Os 70 anos da Quarta Internacional

No dia 3 de setembro de 1938, em um congresso que durou apenas um dia, sob a terrível perseguição stalinista, foi fundada a Quarta Internacional. Assim terminava uma longa batalha contra a degeneração burocrática que Trotsky começou em 1923 e que Lenin havia iniciado um ano antes.

O enfrentamento do terror stalinista e a defesa da URSS
A partir de 1933, quando a Terceira Internacional apóia a política desenvolvida pelo Partido Comunista Alemão que levou ao triunfo de Hitler e à pior derrota do proletariado alemão, Trotsky chega à conclusão de que não há tarefa mais importante e urgente que fundar a Quarta Internacional.

Essa era a única forma de preservar os princípios leninistas e estar preparados para o próximo levante revolucionário que, muito provavelmente, viria depois da guerra mundial que se aproximava.

A tarefa não foi fácil. Por um lado ocorria o avanço avassalador do nazismo. Por outro, o stalinismo, que havia negado a frente única operária para enfrentar Hitler, agora lançava a política de frente popular, ou seja, frente com a burguesia “democrática” como forma de enfrentar o fascismo. A isso se somava o ataque contra-revolucionário contra tudo o que restava da velha direção bolchevique.

Com os terríveis processos de Moscou, sob acusações falsas, foi aniquilada fisicamente a maior parte da direção bolchevique que participou da tomada do poder e que se enfrentou com Stalin, seja pela esquerda como pela direita. Assim foram caindo Zinoviev, Kamenev, Bukharin… Ao mesmo tempo em que os seguidores de Trotsky (entre eles seus filhos) morriam nos campos da concentração da URSS ou sob a ação dos carrascos que os perseguiam pela Europa.

A barbárie stalinista gerou uma corrente dentro do movimento pela Quarta Internacional que começou a propor que não havia motivos para defender a URSS, já que não se diferenciava do imperialismo. Em meio ao ataque stalinista, Trotsky desenvolveu uma incansável batalha contra essa corrente antidefensista, propondo a defesa incondicional da URSS diante de qualquer ataque imperialista. Dizendo ao mesmo tempo que a única forma de defender as conquistas de outubro era realizando uma revolução política que tirasse a burocracia do poder.

A batalha contra os céticos
Por outro lado, assim como durante dez anos Trotsky recebeu as críticas dos que opinavam que não se justificava a luta para reformar o Partido Comunista Soviético e a Terceira Internacional, agora a maioria de seus seguidores não estava convencida de que se deveria fundar a Quarta.

Os argumentos centrais eram muito parecidos aos que hoje muitas correntes usam para justificar não construir a Internacional: “que ainda não havia chegado o momento”, “que iriam construir algo muito débil”, “que não se haviam dado os grandes acontecimentos da luta de classes que justificam sua construção”… Em uma grande quantidade de cartas, várias vezes Trotsky responde a esses setores. No Programa de Transição volta a fazê-lo:

“Os céticos perguntam: mas chegou o momento de criar uma nova internacional? É impossível, dizem, criar uma internacional ‘artificialmente’, ‘só grandes acontecimentos podem fazê-la surgir’, etc. (…) A Quarta Internacional já surgiu de grandes acontecimentos: as maiores derrotas do proletariado na história”.
“A causa dessas derrotas está na degeneração e na traição da antiga direção. A luta de classes não admite interrupção. Para a revolução a Terceira Internacional, depois da Segunda, morreu. Viva a Quarta Internacional!”

“Mas chegou o momento de proclamar sua criação? Os céticos não se calam. A Quarta Internacional, respondemos, não necessita ‘proclamar-se’, ela existe e luta. É débil? Sim, suas fileiras não são numerosas porque ainda é jovem. Por agora há principalmente quadros. Mas esses quadros são garantia do futuro”.

“Fora desses quadros, não há no planeta uma só corrente revolucionária digna desse nome. Se nossa Internacional é débil numericamente, é forte por sua doutrina, seu programa, sua tradição, o temperamento incomparável de seus quadros”.

