Oitenta anos sem Lenin

Henrique Canary, da Secretaria Nacional de Formação

Vladimir Ilich Ulianov nasceu em 22 de abril de 1870, em Simbirsk, Rússia. Lenin, nome pelo qual foi mais conhecido, foi o líder do partido bolchevique, organizador da Revolução de Outubro, na Rússia, e da Internacional Comunista.

Em 1887, ingressou na Universidade de Kazan e logo foi expulso por participar de uma mobilização estudantil. Em 1894, se estabeleceu em São Petersburgo.
Em 1900, Lenin editou, em Munique, o jornal Iskra (A Faísca). Seu objetivo era a organização de um partido revolucionário que iniciasse a luta contra o czarismo.
No livro O que fazer, escrito naquele período, ele desenvolveu a idéia de uma organização centralizada, de revolucionários profissionais, entregues de forma total à causa da revolução e unidos por uma férrea disciplina interna.

Em 1903, o II Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) terminou com a ruptura do partido em bolcheviques e mencheviques. A partir daí, Lenin iniciou seu caminho como dirigente do partido bolchevique, um modelo até hoje para partidos revolucionários de todo o mundo.

A derrota do exército russo na guerra com o Japão provocou a revolução de 1905. Os bolcheviques participaram ativamente dessa revolução, que apesar de derrotada, deixou grandes lições para 1917, como os soviets (conselhos) de operários, camponeses e soldados. Os soviets foram os organismos de luta das massas russas e se transformaram na base do novo Estado, que surgiu da Revolução de 1917.

O processo revolucionário

A 1ª Guerra Mundial foi definida por Lenin como imperialista, uma disputa de mercados. O manifesto de 1914, escrito por ele, constatava a passagem da maioria dos dirigentes social-democratas europeus à defesa da sua própria burguesia. Lenin conclamava os revolucionários a lutarem pela derrota dos “seus” governos e deflagrarem uma guerra civil.

Ao retornar a Rússia, em abril de 1917, depois da derrubada do Czar e da instauração de um governo provisório, formado pela coalizão entre a burguesia liberal e os partidos socialistas, Lenin encontrou Kamenev e Stalin que estavam à frente da direção do partido bolchevique, declarando um “apoio crítico” ao governo. “Apoiar as medidas progressivas do governo e opor-se às regressivas” era a fórmula defendida pela maioria da direção. Lênin começou então uma batalha que foi decisiva para a vitória da revolução: já no seu desembarque na Estação Finlândia, discursou definindo o caráter socialista da revolução e conclamou o proletariado a lutar contra o governo.

Para ganhar o partido para esta política ousada, iniciou um embate contra a maioria. Escreve suas Teses de Abril, onde explicou o caráter pró-imperialista, e, portanto reacionário, do governo provisório. Desenvolveu a idéia da necessidade da luta pelo poder dos soviets e formulou os principais eixos que determinaram as atividades do partido nos meses seguintes. Depois de duras discussões, Lenin ganhou a maioria dos dirigentes para sua política. O partido assumiu o curso rumo à tomada do poder.

A insurreição foi marcada para 25 de outubro. Neste dia, depois de passar três meses e meio na clandestinidade, Lênin chegou ao Soviet de Petrogrado, para dirigir a luta. Na madrugada do dia 27, ele discursou na plenária do Congresso dos Soviets com um projeto de decreto sobre a paz e um outro sobre a terra. A maioria bolchevique do Congresso, com a ajuda dos socialista-revolucionários de esquerda, decretou a transmissão do poder para os Soviets. É formado o Conselho de Comissários do Povo, com Lenin à sua frente.

Pela primeira vez na história, uma revolução socialista foi vitoriosa. O proletariado tomou o poder e constituiu um novo tipo de Estado, apoiado nos soviets.

A luta contra a burocratização

Mas as experiências mais difíceis estavam por vir. A contra-revolução avançou e a Rússia foi invadida por exércitos estrangeiros. Foi o inicio da guerra civil. Em 1918, o país estava cercado por contra-revolucionários das principais potências mundiais.

A Revolução Russa sempre foi pensada pelos bolcheviques como parte da uma revolução internacional, em particular com a perspectiva da extensão da revolução para os outros países da Europa. A derrota da Revolução Alemã, pela traição da social-democracia, deixou o jovem Estado Operário isolado.

A Guerra Civil foi vitoriosa contra os exércitos invasores, mas destruiu a economia do país e dizimou parte da classe operária, sobretudo os quadros que haviam participado da insurreição.

Vinda do campo para as grandes cidades, uma nova classe operária, ainda tomada pela desconfiança com a política, teve uma atuação passiva nos soviets, no partido e nos sindicatos. Os técnicos, funcionários e militares de carreira adquiriram cada vez mais peso social e acabaram tomando para si as funções dos soviets e, mais tarde, do próprio partido. O isolamento da Revolução Russa começou a cobrar seu preço. Sem apoio de revoluções em outros países, a burocratização começa a crescer na União Soviética.

Lenin, já doente e preocupado com as dimensões da burocratização, propôs reformas na administração do Estado e do aparato partidário. Sua luta esbarrou na resistência da cúpula partidária, expressão da burocratização do Estado. Stalin, o secretário geral, utilizou o cargo para troca de favores e consolidação da sua condição de dirigente da nova camarilha burocrática. As tensões entre Lenin e Stalin se tornavam cada vez maiores. Em seu testamento, Lenin propõe a saída de Stalin do cargo de secretário-geral e sua substituição por alguém “mais gentil e leal, menos vaidoso e truculento”. Formou, então, um bloco com Trotsky que se tornou praticamente seu porta-voz em questões políticas e econômicas. Mas era tarde demais. A fração burocrática do partido havia adquirido vida, força, independência e interesses próprios. O “testamento” de Lenin sequer foi publicado. Stalin permaneceu no cargo e nenhuma reforma foi realizada.

O esgotamento, provocado pela enorme tensão durante anos, minou a saúde de Lenin. A esclerose atingira as artérias do cérebro. No início de 1922, os médicos o proibiram de trabalhar diariamente. No início de outubro, sua saúde melhorou e ele retorna ao trabalho, mas a doença progridiu e Lenin faleceu em 21 de janeiro de 1924.

Lenin morreu quando a contra-revolução burocrática estava triunfando. Caso não morresse, terminaria preso. A Revolução foi usurpada por uma burocracia que se apresentaria como a “continuadora de Lenin”. O imperialismo e seus defensores se apressaram em igualar a burocracia ao “socialismo”.

No próximo mês:
Lenin e o Estado

Post author Henrique Canary, do Rio de Janeiro
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