O teatro vai à greve


O uso do teatro ou de encenações alegóricas nas marchas e greves dos trabalhadores é muito freqüente. E também muito produtivo. Em seu livro Panorama do Rio Vermelho, a professora Iná Camargo Costa conta um caso interessante, que mostra como o teatroNa cidade de Paterson, nos Estados Unidos, ocorreu, em 7 de junho de 1913, uma greve dos operários da indústria têxtil, dirigidos pela central sindical IWW (Industrial Workers of the World), que já se arrastava havia algum tempo, chegando a um impasse nas negociações. A imprensa, inclusive a de esquerda, fez um verdadeiro pacto de silêncio em torno da greve. Numa reunião em Nova York, surgiu a idéia de furar o cerco da imprensa e montar um pageant (cortejo, desfile alegórico), o que também serviria para juntar dinheiro para o fundo de greve. A proposta foi aprovada em assembléia pelos grevistas.

O jornalista norte-americano John Reed ficou encarregado de dirigir o espetáculo, que seria encenado no Madison Square Garden, em Nova York. A definição do roteiro e do elenco (mais de mil pessoas) foi feita pelos próprios grevistas, que escolheram os episódios a serem reconstituídos e formaram o elenco dos “atores”. Robert Jones ficou encarregado do cenário e Mabel Dodge reuniu um grupo de cem pessoas, que cuidou dos preparativos, como o aluguel do Garden, cenários e adereços, bem como da divulgação e venda de ingressos. Na semana que antecedeu o dia 7 de junho de 1913, o letreiro luminoso IWW foi instalado nos quatro lados da torre do Garden e, à noite, podia ser visto de qualquer ponto da cidade.

Marcado para as nove da noite, o início se atrasou por meia hora, por causa das filas, que chegaram a mais de vinte quarteirões. O “elenco” atravessou o rio Hudson e, após o desembarque, seguiu em passeata pela Quinta Avenida até o local do pageant.

Fábricas vivas e mortas

A diretriz de John Reed para o cenário era “Fábricas vivas, trabalhadores mortos. Fábricas mortas, trabalhadores vivos!”. Robert Jones trabalhou com uma imensa cortina de seda, telões e blocos de madeira para armar o cenário e um palco onde deveriam estar mais de mil pessoas em diferentes composições. Sobre o fundo de seda vermelha, o telão apresentava a figura de um trabalhador sobreposta a fábricas e chaminés. Os blocos imensos tinham um dispositivo interno de iluminação e sonoplastia, porque representavam as fábricas vivas ou mortas conforme a atuação dos trabalhadores.

O primeiro episódio, dividido em duas cenas, apresentou o contraste, fábrica viva/ fábrica morta. Com as fábricas vivas em funcionamento, luzes saíam por centenas de aberturas e, ao toque da sirene, começava o ruído ensurdecedor no ritmo dos “teares”. Os operários, cansados, arrastavam-se pelas laterais da platéia em direção a seus locais de trabalho, sozinhos, em duplas ou grupos, alguns cantarolando canções, e todos levando o almoço em bolsas ou marmitas. Depois de um tempo, ouvia-se o grito de guerra “greve! greve!”. Os trabalhadores saíam das “fábricas” na maior confusão, eufóricos, e começavam a cantar A Internacional. (A platéia associou-se a todos os cantos a partir desse momento.)

A cena dois apresentava as fábricas mortas: silêncio e luzes apagadas. É o dia seguinte, dia do piquete. Em formação compacta, os trabalhadores cantavam as canções de greve. Policiais infiltrados, sem aviso prévio, começavam a bater com seus cassetetes (os trabalhadores que fizeram os papéis de policiais pediam desculpas por isso à platéia). Ouviam-se tiros, um trabalhador caiu morto, outro saiu mancando. O mártir (o operário Modestino, que havia sido morto pela polícia durante a greve) foi carregado até sua casa pelos companheiros.

Segundo ato: homenagem ao mártir

O segundo episódio reconstituiu o funeral do trabalhador assassinado. Pelo corredor central do auditório, foi carregado o caixão em cortejo, e de todos os corredores da platéia seguiam operários em direção ao centro do palco, onde o caixão foi depositado. O tempo todo se cantava a Marcha Fúnebre russa. Dois a dois, os trabalhadores colocaram cravos vermelhos sobre o caixão, formando “uma montanha de sangue”. Os dirigentes mais ativos da greve faziam discursos, dirigindo-se ao auditório, conclamando à continuidade da luta até a vitória.

Solidariedade de classe

O episódio seguinte relatou o envio das crianças a outras cidades. Numa greve anterior, em Lawrence, foi criado um movimento de solidariedade de amplo alcance. Os simpatizantes do movimento, em todo o país, foram convidados a hospedar os filhos dos grevistas, que estavam passando fome e frio em suas casas, enquanto durasse a greve. A solidariedade foi organizada a partir de Nova York (mulheres socialistas, principalmente) e o embarque das centenas de crianças (maltrapilhas, esquálidas) acabou provocando uma comoção nacional, com cobertura de toda a imprensa. Esse episódio foi reconstituído e o espetáculo chegou ao clímax. Para as crianças, tanto no palco como na platéia, foi uma cena emocionante de devoção familiar, que mostrava as razões humanas da greve. Algumas delas haviam até mesmo feito greve na escola em protesto contra os professores que acusaram seus pais de “anarquistas e estrangeiros imprestáveis”. Elas partiram cantando Bandeira Vermelha e foram se encontrar com os simpatizantes da causa, que seriam seus “pais-adotivos-da-greve” até que a luta terminasse.

O grande final: o chamado à luta

No episódio final, foi reconstituída a maior assembléia de Paterson. Agora, os grevistas vieram novamente pelos corredores, mas, em vez de ocupar o palco, sentaram-se no chão, em volta dele e de costas para a platéia, transformando-a assim em parte da assembléia. Outro dirigente fez um discurso, chamando a solidariedade à greve. A resposta, que encerrou o pageant, foi todos em pé, cantando A Internacional. No dia seguinte, algumas manchetes da imprensa: “Greve da IWW reúne 15 mil”. “O maior elenco jamais visto em Nova York encena seu próprio espetáculo: a greve da seda”.

CONHEÇA O LIVRO

Quem gosta de teatro, deve ler Panorama do Rio Vermelho, de Iná Camargo Costa, que traz ensaios sobre o teatro americano moderno.
Editorial Nankin, 2001
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