Os `descompassos` de Antônia

Selecionado pelo Festival de Berlim, “Antônia” é um belo filme e mostra a diversidade da periferia e da população negra. Contudo, tropeça na indefinição entre retratar as cruezas da realidade ou alimentar a falsa ideologia de que “aqueles que correm atrás de seus sonhos” serão recompensados pela sociedade em que vivemos.

O novo filme de Tata Amaral, assim como os dois anteriores (os excelentes “Céu de Estrelas” e “Através da Janela”), mergulha no universo de setores marginalizados e “encurralados” pela sociedade.

Em “Antonia”, o cenário é a Vila Brasilândia, na periferia da Zona Norte paulistana. É lá que vivem Preta (a rapper Negra Li), Barbarah (a cantora Leilah Moreno), Mayah (a cantora e dançarina Quelyah) e Lena (a MC Cindy), quatro mulheres negras que sonham com uma carreira de sucesso no mundo do hip hop.

Um sonho que, no decorrer do filme, esbarra em todo e qualquer tipo de obstáculo, com destaque para o machismo dos outros “rappers”, de seus companheiros e da sociedade em geral; os critérios “artísticos” do mercado e a violência que assola a periferia.

Estes obstáculos, apesar de desmantelarem a fórmula “basta um pouco de esforço e você chega lᔠ– tão tradicional no cinema e na TV nacionais –, não impede que o filme seja marcado por uma certa “irregularidade”, que o faz cambalear entre o explícito desejo de revelar para o público que, na nossa sociedade, a realidade é capaz de sufocar até os sonhos mais belos e o caminho oposto, que prega a “perseverança” e a “insistência” como rotas certeiras para o sucesso.

Muito dessa irregularidade, provavelmente, está diretamente vinculada à principal patrocinadora de “Antônia”: a Globo Filmes, que chegou a se utilizar de um mecanismo inédito (o lançamento prévio de uma minissérie, que terá continuidade) na tentativa de levar mais gente aos 124 cinemas em que o filme foi lançado (algo pouco comum, num país onde existem pouco mais de 1700 salas de exibição).

Um pé na lama, outro no asfalto
Uma das cenas mais recorrentes do filme mostra as componentes do grupo chegando na Brasilândia, depois dos shows, e trocando seus sapatos de salto-alto por tênis, mais adequados para as ladeiras e ruas esburacadas e não pavimentadas do bairro. Uma bela metáfora para a enorme diferença existente entre aquele bairro e seus quase 300 mil moradores e a “maior metrópole da América Latina”, vista sempre ao longe, para além de um mar de barracos e casebres.

Mostrada em vários momentos do filme, como uma espécie de marcação para as dificuldades do grupo, que vai se reduzindo até que reste apenas uma solitária cantora debaixo do poste de luz, a cena é simbólica em relação à imersão que a diretora fez no mundo de suas personagens. Certamente o ponto alto do filme.

Tata Amaral utilizou apenas “não-atores”. Além das cantoras, o filme traz o rapper Thaíde, numa surpreendente interpretação como o agente das garotas, e figuras do cenário do hip hop e da música negra, como Sandra Sá, Thobias da Vai Vai, Kamau, Chico Andrade, Ezequiel, Macário, entres outros. Assim, a diretora optou por uma filmagem quase documental, com uma câmera na mão que acompanha os personagens pelas vielas e cômodos apertados de suas casas pobres e dignas.

Se é verdade que este tipo de recurso muitas vezes resulta em interpretações questionáveis, também é um fato que ele em muito contribui para a sensação de realidade que permeia todo o filme. A câmera ágil, as falas improvisadas e a aparência de “filme caseiro” de algumas cenas ajudam a desfazer a representação de pobreza maquiada e estilizada que tem caracterizado alguns filmes nacionais, como “Cidade de Deus”, por exemplo.

Mulheres negras e guerreiras
Problemas à parte, há muito de bom em “Antônia”. A começar por aquilo que Tata Amaral discutiu como sendo o centro de seu filme: dar voz a mulheres “pobres, negras, excluídas”, que “muitas vezes vencem incríveis obstáculos para encontrar um lugar no mundo e dar o seu recado”.

São mulheres que não têm medo de enfrentar maridos e companheiros que são estorvos em suas vidas e carreiras, empresários aproveitadores ou rappers que apenas as querem como “pano de fundo” ou “enfeite” de palco. Jovens acuadas pela pobreza, pela gravidez precoce e pela violência, que fazem da música não só uma expressão de sua realidade, mas também uma forma de confrontá-la.

Além disso, o filme tem o mérito de também apresentar a população negra em sua diversidade: dos jovens “delinqüentes” que vagam pela periferia submersos na violência (praticadas por eles ou contra eles) aqueles que vivem sob a sombra das igrejas; dos machistas asquerosos aos gays (personificado pelo irmão de uma das protagonistas, que, diga-se de passagem, apesar de cumprir papel determinante no desenrolar da história, simplesmente “some” do enredo a partir de um determinado momento).

Embaladas por uma das canções-tema do filme, “Nada pode me parar”, estas jovens negras fazem do refrão de sua música um verdadeiro lema: “Não vou desistir / Ninguém vai me impedir / Se eu tenho força pra lutar / Nada pode me parar…”.

Destino incerto
Outro ponto forte do filme é deixar o destino das protagonistas em aberto. Quem for assistir o filme verá que o tão almejado “show” pelas quais o grupo lutava acaba acontecendo num palco muito distante do estrelato e, consequentemente, muito mais próximo da realidade.

Fugindo de estereótipos e da asquerosa ideologia do “final feliz” – como também do típico olhar paternalista da classe média sobre a favela e os marginalizados –, Tata deixa o destino de suas personagens em aberto, “obrigando-as” a reescrever seus sonhos com a nem sempre agradável tinta da realidade. Uma opção bastante digna, que por si só vale o ingresso.

Em tempo: Se os descompassos do filme não chegam a afetar a qualidade do filme, o mesmo, pelo que tudo indica, não pode ser dito sobre o efeito da fama sobre as protagonistas. Questionada sobre o fato de ter alisado o cabelo e feito uma cirurgia plástica para afinar o nariz, a cantora Negra Li saiu com uma lamentável pérola:

“Eu não aguentava mais ir a bailes funks e ver cabelos blacks como o meu. E o nariz me dava um ar masculinizado. Mudei, e daí? Não sou escrava da minha cor”. Lamentável!
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