O que está por trás da guerra no Cáucaso?

Tropas russas
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Os conflitos entre Geórgia e Rússia começaram no último dia 7 de agosto. O governo da Geórgia, fantoche dos EUA, enviou tropas para retomar o controle sobre a Ossétia do Sul, uma região que declarou independência no começo dos anos 1990. A ofensiva georgiana foi violentíssima e deixou um rastro de sangue com mais de dois mil mortos, segundo informações da imprensa.

Ocorre que a maioria dos moradores da Ossétia do Sul é de origem russa. A Rússia, sob o argumento de defendê-los, reagiu à ofensiva e contra-atacou com suas tropas. Uma vez que as tropas georgianas foram expulsas da Ossétia, o governo russo enviou soldados e lançou bombas contra outras cidades da Geórgia, provocando a morte de milhares de pessoas.

A região do Cáucaso onde está a Geórgia é estratégica por sua localização, porque está próxima às ricas reservas de petróleo do Azerbaijão e do Mar Cáspio. A região é atravessada por oleodutos e gasodutos vitais para a Europa. Também está próxima do Irã e do Iraque.

Agente do imperialismo
A guerra iniciada com o ataque à Ossétia pode parecer um suicídio político do governo georgiano do presidente Saakashvili. Ou, no mínimo, sugerir um grande erro de cálculo. Contudo, a guerra foi preparada com tempo e mostra a situação desesperada do governo.

Saakashvili é um agente do imperialismo na região. Chegou ao poder com o forte apoio dos EUA na chamada Revolução das Rosas, que derrubou o anterior presidente Shervanadze. Essa revolução foi uma vitória das massas contra um regime bonapartista, porém logo desviada pelos dirigentes.

Prometendo mudar tudo, Saakashvili dizia que o problema da Geórgia era a dominação russa e que, com apoio dos EUA, chegaria à prosperidade. A realidade, obviamente, foi bem diferente. Exemplos da submissão de Saakashvili ao imperialismo não faltam. Saakashvili declara abertamente seu desejo de integrar a Geórgia na Otan.

Há anos, instrutores da Otan trabalham dentro do exército georgiano. Atualmente, a Geórgia tem o terceiro maior contingente militar no Iraque, depois dos EUA e da Inglaterra, com cerca de 2.500 soldados. Toda a ajuda do Ocidente foi para treinar e equipar o exército da Geórgia.

Tudo isso gerou uma decepção muito grande no povo georgiano. Somam-se a isso os escândalos de corrupção envolvendo o próprio presidente e o início da crise econômica mundial com o aumento da inflação, principalmente dos preços dos alimentos. Saakashvili tinha pouco a mostrar ao povo, precisava de algo mais para continuar no poder e seguir seu plano de ingressar na Otan.

Por outro lado, é impossível imaginar que Saakashvili decidiu atacar a Ossétia sem algum sinal por parte dos EUA. Ao mesmo tempo, frente à resposta militar russa, a reação dos governos ocidentais foi muito moderada, só um apoio moral à Geórgia e, depois, algumas “duras declarações” de repúdio à invasão russa.

A ação da Rússia
A retaliação militar russa às tropas invasoras georgianas barrou suas ações na Ossétia. As informações da imprensa falam em milícias ossétias lutando em unidade com os russos. Muitos ossétios, inclusive, saudaram as tropas russas. Na Ossétia do Sul, começaram a surgir milícias e destacamentos de resistência. Na Ossétia do Norte, que fica na Rússia, muitos voluntários se incorporaram à resistência contra a agressão georgiana. Mas as autoridades russas bloquearam todas essas iniciativas para não perder o controle da situação.

Num primeiro momento, as autoridades russas diziam que sua ação militar era uma “defesa do povo ossétio”. Mas logo ficou claro que a ação da Rússia não teve nada a ver com a defesa de uma nacionalidade oprimida pelo governo georgiano. Essa ação não foi por um suposto compromisso de Putin com os direitos das nacionalidades, mas por seu interesse em resguardar sua área de influência na região, que o imperialismo quer colocar sob seu controle direto.

É sempre bom lembrar que o governo Putin chegou ao poder como o “senhor da guerra” contra o povo checheno. Logo após expulsar os soldados georgianos, o exército russo lançou seus tanques e soldados contra outras cidades georgianas. Os bombardeios das cidades georgianas de Poti e Gori (fora de Ossétia) são, por acaso, alguma defesa do povo ossétio? É evidente que não. A Rússia não tem o direito de agredir o povo da Geórgia de forma “punitiva”, como disse Putin.

O imperialismo mundial tenta, há anos, submeter a Geórgia ao seu controle mais direto e criar bases para operações militares na região do Oriente Médio. Essa situação cria as contradições entre o imperialismo mundial e a burguesia russa. Como tem alguma força militar para negociar, a Rússia deseja sua porção no saque imperialista da região. Como disse um ministro de relações exteriores russo: frente ao projeto para Geórgia, os EUA teriam de “aceitar um sócio real” no Cáucaso.

Apesar de todas as declarações supostamente “patrióticas” de Putin e do presidente russo Medvedev, o governo da Rússia nunca enfrentou a fundo os imperialismos norte-americano e europeu. Hoje, sob uma cobertura de discursos nacionalistas, o reacionário governo de Putin-Medvedev entrega a Rússia ao capital estrangeiro que está dominando muito rapidamente a economia russa.

Acordos com o imperialismo
Nos últimos dias, foram firmados os acordos entre o presidente da França, Nicolas Sarkozy (intermediário nas negociações), Medvedev e Saakashvili. Neles ficou claro que o objetivo principal do imperialismo, ao iniciar esta guerra, foi conseguir um pretexto para instalar na Geórgia suas tropas militares (através de tropas de “paz” da ONU ou da Otan junto com a Rússia).

Bush já prometeu “ajudar” a Geórgia a recuperar suas forças armadas. Tudo isso mostra a clara intenção do imperialismo em se fortalecer na região. Ele quer impor a entrada da Geórgia na Otan e que ela seja um satélite militar norte-americano. Para barrar os planos do imperialismo, é necessária a retirada imediata e incondicional dos soldados georgianos da Ossétia.

Diante desta situação, há apenas uma luta que coincide com os interesses dos trabalhadores: a resistência do povo ossétio contra a agressão georgiana e sua luta pelo direito à autodeterminação. Qualquer tentativa de expansão militar do imperialismo (via Otan ou tropas da ONU) deve ser repudiada. O imperialismo deve tirar suas mãos do Cáucaso.

As experiências do Iraque, Palestina e Afeganistão demonstram que só o povo armado pode resistir e impor derrotas aos planos do imperialismo. Por isso, o povo da Ossétia tem o direito de se armar para organizar sua autodefesa e garantir sua autodeterminação.

Post author Bruno Sanches, de São Paulo (SP)
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