Os 80 anos do mestre do realismo fantástico

No dia 6 de março, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez comemorou 80 anos de uma vida dedicada à literatura. Autor de “clássicos” como “Cem anos de solidão”, o escritor colombiano é exemplo de como as relações entre literatura e realidade podem toAs comemorações e homenagens a Garcia Márquez se estenderão durante todo o ano, já que, em 2007, também se celebram os 40 anos da primeira publicação de seu livro mais conhecido, “Cem anos de solidão”, definido por Pablo Neruda como “o melhor romance em língua castelhana depois do Quixote”, de Cervantes.
O que se sobressai em seus livros são os pulsantes retratos de uma América Latina cuja realidade flui em histórias onde se mesclam as mazelas que marcaram nossa colonização. Dentre elas está a lamentável recorrência de latifundiários, caudilhos e ditadores em nossa História e as contradições surgidas da convivência nem sempre tranqüila entre as culturas nativas e a européia.

O realismo mágico…
São esses elementos que se encontram na base daquilo que se convencionou chamar de “realismo fantástico” ou “realismo mágico”, estilo que tem seus principais representantes no próprio Gabo, nos argentinos Júlio Cortazar e Jorge Luis Borges e no cubano Alejo Carpentier.

Gabo produziu centenas de textos jornalísticos, dezenas de contos e romances, além de roteiros para cinema e TV. Mesmo que seja extremamente difícil apontar uma única característica que tenha marcado toda sua obra, é possível ao menos destacar um elemento que permeia todo o seu universo literário: a impressionante capacidade de relatar tudo aquilo que é, aparentemente, inverossímil, inusitado e mágico como sendo tão real e possível quanto aquilo que nos parece lógico e cotidiano.

Em “Cem anos”, por exemplo, sete gerações da família Buendia-Iguarán se sucedem no desenrolar de uma história marcada por episódios reais, dramas familiares e lances mágicos (como a “mulher mais linda do mundo” que é arrebatada pelo vento, sumindo no ar). Tais episódios servem como metáforas para os muitos descaminhos da América Latina, sua conquista, seu (sub) desenvolvimento, a exploração mercantil e capitalista, suas revoluções e contra-revoluções.

Esta metáfora é construída através de uma estrutura circular que faz com que a mítica Macondo (país imaginado pelo autor) passe por diferentes “ciclos”: a criação, a desintegração, a destruição e a criação, através da própria literatura. Um processo marcado, de forma bastante interessante, por uma “epidemia de insônia”, cuja principal conseqüência é o esquecimento do passado, uma característica tão dolorosamente típica em terras latinas americanas (seja pela situação massacrante em que os povos latinos vivem, seja pela manipulação absurda feita pelos poderosos).

…e o grotesco da realidade.
Apesar de ter sua vida marcada pela militância de esquerda, o universo de Garcia Márquez é povoado por uma infinidade de personagens vinculados à aristocracia latifundiária e aos corruptos governantes. Exemplo disso é “O outono do patriarca” (1975), que narra a absurda saga de um ditador tão solitário quanto grotesco, tema também abordado em “O general em seu labirinto” (1989).

São personagens como esses que atravessam o caminho de gente que tem como único objetivo satisfazer um desejo de felicidade quase mítico, uma espécie de resgate de um tempo há muito perdido, antes da colonização, da exploração, da separação entre o que é realmente “sagrado” e aquilo que foi “sacralizado” e imposto pelo Capital e seus mandatários.

Essa busca – utópica, é verdade, mas, fundamental para o ser humano – é o que alimenta a narrativa de livros como “A incrível história da cândida Erêndira e sua avó desalmada” (1977) ou “Crônica de uma morte anunciada” (1981).

Neste último, Gabo baseou-se numa história real – o assassinato de Santiago Nasar, acusado de “desonrar” uma moça, já anunciado na primeira linha do livro – para debruçar-se sobre os poderes que se escondem por trás desta história de vingança e a hipocrisia e a conivência da população com o crime.

É nesta mesma vertente que segue “Amor nos tempos do cólera” (1987), ao narrar uma história de amor que ultrapassa os limites do tempo e da idade (sobre um homem que passa 53 anos, quatro meses e 11 dias à procura de sua amada) para compor um belíssimo quadro sobre tudo aquilo que nos faz humanos e nos faz seguir adiante, mesmo num sistema doente e contaminador como o nosso.

Um cidadão do mundo… com um coração castrista
Gabo abriu a comemoração dos seus 80 anos na ilha de Cuba, ao lado de seu velhíssimo amigo Fidel Castro. Em nossa opinião, como muitos outros, Garcia Márquez confunde a revolução cubana com o regime de Fidel , a quem já definiu como “um bom ditador”.

Nós não temos nenhuma simpatia por Fidel e seu regime, mas o mesmo não podemos dizer em relação a um de seus mais ilustres amigos. Obviamente, com isso não queremos isentar o escritor de igualar-se a muitos dos seus próprios personagens, na medida em que, ao apoiar Fidel, envereda por caminhos muitos mais pautados em fantasiosa utopia (a de que o ditador cubano seja uma alternativa socialista) do que na própria realidade.

Contudo, isso não faz de sua obra algo menos genial. Sua liberdade criativa jamais ficou comprometida. A marca da obra de Gabo é o combate à alienação. A alienação do povo latino de sua própria história; a alienação da vida em relação à arte e, principalmente, da própria arte em relação à vida.

Algo que ele próprio sintetizou ao receber seu Prêmio Nobel: “Aquilo que os europeus e norte-americanos vêem como mágico é o cotidiano da realidade e da imaginação em nossas vastas e desoladas comarcas. São os pólos de nossa contradição: o contemporâneo, o arcaico”. Uma contradição que, nas suas palavras, precisa ser desfeita para “possibilitar a todos aqueles que foram condenados a cem anos de solidão uma segunda oportunidade sobre a terra”.

Garcia Márquez obrigatório (além dos já citados):

* Ninguém escreve ao Coronel (1962)
* Crônica de uma morte anunciada (1981)
* O amor nos tempos do cólera (1985)
* O general em seu labirinto (1989)
* Doze Contos Peregrinos (1992)
* Do Amor e Outros Demônios (1994)
* Notícias de um Seqüestro (1996)
* Memórias de Minhas Putas Tristes (2004)

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