O rosto do capital por trás de “Duas Caras”

Um grupo de estudantes de uma universidade privada faz um protesto pedindo democracia na instituição. De repente, eles entram na reitoria, pichando as paredes e jogando para cima tudo o que encontram – documentos, cadeiras e objetos. Estamos falando de algum episódio real? Não, aparentemente, não.

A cena acima aconteceu em uma telenovela da rede Globo, um dos produtos culturais mais lucrativos e influentes dos meios de comunicação de massa neste país. A novela em questão é “Duas caras”, no ar desde outubro, mas poderia ser qualquer outra no que diz respeito ao nada casual “diálogo” que ela mantém com a realidade. Isso porque há anos as novelas servem para divulgar e fazer propaganda da visão de mundo, dos valores e das políticas da classe dominante – a verdadeira dona do poder que se esconde por trás das câmeras e dos enredos que invadem os lares de milhões de brasileiros.

Um papel desempenhado não só pelas mirabolantes narrativas em que diferenças de classe, as mais distintas formas de opressão e os conflitos sociais são estereotipados e desqualificados (quando não totalmente anulados por “soluções” que quase sempre passam pelo nível pessoal, como o “final feliz”, ou pela venda da idéia de que “a justiça tarda mas não falha”). Mas também pela ultra-eficiente linguagem desenvolvida pela industrial cultural brasileira que, como poucas no mundo, sabe utilizar-se das novelas para tentar manipular a consciência do telespectador.

Enovelando a realidade
Na vida real, a cena descrita no início do texto foi “casualmente” exibida no momento em que pipocavam manifestações e ocupações de reitorias em várias universidades.

País afora, estudantes incomodavam o governo e os tubarões do ensino, exigindo nada mais do que qualidade, educação pública e gratuita. Mas, na novela, um bando de “alucinados”, beirando o vandalismo, apresentava uma “nova versão” para aquela luta: a falta de responsabilidade dos “dirigentes” estudantis e o caráter quase “delirante” de seu movimento que, diga-se de passagem, incluía faixas tão absurdas e despropositadas como uma em que se lia “Fora Bush!”.

Em uma ótima análise chamada “Duas caras para um só discurso”, publicada no “Observatório de Imprensa”, o jornalista e professor da PUC-SP, Gabriel Priolli, destaca que a novela serve para o “fortalecimento do ‘pensamento único’, ou do pensamento conservador que a máquina coordenada da mídia quer fazer passar por verdade universal”. O pensamento único, como todos sabem, é uma das marcas do discurso neoliberal e, como lembra Priolli, seus defensores são aqueles que defendem seus interesses, “em absoluta sintonia com a perspectiva patronal”.

Naturalizando o mundo do capital
Ao contrário do padrão latino-americano (das novelas mexicanas), com seus exageros melodramáticos e estilísticos (falas e interpretação teatrais, exageros e histórias totalmente desconectadas da realidade), há décadas a TV brasileira, e particularmente a Globo, aprendeu que a melhor forma de atingir o público é através do “naturalismo”.

Mesmo que não tenha nada a ver com “realismo”, um produto naturalista é próximo da “vida como ela é”. Nas novelas globais, as personagens falam como a gente, vivem situações próximas àquelas que estamos acostumados e, mesmo quando vivem em uma época distante, pautam-se por valores e padrões de comportamento da atualidade.
Durante toda a história da Globo, que é campeã de audiência exatamente por saber se adaptar a novas realidades e adequar seus produtos a elas, não faltam exemplos disto, muitos menos de seus objetivos. Assim, em 1988, quando foram celebrados os 100 anos do fim oficial da escravidão e o país vivia um clima de luta pela liberdade, foi ao ar a novela “Abolição”, que acabava com uma festa de confraternização entre escravos e senhores. No mesmo momento em que a juventude rebelava-se contra Fernando Collor, que já não interessava mais aos interesses burgueses, vimos os absurdos de “O dono do mundo” (1991/92) e a minissérie “Anos rebeldes”.

Na medida em que o mundo foi naufragando no neoliberalismo, o discurso das novelas foi se aprofundando num pantanal formado pela valorização do individualismo, pela supremacia do mercado, pelo incentivo ao consumo e pela padronização de comportamentos.

Mesmo quando tenham que eventualmente incluir casais homossexuais, negros ou outros setores marginalizados, esse discurso na prática não muda, já que os “marginalizados” das novelas são tão ou mais padronizados do que aqueles que vivem no centro do poder.

A Verdadeira face da novela
Dirigido por Agnaldo Silva, que teve passagem pela militância GLBT e contra a ditadura nos anos 70, o atual folhetim da Globo passou dos limites e seria simplista classificá-lo de “bom” ou “ruim”. “Duas Caras” foi encomendada especialmente para atacar os movimentos sociais. Para além de todo o resto de preconceitos e padrões sociais impostos, a novela tem como marca o ataque a todo e qualquer tipo de organização, particularmente a estudantil.

Atualmente um dos conflitos mais gritantes é o caso de racismo em que o estudante negro Rudolf Stenzel (Diogo Almeida) é estereotipado como um militante mau-caráter, desonesto e oportunista. O reitor Francisco Macieira (José Wilker) é a vítima do oportunismo de Rudolf, que o acusa de racismo.

Nos últimos dias, o vilão Rudolf formou uma chapa para concorrer ao diretório acadêmico. O nome: Alternativa Socialista. Aos gritos de “fora Bush” e “abaixo o imperialismo”, o estudante faz um discurso ridículo, descolado da realidade dos estudantes. Pelo menos é isso o que a Globo pretende transmitir com essa caricatura.

No centro da história há ainda a favela da Portelinha, um paraíso sem crime, sem violência e sem tráfico. O ditador-dirigente Juvenal Antena (Antônio Fagundes) é o líder do povo na favela. Ele tem práticas antidemocráticas, nunca realizou uma reunião de bairro sequer para ouvir os moradores, mas é o mocinho adorado por todos, inclusive pelo núcleo rico. Já está mais do que cantada a bola de que, no final, um líder mais “moderno”, vivido pelo negro Lázaro Ramos, irá dar um novo rumo para a favela, consolidando algum tipo de aliança de classe, que está sendo ensaiado através de seu romance com a jovem burguesa vivida por Débora Falabella.
Totalmente dominada pelos interesses do mercado publicitário, “Duas Caras”, como todas as outras novelas, é mais um lamentável exemplo de como, na luta pela sua manutenção no poder, a burguesia não mede esforços para impor seu modo de vida e seus valores à sociedade.
Post author Luciana Cândido e Wilson H. da Silva, da redação
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