A fundação da Quarta
Finalmente, em 3 de setembro de 1938 é fundada a Quarta Internacional em Paris. Pelos problemas de segurança provocados pelo terror stalinista, Trotsky não participa. Dias antes havia sido seqüestrado é assassinado pela GPU um de seus secretários, Rudolf Klement, encarregado de organizar o congresso.

Pelo mesmo motivo o congresso dura apenas um dia e vota poucos documentos: o Programa de Transição, um esboço de estatuto que se informa oralmente (o texto original havia desaparecido com Klement), um manifesto contra a guerra, uma resolução sobre a juventude e cartas de saudações a Trotsky, aos camaradas assassinados e aos combatentes da Guerra Civil Espanhola.

Participaram delegados da União Soviética, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Polônia, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica e Estados Unidos, mais um delegado representando a América Latina (o brasileiro Mario Pedrosa).

As organizações de todos esses países eram pequenas e como dizia Trotsky: “Nossa organização é incomparavelmente mais difícil que a de qualquer outra organização em qualquer época (…) Não há nada no mundo que seja mais convincente que o êxito, e nada mais repulsivo, sobretudo para as amplas massas, que a derrota (…) É preciso juntar a degeneração da Terceira, de um lado, e de outro a terrível derrota da Oposição de Esquerda na Rússia, seguida de sua exterminação (…) A composição social de um movimento revolucionário que começa a se construir não tem predominância operária (…) Devemos criticar a composição social de nossa organização e modificá-la, mas devemos também compreender que ela não caiu do céu, que ela é determinada, pelo contrário, tanto pela situação objetiva como pelo caráter de nossa missão histórica nesse período”.

Nahuel Moreno dizia que a Quarta havia nascido com uma cabeça de gigante e um corpo de anão. Stalin era consciente do poder dessa cabeça de gigante, que sintetizava a experiência das três revoluções russas. Por isso, não descansou até conseguir tirar a “cabeça” da Quarta. E conseguiu. Em 20 de agosto de 1940, um de seus enviados, Ramón Mercader, acabou com a vida de Trotsky, provocando uma ferida de terríveis conseqüências na recém-fundada Quarta Internacional.

A dispersão da Quarta e a necessidade de sua reconstrução
A perda dessa cabeça de gigante deixou a Quarta em terríveis condições para enfrentar a Segunda Guerra Mundial, o ataque combinado do nazismo e do stalinismo e as grandes mudanças do pós-guerra. A debilidade e inexperiência de seus dirigentes os levaram a cair em desvios sectários em um primeiro momento, para depois capitular aos aparatos contra-revolucionários fortalecidos com o resultado da guerra, provocando um processo de dispersão que mantém até hoje.

Isso leva à contradição de que hoje, quando as massas do Leste Europeu deram o golpe de misericórdia no aparato central do stalinismo, a Quarta como organização não existe, apesar de seu programa ter sido confirmado pela realidade.

Não há tarefa mais importante e mais urgente que sua reconstrução porque, como disse Trotsky, “sem condução, sem direção internacional, o proletariado não poderá se liberar da atual opressão”.

Devemos encarar essa reconstrução não com a metodologia de autoproclamação ou através da realização de atos e conferências abertas, como fazem diferentes seitas que se reivindicam trotskistas. Devemos fazê-la com o método aplicado por Trotsky em sua construção: sem nenhuma autoproclamação e chamando os revolucionários a tomar de forma conjunta a luta revolucionária e a discussão programática.

Encarando essa discussão programática com paciência, sem ultimatismos, mas sem nenhuma diplomacia, de frente para as massas e sem esquecer outras normas da política revolucionária: “Não se assustar sem necessidade e não assustar os demais sem causa, não fazer acusações falsas, não buscar capitulação onde não existe, não substituir a discussão marxista pelas disputas sem princípios”.
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