Operários da principal mina privada no Chile anuncia paralisação e defende Greve Geral

Greve mineira: No marco da rebelião popular que se estende ao longo do país, os trabalhadores mineiros da mina Escondida paralisam. Vamos à Greve Geral!

Divulgamos a declaração do Sindicato n⁰ 1 de trabalhadores da Mina Escondida:

Companheiras e companheiros. Hoje o país está passando por difíceis e críticos momentos, ocorreu uma explosão social e legítima, um acúmulo de raiva contida de atropelos, desigualdades, desesperança e de incerteza ao futuro. Nós, trabalhadoras e trabalhadores, somos parte integrante desta sociedade e mais ainda somos o eixo central que conforma a classe trabalhadora, e perante os graves fatos ocorridos não podemos guardar silêncio e não podemos permanecer imóveis diante do nosso povo que está lutando.

Esta raiva contida vocês conhecem bem e vivem-na todos os dias, uns em maior medida, porém, está aí viva, latente em cada uma de nossas famílias, vizinhos e amigos. Essa explosão de raiva não foi devido ao aumento das passagens do metrô, que só foi o gatilho deste câncer de injustiças que as trabalhadoras e trabalhadores vivem diariamente. É importante ver claramente como este sistema governamental e capitalista nos oprime. Às vezes não somos capazes de vê-lo porque estamos acostumados com o jugo político e empresarial e disfarçamos nossas evidentes necessidades com o endividamento familiar.

Temos um sistema previdenciário que é um roubo; seu dinheiro é aproveitado pelos bancos e empresas para emprestá-los a você mesmo com altos juros, os lucros as AFPs (Administradora de Fundos de Pensão) e seus donos recebem, mas as perdas somos nós trabalhadores que assumimos, pois quando estivermos velhos, cansados e doentes receberemos misérias de pensões.

Vocês sabem perfeitamente que a saúde tem um preço e aquele que não tem dinheiro morre. Pagam mensalmente importantes quantidades de dinheiro em planos e seguros, e mesmo assim quando ficam doentes devem pagar. Olhe para o lado, companheiras e companheiros, rompam sua bolha individual e vejam claramente quantos de seus pais, filhos, irmãos, sobrinhos, tios, avós e amigos estão endividados por não ter como se tratar; quantos morreram em hospitais miseráveis por não ter como pagar para viver.

Companheiras e companheiros, vocês pensam em que tipo de educação ou legado estão deixando para seus filhos. Seus filhos e familiares estudam num sistema educacional medíocre que os prepara para ser mão de obra barata. Vocês pagam para educar os seus filhos, mas os filhos dos ricos e poderosos estudam em escolas ainda melhores, inatingíveis aos seus bolsos, e ainda com os benefícios que a empresa concede. Os filhos dos ricos e poderosos vão para as melhores universidades do Chile, essas mesmas que os nossos pais trabalhadoras e trabalhadores levantaram com o seu esforço e trabalho e que hoje em dia é aproveitada por outros e não os filhos dos trabalhadores e humildes.

Companheiras e companheiros a questão de fundo desses problemas do país, não é que faltem recursos, pelo contrário, sobram recursos, o problema é que são roubados por grandes companhias transnacionais como BHP. Só para exemplificar, dos recursos minerais do Chile apenas 25 % dos lucros fica no país e o resto é “roubado legalmente” por grandes companhias transnacionais que há anos se aproveitam descaradamente da legislação pró-empresarial. Aí, nesses recursos estão nossas aposentadorias, as cirurgias e recursos médicos para que não morra nossa gente e aí está a educação gratuita e de qualidade que seus filhos merecem e à qual vocês não tiveram acesso.

Diante desta crua realidade o que faremos companheiras e companheiros? Fecharemos os olhos e faremos vista grossa? Quantos de nossos filhos estão nestas manifestações sociais e na rua, quantos de nossos pais estão lutando, nossas esposas e ou maridos, nossos sobrinhos, nossos irmãos, etc… Vejamos claramente o que está acontecendo. Lamentavelmente vocês conhecem muito bem a história e o que significa as Forças Armadas nas ruas.

Tomaremos então consciência quando matarem alguém próximo a nós e aí lamentaremos entenderemos a importância de lutar unidos por um futuro melhor. Existe um único poder que ninguém pode nos tirar, que ninguém pode nos obrigar e que ninguém mais é capaz de se igualar, e este é o poder de produzir. Não se gera nenhum lucro, não se move uma única máquina e não se semeia ou colhe nenhum alimento se não for pelas mãos dos trabalhadores. Esse poder é o maior de todos, é seguro, pacífico, protetor, classista e de irmandade para o nosso povo.

Este sindicato tem uma responsabilidade social ao ser o maior sindicato da mineração privada e por fazer produzir a maior mina do mundo, da transnacional mais poderosa do planeta. Temos uma história de luta e lealdade que recordar e hoje é preciso dar o exemplo para a mineração nacional, privada e estatal. Temos que paralisar nossas operações pela segurança do nosso povo que deve viajar das regiões, devemos paralisar pela insuportável preocupação do que está acontecendo no nosso país, onde nossos familiares são parte ativa desses movimentos sociais, tudo isso amparado nas garantias constitucionais. Do artigo 184 o do código do trabalho. Mas o mais importante e de mais valor, é que devemos paralisar porque somos parte desta classe trabalhadora que está sofrendo. Isso começou em Santiago e o povo inteiro, de Arica a Punta Arenas saiu para defender o povo inteiro. Não podemos continuar trabalhando e fazendo funcionar essas empresas poderosas como se nada estivesse acontecendo, sabendo que estão em conluio com este governo que hoje nos ataca e oprime. Não podemos deixar de paralisar, pois a história nos condenará como covardes e cúmplices destes ataques à classe trabalhadora, e o mais íntimo e sentido é que não podemos deixar de paralisar porque não seremos capazes de olhar para a cara de nossos familiares e principalmente para nossos filhos que hoje estão nesta luta, sem sentir que não fizemos nada para apoiá-los e defendê-los, sabendo que esse poder e capacidade estão em nossas mãos.

À paralisação, mineiras e mineiros, à paralisação toda mineração do Chile ao lado de outros setores produtivos, até que retirem as forças militares e opressoras das ruas e até que as autoridades do governo estejam disponíveis a sentar-se a dialogar de igual a igual com este povo que clama e luta por igualdade, justiça, oportunidades, trabalho e uma vida digna para o nosso povo.

Saudações fraternais.

Diretório do Sindicato N º 1 de trabalhadores de Mina Escondida

Tradução Erika Andreassy