O que há de comum entre Lula e Obama?

Entre eles, existem grandes diferenças. A começar pelo fato de que um é presidente da maior potência imperialista e outro de um país dominado, o Brasil. Um é representante de um partido de direita tradicional dos Estados Unidos. O outro, de um partido operário reformista no Brasil.

Mas existem também semelhanças. Muitos diriam que os dois representam a esperança para melhorar o mundo. Nós dizemos, porém, que ambos simbolizam grandes ilusões e levarão a enormes frustrações.

O efeito Obama
A crise econômica internacional vai produzir grandes mudanças na situação política internacional. Uma crise que já é a mais grave desde 1929 não poderia deixar de ter conseqüências políticas importantes. Podemos dizer que a eleição de Obama é a primeira delas.

Seria impossível a vitória de um negro à presidência dos Estados Unidos caso essa crise não tivesse iniciado. Já existia uma crise política nos EUA, em particular pelos fracassos do governo Bush no Iraque. O surgimento da crise econômica ampliou a crise política: um enorme sentimento de mudança foi canalizado pela candidatura do democrata.

Mas não é só isso que explica a vitória de Obama. A verdade é que a grande burguesia norte-americana o apoiou majoritariamente, como uma manobra preventiva cujo objetivo é evitar uma crise política maior. Essa é a única explicação para o grande financiamento de sua campanha, assim como para sua indicação pelo Partido Democrata.

Respeitamos o sentimento e as ilusões dos trabalhadores de todo o mundo em Obama, em particular dos negros e negras. É natural que acreditem nele. A maioria não analisa a sociedade a partir dos interesses das classes sociais, mas das pessoas.

Mas não se pode entender a evolução de uma sociedade a não ser pelo conflito entre as classes. É por isso que o marxismo pode analisar e prever as tendências gerais da evolução da realidade.

É a burguesia norte-americana, a mais poderosa do planeta, que segue no poder nos EUA. Obama é hoje o maior representante das empresas multinacionais que financiam os democratas, e não dos trabalhadores negros. E essa diferença de classe é a que vai prevalecer e não a da cor.

As pessoas acreditam em Obama porque também não desejam o agravamento da crise. No entanto, a crise, inevitavelmente, vai se aprofundar. Estamos vendo apenas o seu início.

Queremos afirmar, contra toda essa maré, que a situação dos trabalhadores, ao contrário do que eles pensam, vai piorar com Obama. E a dos trabalhadores negros vai piorar ainda mais.

A crise econômica é sempre descarregada pelas grandes empresas nas costas dos trabalhadores, com reduções salariais e demissões. Os setores oprimidos, como as mulheres e os negros, serão os primeiros a serem afetados.

O efeito Lula sobre a crise
Esse tipo de engano acontece também no Brasil, embora com características diferentes. A maioria dos trabalhadores acredita em Lula. Eles dizem que é correto que Lula dê dinheiro para os bancos, as montadoras de automóveis e empresas da construção civil. Afinal, seria para evitar a crise.

Mas nenhuma destas medidas vai evitar a recessão. Na verdade, esse dinheiro não é para isto, mas para salvar essas grandes empresas. Este é mais um exemplo de como as classes dominantes fazem aparecer os seus próprios interesses como os da sociedade.

A maioria já esqueceu que, em 1996, Lula repudiou violentamente o Proer (programa de FHC de ajuda aos bancos). Na época, o programa custou US$24 bilhões. Lula já deu para as grandes empresas R$179 bilhões, mais de três vezes o que foi gasto com o Proer.

O interesse dos trabalhadores não está sendo contemplado. O governo federal poderia decretar a estabilidade no emprego para os trabalhadores e punir as empresas que demitam. Ou, ainda, poderia usar os R$179 bilhões que entregou às empresas para dar um salário extra de R$345 para todos os trabalhadores que ganham até dois salários mínimos.

Com este dinheiro, o governo poderia financiar um plano de obras públicas para acabar com o desemprego no Brasil. Assim, o país realizaria um grande mutirão para a construção de seis milhões de casas populares (o déficit habitacional brasileiro) a um custo de R$20 mil cada, totalizando um gasto de R$120 bilhões. E ainda sobrariam R$48 bilhões para dobrar o orçamento da saúde.

Post author Editorial do Opinião Socialista Nº 360
Publication Date