Os pobres e os operários invadem a campanha eleitoral em São José dos Campos (SP)

Uma das placas feita a mão pelos próprios moradores
Diego Cruz

Candidaturas populares e socialistas conquistam amplo apoio na cidade do Vale do ParaíbaSe na grande maioria dos lugares essa campanha eleitoral vem sendo marcada pela apatia e frieza, em São José dos Campos (SP) existe uma grande movimentação nas fábricas, nos bairros operários e no Pinheirinho, uma ocupação de 1,3 km quadrados que reúne algo em torno de 1.800 famílias, ou 9.600 pessoas.

São nessas regiões que as candidaturas operárias do PSTU centram suas campanhas, com Toninho Ferreira candidato a deputado federal, o metalúrgico da GM, Renato Bento, o Renatão a estadual, assim como Valdir, ou simplesmente Marrom, principal dirigente do Pinheirinho.

“Se antes precisávamos convencer as pessoas politicamente para apoiar nossas campanhas, agora elas vem aqui espontaneamente, pegam materiais, se incorporam nas equipes”, explica Marrom, destacando a marca da campanha em uma das maiores ocupações urbana da América Latina: o amplo apoio espontâneo dos moradores.

Se as eleições é o terreno da burguesia, e a campanha eleitoral sua vitrine, em São José dos Campos os pobres e operários vem invadindo a força esse espaço.

Uma campanha popular
Em um dos três comitês de campanha de Marrom no Pinheirinho, o candidato aponta um mapa da cidade pregado na parede, com alguns bairros circulados em vermelho. São as regiões que já foram “cobertas” pela campanha, impulsionada por três equipes que somam no total 100 pessoas. Na campanha popular de Marrom, se o apoio vem espontaneamente, a ação se dá de forma bem planejada. Assim como a própria organização dos moradores da ocupação. Cada equipe é responsável por uma atividade: panfletagem, empunhar bandeiras, ou simplesmente conversar com as pessoas.

É só caminhar pelas ruas do Pinheirinho para comprovar o apoio da população. Pelas ruas poeirentas castigadas pela estiagem, alguns poucos cartazes impressos do candidato disputam espaço com faixas improvisadas pelos próprios moradores. Grande parte escrito a mão, sobre uma cartolina, alguns até com erros de português. Demonstração de que a falta de moradia digna ou educação não tirou dessa gente a vontade de lutar. E é justamente isso o que vem impulsionando a candidatura de Marrom. “Estamos tendo uma importante vitória com a regularização da ocupação, depois desses anos todos de luta, e as pessoas viram que é só com luta que conquistamos direitos, como a moradia“, explica o candidato.

Marrom se refere ao processo de regularização que os moradores do Pinheirinho estão conquistando nos três níveis: municipal, estadual e Federal. Recentemente, a prefeitura realizou o cadastramento dos moradores. Foi a primeira vez que o Estado esteve na ocupação para não reprimir ou intimidar. “Essa vitória trouxe bastante receptividade a nossa campanha em outros bairros também, estamos sendo um exemplo, as pessoas chegam e nos parabenizam”, diz Marrom, lembrando que antes morar no Pinheirinho era antes sinônimo de “bandido” ou “ladrão”, fruto do preconceito alimentado pela burguesia e a imprensa da cidade. Agora, é sinônimo de luta e conquista.


Dona Francisca, uma das apoiadoras da campanha no Pinheirinho

Para além do Pinheirinho
Dona Francisca Pereira toma conta da entrada de um dos comitês de campanha de Marrom. Apesar da idade, anda animada com a campanha eleitoral. Só não está mais entusiasmada pois “deus levou seu véinho” recentemente. Mas mesmo assim, visita as feiras com os ativistas da ocupação. “Uma mulher pegou meu panfleto e falou assim: ‘ah, mas ele é tão feinho’; respondi que é feinho mas é de luta, é dos pobres“, ela conta com uma risada contagiante.

As visitas às feiras da cidade são o que Marrom chama de “ações de massas”. Os ativistas “varrem” as feiras com 50 ou 60 pessoas, que conversam com a população e entregam os materiais de campanha. Além disso, muitos operários que moram na ocupação levam materiais como cavaletes da campanha, com as fotos e os números de Marrom e Toninho. Armam o cavalete em frente a fábrica quando entram e guardam no final do expediente, para repetir o feito no dia seguinte.

A campanha eleitoral das candidaturas operárias na região do Vale do Paraíba é um exemplo de como utilizar as eleições enquanto ponto de apoio das lutas sociais. Também mostra que é possível, com o apoio dos trabalhadores, furar o bloqueio da mídia e das campanhas milionárias da burguesia e impactar a cidade. No dia 4, por exemplo, uma carreata das candidaturas do PSTU na região reuniu 103 carros, que percorreram as principais ruas de São José.

VÍDEO DA CARREATA