Os impasses da crise econômica

A retomada da crise econômica mundial, com o estouro da dívida grega, trouxe à tona uma importante discussão sobre as políticas adotadas pelos países dominantes para enfrentar o novo cenário de turbulência. Nas últimas semanas, uma intensa polêmica entre importantes economistas burgueses se dá em torno aos ajustes fiscais que estão sendo anunciados em toda a Europa.

Os ajustes fiscais agravarão a crise econômica?
De um lado, economistas vinculados ao G-20 e ao FMI, apoiados entusiasticamente pelo mercado financeiro, sustentam a defesa intransigente de um amplo e profundo programa de ajuste fiscal a ser aplicado nas economias que apresentam déficits fiscais significativos, tais como: Grécia, Espanha, Itália, Reino Unido, entre outros.

Os “pacotes de ajustes” que prevêem drásticos cortes nos salários e aposentadorias, diminuição brutal nos gastos sociais e um amplo plano de privatizações; implicam também na retirada acelerada dos estímulos econômicos concedidos no último período como forma de atenuar a recessão.

Os ajustes fiscais, segundo esses economistas, evitariam a explosão das dívidas públicas, suavizariam os déficits fiscais e aumentariam a competitividade dos países ao abaixar o custo da mão-de-obra e ao estimular a produtividade. Não obstante, acalmariam os mercados financeiros, entre outras conseqüências necessárias para se evitar um duplo “mergulho” da crise econômica.

De outro lado, expressando um setor da burguesia americana assustada com o recrudescimento da crise, economistas como Paul Krugman, se colocam fortemente contra a política de ajustes fiscais defendidos pelo G-20 e FMI. Para Krugman, cortar despesas de economias que se encontram profundamente deprimidas além de não garantir a explosão das dívidas em longo prazo, teria como efeito imediato o estimulo à recessão.

Ainda segundo o economista, num contexto de desemprego crescente e frágil retomada econômica (sustentada em grande medida pelos gastos públicos), os ajustes fiscais seriam, ao contrário do que afirma o FMI, um fator catalisador para uma nova queda da economia mundial.

Krugman não deixa dúvidas de sua posição: “não deixei totalmente clara o quão disparatada é essa demanda por uma austeridade fiscal já. A questão chave é que eliminar os gastos com programas de estímulos ao mesmo tempo que prejudicaria severamente a economia, não contribuiria praticamente em nada para reduzir problemas futuros de dívida” (Estado de S. Paulo, 10 de junho).

Qual a saída?
As duas alternativas burguesas se deparam com sérios problemas. Se de um ponto de vista os ajustes fiscais, ao retirar estímulos econômicos e cortar gastos sociais, terão um efeito depressor para o conjunto da economia mundial, acelerando a possibilidade de um duplo “mergulho” da crise; de outro ângulo, a manutenção dos estímulos econômicos e o crescimento das dívidas públicas, a despeito de suavizar a queda da economia num primeiro momento, vêm conduzindo à criação de novas bolhas especulativas e à iminência de quebra de uma série de países em virtude dos déficits fiscais.

O que as duas políticas burguesas não conseguem resolver até o momento é o problema de fundo que fez eclodir a pior crise econômica desde 29: a queda da taxa média de lucro, que se transparece no declínio acentuado dos investimentos privados produtivos em escala global e na superprodução de mercadorias, combinada com a hipertrofia do capital especulativo (ou fictício) que vigora por meio da recriação permanente das bolhas financeiras.

Com efeito, a burguesia enfrenta nesse momento as conseqüências agravantes de sua própria política. Nos últimos dois anos, como forma de evitar a depressão econômica, os governos imperialistas injetaram cerca 24 trilhões de dólares para reaquecer a economia. Essa quantia, sem precedentes na história, dada ao capital financeiro, saiu dos cofres públicos. Em outras palavras, dinheiro público salvou da bancarrota banqueiros e multinacionais.

Contudo, essa medida que “amorteceu” a queda da economia mundial num primeiro momento hoje cobra seu preço. As ajudas bilionárias financiadas com gastos públicos endividaram sobremaneira os estados, que se vêem agora ameaçados pelos gigantescos déficits fiscais. Mas não para por aí, os trilhões de dólares – em sua grande maioria – não foram destinados ao investimento produtivo. Mas ao contrário, alimentaram a recriação e o aprofundamento das bolhas especulativas.

As perspectivas abertas
O horizonte da economia mundial é sombrio. A aplicação generalizada dos “ajustes fiscais” tenderá a agravar o quadro de recessão econômica, quiçá precipitando uma depressão ao exigir uma diminuição substancial dos gastos públicos, os quais vêm sustentando a economia mundial no último período.

Entretanto, tem como “vantagem” para a burguesia a imposição de um padrão de exploração superior. Isto é, ao arrochar salários e aposentadorias, aumentar o desemprego e retirar direitos sociais, promove o aumento da taxa média de lucro e, assim, estimula o investimento produtivo privado, que é o motor da economia capitalista.

Resta saber se a classe trabalhadora européia aceitará esse brutal ataque. Os gregos com suas sucessivas greves gerais dão prova de resistência encarniçada. O destino próximo da Europa não estará somente nas mãos dos planos econômicos de sua burguesia. Mas, sobretudo, nos embates da luta de classes que se acirrarão no próximo período.