O que há por trás da suspensão da concessão da RCTV na Venezuela

Desde o final do ano passado, o presidente Hugo Chávez vinha anunciando que não renovaria a concessão de sinal para o canal de televisão RCTV. O motivo, segundo Chávez, é que o proprietário da emissora, Marcel Granier, havia apoiado as distintas tentativas de golpe de Estado. Era, portanto, um canal “esquálido”, denominação que se dá aos golpistas no país.

Aparentemente, se trata de algo progressivo. Imaginem se Lula resolvesse retirar a concessão do malufista Silvio Santos. Seria uma medida importante que deveria ser aplaudida. Mas caberia uma questão: por que não acabar também com o sinal da Rede Globo?

Esta é uma pergunta que deve ser feita na Venezuela, pois, nas distintas tentativas de golpe, participaram, além da RCTV, outros canais, entre eles o Venevision, do Grupo Cisneros, o principal empresário do país. Seus negócios estão diretamente vinculados ao imperialismo norte-americano e seus escritórios não estão em Caracas, pois, há muitos anos, ele os mudou para Miami.

Os quatro canais privados do país participaram do golpe, mas somente Cisneros participou da grande negociação entre Chávez e os golpistas. Esta é a razão pela qual Chávez retirou o sinal de RCTV e não o da Venevision. No acordo, Cisneros passou a apoiar o presidente e, em troca, ficou sem concorrência e abocanhou os espaços publicitários da outra emissora. Este favorzinho garantiu ao empresário um mercado avaliado em US$ 163 milhões.

No golpe de abril de 2002, toda a trama foi transmitida ao vivo e a cores por esses dois canais que mentiam para a população e transmitiam os franco-atiradores matando impunemente os trabalhadores que repudiavam o golpe.

A União Nacional dos Trabalhadores, através de sua principal corrente interna, a CCURA (Corrente Classista Unitária Revolucionária), defende a suspensão de todas as concessões dos canais golpistas, sem que o Estado pague nenhuma indenização. Além disso, exige do governo Chávez que o futuro canal estatal seja controlado pelos trabalhadores.

Em relação aos golpistas, a CCURA defende que não se faça nenhuma concessão. Afinal, muitos trabalhadores deram a vida para derrotar os golpistas e agora, além de anistiados, eles são premiados, como no caso de Cisneros.
Post author César Neto, de Caracas (Venezuela)
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