O terremoto e os abutres

Publicamos, abaixo, um artigo do histórico dirigente revolucionário Hugo Blanco, extraído de www.rebelión.org e traduzido pelo Portal do PSTU, sobre o terremoto que deixou milhares de mortos no Peru na semana passada. Blanco começou a militar ao lado de Nahuel Moreno ainda na década de 1950, tendo sido um dos principais dirigentes da IV Internacional. Nos anos 1960, chegou a ser preso e condenado à morte, mas uma forte campanha internacional reduziu sua pena para 25 anos de detenção.

No terremoto de 1950, em Cusco, colaborei como voluntário no sistema de ajuda. Minha tarefa era inscrever os desabrigados e suas necessidades. No princípio, éramos recebidos com carinho; quanto mais avançávamos no trabalho, ia crescendo a hostilidade, as pessoas explodiam: “nos inscreveram dez vezes e não nos chega nada!”.

Isso estava certo, a ajuda nacional e internacional foi devorada pelos abutres da burocracia oficial.

No terremoto de Ancash, em 1977, estando preso, me inteirei que aconteceu o mesmo.

Agora, ao que parece, é igual. Os abutres da burocracia oficial estão engordando com a dor das vítimas, felizes pelas grandes quantidades de ajuda nacional e internacional que chega.

O saldo do último terremoto, além dos 500 mortos e mais de 1.500 mil feridos: 45 mil lares atingidos, 250 mil desabrigados.

Em primeiro lugar, assinalemos que não é certo que os desastres naturais afetem igualmente a ricos e pobres.

Os ricos não vivem em casas precárias de adobe, que foram as que caíram. Os ricos têm dinheiro suficiente para sair da região do desastre eles têm aonde ir.

É a população pobre da zona atingida, mais a dos vilarejos isolados a que sofre, sem lar, sem água, sem corrente elétrica, com mosrtos para enterrar, com feridos sem atendimento, sem dinheiro para comprar alimentos que duplicaram seu preço.

É certo que receberam a promessa do presidente da república de que “ninguém morrerá e fome!”, mas, como sabemos, em todos os aspectos, continua Alan García com suas promessas de campanha eleitoral que no se cumprem. A mais de três dias do terremoto, apesar das grandes quantidades de ajuda chegada do país e do exterior, a maior parte das pessoas seguem sem receber nada.

As vítimas desesperadas pelo pranto de fome e de sede das crianças, começaram a saquear armazéns que quadruplicaram o preço dos produtos, de veículos que transitam transbordando de comida ante seus olhos famintos.

Vemos numa imagem publicada na capa do diário “El Comercio”, de Lima, um pai com cinco peixes sacados do caminhão frigorífico de uma grande empresa. O diário qualifica de “injustificável” o esforço por alimentar seus filhos.

Os membros da polícia encarregados de “garantir a ordem” em muitas oportunidades não intervieram. Em outras, realmente “garantiram a ordem”, organizaram a repartição que eles mesmos executaram. Felicitamo-lhes calorosamente. Sabemos, igual a eles, que receberão um castigo de seus superiores. Admiramos o florescimento da solidariedade humana em seus corações.

Em vez de agilizar a entrega de ajuda, a medida que tomou o governo foi enviar forças repressivas para evitar o ataque aos caminhões das empresas que transportam alimentos.

Recomendamos aos que receberão as doações para que fiscalizem diretamente o destino das mesmas. Quem puder usar a via de alguma ONG, que o faça, pois em geral, são rotas garantidas. O que é seguro é que a via governamental está cheia de abutres que devoram a maior parte da ajuda.

Por fim, mencionemos que os serviços da empresa telefônica, cujo criado é o governo de Alan García, que colapsou de forma criminosa logo depois do terremoto, naturalmente, está impune.

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