses mais razoáveis e disso temos provas incontestáveis no testemunho de Kerensky. Conta esse que, na noite de 24 de outubro, teve com Dan [4] uma discussão a respeito da insurreição que estava já em plena execução: ‘segundo ele, os bolcheviques se declararam dispostos a se submeter à vontade da maioria dos sovietes e estavam dispostos a tomar medidas contra a insurreição que havia estourado contra seu desejo. (…) No momento em que Dan me dava esta notável comunicação, os destacamentos da guarda vermelha ocupavam sucessivamente os edifícios governamentais. (…) Há de se reconhecer que eles operaram, então, com uma grande energia e uma habilidade perfeitas’…”.

Trotsky explica que, para o êxito desta manobra, teve muito a ver a existência de um exército camponês de vários milhões de homens, vencido e descontente. Somente nessas condições foi possível realizar de modo satisfatório a experiência com a guarnição de Petrogrado que predeterminou o triunfo de Outubro.

Na verdade, em Petrogrado, a insurreição armada aconteceu em duas etapas: na primeira quinzena de outubro, quando os regimentos se negaram a cumprir a ordem do comandante-chefe e se submeteram à decisão do soviete, e em 25 de outubro (7 de novembro no novo calendário), quando só foi preciso uma pequena insurreição, quase sem vítimas, para derrubar o governo de Fevereiro.

Em 25 de outubro, com a insurreição a ponto de culminar, inicia o II Congresso dos Sovietes. Uma pesquisa entre os delegados mostrou que 506 sovietes estavam a favor da passagem do poder aos sovietes, 86 pelo poder “da democracia”, 55 pela coalizão, 21 pela coalizão, mas sem os Kadetes [5].

A presidência do congresso foi assumida por bolcheviques e social-revolucionários de esquerda. As demais forças políticas se negaram e se dedicaram a apresentar uma ou outra questão de ordem para tentar paralisar o congresso.

Finalmente, Lunacharsky [6] lê um chamado aos operários, soldados e camponeses, que é recebido com grandes aplausos e aclamações, que dizia: “os plenos poderes do Comitê Executivo Central conciliador expirou. O Governo Provisório foi deposto. O congresso toma o poder em suas mãos. O governo soviético vai propor uma paz imediata, entregará a terra aos camponeses, dará ao exército um estatuto democrático, estabelecerá o controle sobre a produção, convocará em tempo oportuno a Assembléia Constituinte, garantirá o direito das nações que compõem o Estado russo a disporem sobre si mesmas. O congresso decide que todo o poder, em todas as localidades, passa às mãos dos sovietes. Soldados, mantenham-se em seus postos de guarda! Ferroviários, detenham os comboios dirigidos por Kerensky sobre Petrogrado! Em vossas mãos está a sorte da revolução e a sorte da paz democrática!”.

Assim se consumou a maior revolução da História. Em seguida, o congresso elegeu um governo integrado por bolcheviques e social-revolucionários de esquerda, encabeçado por Lênin. Este governo tinha a tarefa imediata de concretizar a grande bandeira da revolução: a assinatura do tratado de paz com a Alemanha. E a tarefa estratégica de defender e fazer avançar a revolução, colocando-a a serviço da revolução mundial. Não por acaso, uma das principais tarefas da direção bolchevique foi a fundação da III Internacional.

NOTAS:
1.
Mencheviques e socialistas revolucionários
2. Trotsky, História da Revolução Russa
3. Idem
4. Dirigente menchevique
5. Partido da burguesia liberal
6. Dirigente bolchevique