O que é religião?

Mateus é operário metalúrgico em Criciúma, Santa Catarina. Já há algum tempo ele opera com facilidade um torno CNC (Comandos Numéricos Computadorizados) de última geração, mas não tem ainda o diploma. Está estudando. Quando conversamos, ele fala da composição química dos metais, de suas características físicas, de como cada um deles se comporta frente à poderosa máquina que os desgasta sem piedade, transformando-os em objetos úteis. Mateus é adventista e, portanto, não acredita na teoria da evolução das espécies ou que a Terra tenha 4,5 bilhões de anos. Mateus também é militante do PSTU, um dos mais sérios e dedicados.

Certa vez outro operário, luterano praticante, perguntou a Mateus por que uma pessoa religiosa como ele militava em um partido que prega a revolução socialista, e que além do mais está cheio de ateus. Mateus demorou a responder, provavelmente pensando em todos os pontos do programa do PSTU que vão contra suas convicções religiosas. O militante queria convencer o colega, mas não desejava mentir nem esconder suas angústias. Sua resposta foi a mais simples e a mais profunda que se poderia dar: “porque eu não posso estar ao lado do opressor”.

Haverá contradição entre operar uma máquina moderna e renegar a teoria de Darwin? Entre praticar uma religião e odiar o patrão como um inimigo mortal? Pode ser. Mas quem irá julgar? Mateus tem inúmeras crenças, mas ele não acredita que a miséria seja vontade de Deus, nem que apenas sua fé irá protegê-lo dos acidentes de trabalho.
Por isso, ele milita em um partido revolucionário e toma todos os cuidados ao operar o torno. Ou seja, naquilo que é o mais importante, Mateus tem uma visão científica da realidade. Isso lhe basta. Para ele, a religião é parte de outra esfera, é um assunto privado, de foro íntimo, que não se mistura com trabalho, militância ou amizade. A compreensão do PSTU sobre a religião é a mesma de Mateus: muito mais importante do que dividir os operários em base à religião ou à falta dela, é uni-los na luta comum contra o capitalismo.

A origem da religião
O homem primitivo era caçador. Há cerca de 40 mil anos, era costume caçar em grupos durante o dia e descansar junto à fogueira à noite. Quando olhavam para o céu noturno, nossos ancestrais percebiam pontos de luz parecidos com os de suas fogueiras, só que muito altos. Eram as estrelas, mas ninguém sabia disso. Começaram a imaginar que o céu fosse uma espécie de “outro andar” do mundo, habitado também por caçadores, só que muito mais poderosos que eles porque suas fogueiras ficavam suspensas no ar.

Em seguida, perceberam também que alguns pontos de luz no céu, se unidos, formavam desenhos específicos: um urso, um pássaro, uma lança etc., sempre imagens ligadas à caça. Eram as constelações, mas ninguém sabia disso também. Sonolentos e famintos, confusos e curiosos, nossos antepassados começaram a imaginar que esses caçadores celestiais governavam o mundo aqui embaixo. Se não fosse assim, por que haveria cenas de caçadas desenhadas no céu? Não poderia ser coincidência! Concluíram daí que era preciso agradar a esses seres para que a caça aqui embaixo fosse bem sucedida.
Surgiam assim os primeiros rituais, sempre com um mesmo objetivo prático: dar à tribo caça, pesca e coleta abundantes. A religião tem origem, portanto, não na revelação divina, mas na atividade social dos próprios homens, no medo e na admiração que sentiram diante de fenômenos que eles não entendiam.

Apenas muito recentemente, há cerca de 5 mil anos, a caça e a coleta foram substituídas pela pecuária e a agricultura. A família, antes dirigida pela mulher, passou a ser comandada pelo homem. A autoridade paterna tornou-se a lei. A consequência disso no âmbito religioso é que os cultos pagãos começaram a dar lugar à ideia de um único Deus-Pai todo-poderoso. Mais uma vez, o homem projetava nos céus o que ele mesmo fazia na terra. A história de qualquer religião é a repetição desse esquema básico.

Religião e moral
O termo religião vem do latim religio, que significa “religar”. Religião é o conjunto de crenças, ritos e concepções que buscam restabelecer os laços entre o mundo terreno e o mundo celestial.

A religião pressupõe um conjunto de regras, padrões de comportamento e posicionamentos morais que devem ser observados para que o indivíduo mantenha-se ligado a Deus. Por isso, hoje é normal que toda religião se posicione sobre questões como o aborto, a homossexualidade e o adultério. Mas a verdade é que nem sempre foi assim…

Uma mesma religião se transforma ao longo do tempo. No cristianismo, por exemplo, os ritos e preceitos morais de hoje não são iguais aos do passado. Por serem perseguidos no Império Romano, os primeiros cristãos formavam uma comunidade coesa e clandestina, realizando seus cultos nas catacumbas de Roma, escondidos de tudo e de todos. Para integrar essa comunidade, era preciso um grande sacrifício, não só porque a religião era perseguida, mas porque aquele que desejasse se juntar ao grupo deveria dividir todos os seus bens com ele.

Assim, as primeiras comunidades cristãs eram comunistas em sua vivência. A própria Bíblia, nos Atos dos Apóstolos, livro que descreve a vida dos cristãos nos primeiros anos após a morte de Jesus, relata: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum porque todos os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, e traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha”. (Atos 4: 34 e 35).

