O traseiro de Lula e as mobilizações no país

Dois fatos mostram de corpo inteiro a postura do governo Lula. O primeiro foi sua declaração culpando o povo brasileiro pelos juros altos da economia, por não “levantar o traseiro do banco para buscar um banco mais barato”. Com isso, exime seu governo e os banqueiros da responsabilidade pela manutenção das mais altas taxas de juros do mundo.

Essa frase causou uma enorme irritação entre os trabalhadores e estudantes do país. Em uma mobilização no Rio, os manifestantes cantaram: “Ô Lula, sou brasileiro, contra a reforma vou chutar o seu traseiro”.

O segundo fato foi a visita de Condoleezza Rice, secretária de Estado dos EUA. A norte-americana assegurou que seu chefe, o presidente Bush, anda contente e “vê com bons olhos o fortalecimento do papel do Brasil, demonstrado de muitas maneiras, inclusive o excelente trabalho de líder da missão da ONU no Haiti”. Também elogiou o papel de mediador de conflitos que o governo Lula desenvolve para solucionar a “instabilidade” reinante nos países da América Latina. Pouco antes de Rice desembarcar, José Dirceu fez uma viagem relâmpago para tentar convencer o presidente Chávez a rever sua posição de expulsar quatro militares norte-americanos do país. O objetivo era voltar à Brasília para tentar trazer a “boa nova” para Condoleezza, agindo com a mesma dedicação inescrupulosa de um funcionário tentando impressionar seu chefe.

O governo Bush tem razão ao elogiar Lula. O governo do PT tem cumprido um papel de primeira ordem para o imperialismo na América Latina, por seu exemplo na aplicação de um plano neoliberal, e pelo papel que está cumprindo na mediação de crises políticas como a equatoriana, com o asilo a Lucio Gutiérrez. Ou ainda na tentativa de “lulalizar” o governo Chávez.

Esses fatos mostram que o governo petista serve aos banqueiros e ao imperialismo que na verdade, mandam neste país. Para quem tem dúvidas sobre isso, basta observar o superávit recorde conseguido no primeiro trimestre deste ano, de 6,16% do PIB, acima do que foi acertado no acordo anterior com o FMI (4,5%). Esse dinheiro é retirado da educação e da saúde, do reajuste do salário mínimo, para garantir o pagamento das dívidas aos banqueiros nacionais e internacionais.

Já existe uma crise política importante, que Lula não consegue solucionar. Os escândalos de corrupção de Jucá e Meirelles não saem da cena política, por mais esforços de abafamento que façam, evidenciando as divisões existentes no interior da burguesia. Além disso, o governo segue sem o controle do Congresso, pela polarização eleitoral com a oposição burguesa, e a derrota para Severino Cavalcanti.

O governo aposta, por um lado, nas ilusões de melhoras sociais despertadas nos trabalhadores com o crescimento econômico. Uma pesquisa do IBGE mostra como essas ilusões vão se chocar com a realidade. Durante o governo Lula, o percentual dos trabalhadores que ganham até um salário mínimo saltou de 14,4%, em março de 2003, para 16,2%, em 2004, e 16,7% em março de 2005. Além disso, os ventos de desaceleração econômica já começam a chegar na economia internacional e na brasileira.

Por outro lado, Lula apóia-se nas direções da CUT, UNE e do PT para conter o movimento de massas. Os atos “oficiais” de Primeiro de Maio, de louvação à reforma Sindical e em defesa da reeleição de Lula, comprovam a importância desses aliados para o governo. Assim, esperam empurrar com a barriga a crise, e encaminhar tudo para as eleições de 2006. É importante observar que, até agora, eles têm tido sucesso em evitar um grande ascenso.

Com a crise política atual, um ascenso grevista, como o que ocorreu com a greve do funcionalismo federal em 2003 contra a reforma da Previdência, poderia causar um estrago enorme ao governo, detonando de vez, por exemplo, o projeto de reforma Sindical em discussão no Congresso.

Por isso é importante que todos os setores de esquerda comprometidos com as lutas dos trabalhadores apóiem as mobilizações em curso, e busquem politizá-las para que assumam a luta contra as reformas neoliberais. Greves heróicas e radicalizadas como a ocorrida na construção civil de Fortaleza e a que está em curso entre os professores de Niterói devem ser apoiadas integralmente.

Nesse sentido, a campanha salarial do funcionalismo federal, que tem um dia nacional de paralisações a 18 de maio, tem uma enorme importância política. O funcionalismo federal enfrenta-se não só contra o governo, mas também com direções sindicais governistas como a da Fasubra, que vai querer a todo custo evitar uma nova greve nacional do setor. O funcionalismo pode ter, mais uma vez, um papel-chave no enfrentamento político contra o governo se, junto com sua luta pela reposição salarial, levantar bem alto a bandeira da luta contra a reforma Sindical e Trabalhista do governo…
E de quebra, dar um merecido chute no traseiro de Lula.

Post author Editorial do jornal Opinião Socialista 216
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