Os pelegos e a reestruturação produtiva

O ataque da General Motors (GM) em São José dos Campos (SP) não é uma medida isolada, nem faz parte de um plano recente. Tem a ver com todo o processo de reestruturação produtiva e de organização do trabalho imposto nas últimas décadas no Brasil.

A chamada “reestruturação produtiva” foi uma maneira de o capitalismo tentar recuperar sua taxa de lucro após a crise dos anos 70. Para tanto, foram impostos elementos de um novo modelo de produção chamado “toyotismo”.

Junto com medidas como a restauração capitalista nos ex-estados operários (URSS e Leste Europeu), privatizações e abertura comercial, foi introduzida a flexibilização dos direitos sociais e trabalhistas. Assim, o principal fator da reestruturação foi o aumento da exploração. Embora a tecnologia seja um fator importante, o fundamental foi o aumento da extração da chamada “mais-valia absoluta”, ou seja, o aumento do lucro dos capitalistas baseado no aumento da jornada de trabalho.

“Parceiros”
Nas fábricas, foi imposto um sentimento de “parceria” entre os trabalhadores e os patrões. O operário passou a ser responsável não só pela produção, mas pelo próprio controle da qualidade do produto. A produção foi dividida em células, com metas de produtividade. Assim, se um trabalhador é obrigado a faltar ou tem uma produtividade menor, deve ser compensado pelo aumento da produtividade dos demais operários da célula. O trabalhador passa a ser o fiscal do próprio trabalhador.

Nesse processo, os direitos são transformados em privilégios. Produtividade e competitividade tornam-se palavras mágicas que orientam a produção. A terceirização avança sobre quase todos os setores, reduzindo salários e direitos.

Jogo dos patrões
No Brasil, a reestruturação produtiva ganhou força nos anos 90, quando foram impostos o banco de horas e as câmaras setoriais. Não à toa, o banco de horas foi introduzido no país a partir de um acordo fechado pelas montadoras e por Luiz Marinho, atual ministro de Lula e ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. A direção sindical foi um fator fundamental para a implementação da reestruturação.

A reestruturação e a flexibilização do trabalho foram, desta forma, possibilitadas pela ação das direções sindicais. Também não foi à toa que esse processo coincidiu com o avanço do PT na ocupação de cargos do poder.

A reestruturação, inclusive, se dá pela ação conjunta entre Estado e burocracia. Em troca da manutenção de seus privilégios, a burocracia dos sindicatos torna-se uma verdadeira casta de funcionários da burguesia. Tenta impor a flexibilização utilizando os mesmos argumentos da burguesia, afirmando que essa é a realidade e que o papel dos sindicatos é conseguir o “mal menor”.

Uma frase de Marinho ilustra bem isso. “As fábricas estão se modernizando e cortando emprego, e farão isso de qualquer jeito, com ou sem a participação do sindicato. Nosso papel é negociar o ritmo de modernização das empresas”, afirmou.

Nesse contexto, a ação dos metalúrgicos de São José adquire ainda maior importância. Demonstra que, com uma direção comprometida com os trabalhadores, é possível vencer o processo de reestruturação. Por isso, é fundamental substituir os burocratas da CUT e da Força Sindical por dirigentes de luta. Apesar de ser uma batalha duríssima, a vitória é possível.

Flexibilização não gera empregos
Os trabalhadores estão fazendo sua experiência com a flexibilização dos direitos e percebendo que, apesar do atual discurso da Força Sindical e da CUT, ela não gera empregos. No ABC paulista, por exemplo, foram impostas as câmaras setoriais, o banco de horas e a redução de salários e da jornada de trabalho. Hoje, dos 40 mil trabalhadores da Volkswagen dos anos 80, restam apenas 10 mil, com salário 15% menor. Em 1991, o ABC contava com 196 mil metalúrgicos. Hoje são 100 mil.

Isso sem falar no aumento do número de trabalhadores que apresentam lesões ocasionadas por excesso de trabalho. Estima-se que pelo menos 30% dos trabalhadores tenham lesões.

Post author Diego Cruz, de São José dos Campos (SP)
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