Os primeiros cristãos eram extremamente livres em seu comportamento moral. Até mesmo as famílias eram praticamente dissolvidas nas comunidades, devido à convivência em grandes grupos fechados. Prevalecia o cuidado coletivo com os filhos e os afazeres domésticos. Durante os cultos, as mulheres exerciam um papel tão importante quanto os homens e podiam conduzir qualquer cerimônia. Não se controlava a vida de ninguém, a não ser que o coletivo fosse realmente afetado. Viviam e oravam juntos, e pronto.
Quanta diferença entre a conduta desses primeiros cristãos e o que prega hoje a organização chefiada por Bento 16! A Igreja Católica tem cerca de 1,2 bilhão de fiéis no mundo, possui um Estado próprio, o Vaticano, com forças armadas, serviços de inteligência, passaportes e, é claro, um banco, o Banco do Vaticano. As igrejas repassam dinheiro ao Vaticano por meio do chamado “Óbolo de São Pedro”, uma espécie de linha bancária direta, livre de impostos, que liga a Santa Sé às comunidades eclesiais. Como se não bastasse, os padres e bispos católicos são frequentemente acusados de abuso sexual contra jovens e crianças em distintas partes do mundo, ao mesmo tempo em que o Papa condena a camisinha e a pílula anticoncepcional.

Infelizmente, as igrejas protestantes, evangélicas e neopentecostais se diferenciam da Igreja Católica apenas pelo tamanho dos escândalos. Em essência, são iguais. Basta lembrar as palavras do próprio bispo Edir Macedo no famoso vídeo gravado por um ex-pastor com uma câmera escondida: “Se você quiser ajudar, amém. Se não quiser ajudar, Deus vai arranjar outra pessoa para ajudar. Amém. Entendeu como é que é? Se quiser, amém. Se não quiser, que se dane. Ou dá ou desce”.

Com raríssimas exceções, padres e pastores de todas as igrejas se comportam como verdadeiros mercadores no templo, como os novos adoradores do Bezerro de Ouro. Os trabalhadores que buscam conforto espiritual na religião terão mais sucesso se rejeitarem esses intermediários.

A visão religiosa de mundo
O cristianismo, confissão predominante em nosso país, é muito mais do que uma religião. É também uma visão de mundo. Isso significa que ele busca explicar absolutamente todos os fenômenos do universo: a Terra, o Sol, o homem, a sociedade, a história, a própria religião etc. O cristianismo é, portanto, um sistema filosófico completo.

Para o cristianismo, o universo é estático, com uma hierarquia que jamais pode ser mudada. No topo está o ser supremo, Deus todo-poderoso. Muito abaixo está o homem. Tudo o que acontece é desejo de Deus. Ao homem fica reservado o papel de instrumento da vontade divina: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”. (Filipenses 2:13). O homem, segundo o cristianismo, não tem, de fato, nenhum arbítrio, muito menos livre.

Essa visão hierárquica de mundo leva à passividade e à aceitação da ordem social existente porque tudo se justifica na vontade do Criador. Não são poucos os trechos bíblicos em que se conclama à obediência e à servidão: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus”. (Colossenses 3:22). Ou então: “E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites”. (Lucas 12:47). E ainda: “Exorta os servos a que se sujeitem a seus senhores, e em tudo agradem, não contradizendo”. (Tito 2:9). Com essa base filosófica, não é de se estranhar que a Igreja Católica jamais tenha se pronunciado contra a escravidão.

O mito da inferioridade da mulher
Para o cristianismo, a mulher é um subproduto do homem: “Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem”. (1 Coríntios 11:8). Além disso, foi criada com o único objetivo de fazer companhia ao homem, ser sua “ajudadora” (Gênesis 2: 18 e 20). Para piorar, enganada pela serpente, a mulher acabou sendo a responsável pela introdução do pecado no mundo. O preço pago não foi baixo: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. (Gênesis 3:16).

Mais adiante, a Bíblia estabelece com detalhes o papel da mulher na sociedade: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio”. (1 Timóteo 2:12). Ou: “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos”. (Efésios 5:24). Qual a diferença entre essas passagens e as normas de comportamento feminimo recomendadas pelo tão criticado Alcorão? Nenhuma.

Socialismo e religião
A doutrina socialista não combate a fé, mas sim a visão religiosa de mundo, o que é muito diferente. Os socialistas rejeitam a ideia de um destino pré-estabelecido e de uma hierarquia entre as pessoas e os sexos. Acreditam que homens e mulheres são iguais e que ambos, juntos, fazem sua própria história. O socialismo é também, ao contrário do que tentam fazer parecer, uma doutrina profundamente moral: nela, os princípios da igualdade, da solidariedade e da liberdade ocupam um lugar central. Se esses homens e mulheres, ativos e livres, conscientes e solidários, têm em seus corações deuses, santos, profetas ou orixás, para os socialistas isso não faz a menor diferença.

É a própria Bíblia que ensina: “O homem rico é sábio aos seus próprios olhos; mas o pobre que é inteligente sabe sondá-lo”. (Provérbios 28:11). Não perdem por esperar aqueles que vivem da pobreza e do desespero alheios. A revolução socialista dará aos pobres o pão e a paz há milênios prometidos pelas religiões e promoverá a completa separação entre o Estado e as igrejas. Ao mesmo tempo, a liberdade de culto será proclamada uma lei inviolável. Assim, o governo socialista dissolverá lentamente as bases sobre as quais se assentam as igrejas: por um lado, a miséria material e espiritual da população e, por outro, o financiamento, direto ou indireto, por parte do Estado. O homem será homem e não mais rebanho.

O socialismo será o renascimento do comunismo dos antigos cristãos perseguidos num nível muito superior, pois será uma partilha de fato universal. Na luta por uma existência digna nesta vida, todo religioso honesto deve escolher: estar ao lado do rico opressor ou com seus irmãos trabalhadores.

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