“OI (tenta)?!”: Moradora da comunidade de Evaldo transforma dor em versos

Família de Evaldo, assassinado pelo Exército no Rio

Leia o poema escrito por uma moradora da mesma comunidade em que o músico Evaldo e o catador de material reciclável Luciano foram barbaramente assassinados pelo Exército, a comunidade do Muquiço. Stephanie Assumpção e Júlia, sua filha de 10 anos, transformam em versos a dor e as dificuldades da população negra e pobre das comunidades do Rio. Durante o ato contra a ação criminosa do Exército na comunidade, a pequena Júlia declamou os versos da mãe.

 

“OI (tenta)?!”

Oi, Oi tenta, tenta estar no meu lugar e escutar o meu dilema

Oi tenta, tenta andar no meu rolê sem encontrar nenhum problema

Oi tenta, tenta ouvir o som de TA TUM que me acorda

Oi tenta, tenta um dia ser preto e não ter medo do racismo que te aborda

Oi tenta, tenta ser criança sem ouvir essas histórias

Oi tenta, tenta não perder a inocência vivendo essa trajetória

Oi tenta, tenta ter um pai, amar e ter ele como exemplo

Oi tenta, tenta abrir os olhos e ver a dor que eu contemplo

Oitenta foram os disparos que eu ouvi e me assustei

Minha mãe disfarçava enquanto eu pensava

De onde vem dessa vez?

 

Será que é da favela?

Lá dentro do muquiço?

É da polícia ou do bandido?

Tenho medo eu admito!

 

Oitenta de repente a notícia

Mais um preto pra estatística

Oitenta tiros disparados acertaram um pai de família

 

QUE DOR… podia ser o meu que ali partia!

 

Eu sei que onde eu moro é perigoso

E que algum dia pode acontecer de novo

Por isso toda criança preta tem que ser consciente

Oitenta em um pai que eu não conhecia

Amanhã pode ser o pai da gente!

 

Stephanie Assumpção e Julia Assumpção