Operários cruzam os braços nas obras do PAC

Polícia reprime 8 mil operários que se acotovelavam para receber salários
Xingu Vivo

Representantes da CSP- Conlutas foram a Belo Monte para levar apoio às reivindicações dos trabalhadoresNovas greves operárias tomaram conta dos canteiros das principais obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Nas obras da Usina de Belo Monte, a greve dos operários começou no dia 28 de abril, em um dos canteiros da obra. Mas rapidamente se espalhou como um rastilho de pólvora e atingiu todas as unidades da obra. Pelo menos 80% dos oito mil operários aderiram à greve.

O movimento começou quando um operador de motosserra, Orlando Rodrigues Lopes, de Altamira, morreu em um acidente de trabalho. Mas os trabalhadores denunciam que os acidentes com mortes já fazem parte da rotina. “Eles [a empresa] mandam o corpo pra família, porque eles moram fora, e ninguém fica sabendo de nada. Eles abafam. Mas não conseguiram abafar agora porque o peão era de Altamira”, relatou um operário à reportagem do movimento Xingu Vivo.

A pauta da greve em Belo Monte exige: equiparação salarial; redução do intervalo da baixada (visita à família, quando são de outras regiões) de seis para três meses; comida e água não estragada; fim do desvio de função; baixada para ajudantes de produção (cargo mais baixo na hierarquia da obra); capacitação para funcionários; plano de saúde; aumento do cartão alimentação (hoje, em cerca de 90 reais); aumento de salário; pagamento de horas extras aos sábados; transporte digno e o direito à baixada para os trabalhadores que decidirem, por conta própria, morar fora dos canteiros de obras. Outro elemento da pauta é a exigência da “troca” do atual sindicato como representante dos trabalhadores.

Rebelião na base
Há uma ampla revolta dos operários contra o atual Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada do Pará (Sintrapav), ligado à Força Sindical, acusado de ser totalmente alinhado com a empresa. A rebelião é tamanha que os trabalhadores lançaram um abaixo-assinado para que o sindicato não seja mais a entidade representativa da categoria.

Desde o início, o sindicato tenta sistematicamente acabar com a greve. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada (Fenatracop), Wilmar Gomes dos Santos, chegou a dizer que as barricadas feitas pelos operários para os piquetes de greve foram promovidos por movimentos e não pelos trabalhadores da obra. Para ele, a greve “não existe”. “Tivemos reuniões com a empresa, fizemos acordo e encerramos a greve após a decisão tomada pela assembleia na sexta-feira. Ao tentarmos voltar ao trabalho, no sábado, seguindo o acordado com a empresa, fomos impedidos pelos movimentos sociais extra-obra”, disse ao Portal Agência Brasil, do governo federal.

No último dia 2, uma comissão da CSP- Conlutas foi a Altamira para auxiliar a greve dos trabalhadores. Atnágoras Lopes, da Executiva Nacional da central, Aílson Cunha, Coordenador Geral do Sindicato da Construção Civil de Belém, estiveram com os operários, desde às 4h da manhã, levando apoio as suas reivindicações.

Atnágoras levou as denúncias e reivindicações dos operários de à reunião da Mesa Nacional de Negociação composta pelo governo federal, empresas construtoras e sindicatos da categoria. A reunião ocorreu em Brasília, no último dia 3. “Levamos à Mesa as reivindicações dos operários de Belo Monte. Eles não querem mais ter que comer comida estragada,precisam de aumento de salário e exigem que nenhuma demissão seja feita, como já aconteceu em outras greves no passado. A CSP-Conlutas exige que o governo cumpra o Termo Nacional que já foi aprovado nessa mesma instância”, afirmou Atnágoras ao Opinião.

Tratados como gado
Na manhã do dia 2, um trabalhador de Belo Monte foi preso na manhã durante uma ação de repressão da polícia. A ação ocorreu quando a empresa resolveu adiantar os pagamentos dos salários (em dinheiro) em uma danceteria em Altamira. A polícia foi chamada pra “organizar”. Rapidamente usou bombas de gás e spray de pimenta. Um helicóptero sobrevoava o local, com fuzis apontados para os trabalhadores operários. Carros da polícia com adesivos do consórcio privado Norte Energia desfilam na cidade (veja foto), mostrando o claro compromisso do Estado na repressão aos trabalhadores.
“Um absurdo. A situação dos trabalhadores era desumana. São tratados como gado. Nunca vi isso. Oito mil peões se acotovelando pra receber o pagamento e ainda recebendo paulada da polícia.”, relata Atnágoras, que testemunhou a cena dantesca.

Como se não bastasse, empresa distribui panfletos chamando os operários de volta ao trabalho. Acusam uma “minoria sem compromisso com o trabalhador” de impedi-los a voltar. Ou seja, em Belo Monte, o único direito dos trabalhadores é o de voltar ao trabalho.

Já a nota do sindicato afirma que a entidade é “o legitimo e único” representante da categoria e que “nenhuma federação, central sindical ou outra entidade sindical tem competência para fazer reivindicações”.

Jirau e Santo Antônio
Já os operários das usinas hidrelétricas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), entraram em greve nos dias 8 e 20 de março, respectivamente. Eles reivindicavam reajuste salarial de 30%, diminuição da jornada de trabalho (de 44 para 40 horas), aumento da cesta básica e plano de saúde extensivo para toda a família, além de outros pontos.

Imediatamente, a construtora Camargo Correia, grande imprensa e a justiça iniciaram uma campanha para demonizar os trabalhadores de Jirau. Os operários tiveram que enfrentar a decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que decretou a ilegalidade do movimento. O governador do estado de Rondônia, Confúcio Moura (PMDB) pediu ajuda à Força Nacional de Segurança para intervir contra os trabalhadores grevistas Mesmo assim, os 15 mil peões decidiram manter a greve até o dia 2 de abril.
Nesta data, reunidos em assembleia, os operários de Jirau e Santo Antônio resolveram voltar ao trabalho. Segundo o sindicato da categoria, a assembleia votou a favor de uma proposta que prevê um reajuste de 7% para quem ganha até R$ 1,5 mil e de 5% para quem tem salário maior. Porém, nada ainda está resolvido e novas greves poderão paralisar os canteiros de obras.

*informações com Xingu Vivo

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