O programa e a prática

No último fim de semana, reuniu-se no Rio de Janeiro o chamado “campo majoritário do PT”, que reúne as correntes que controlam 65% dos postos de direção desse partido. Estiveram presentes alguns dos principais caciques petistas, como os ministros José Dirceu, Antonio Palocci e o presidente nacional da legenda, José Genoíno.

O encontro serviu para definir a tese que será levada ao 13º Encontro Nacional do PT, em dezembro.

A nova tese substitui a definida no encontro anterior, em 2001, que defendia a ruptura com o FMI. Na nova tese, todos os postulados do FMI são reivindicados, começando pela “política fiscal”, ou seja, as metas de superávit fiscal, que cortam as verbas de saúde e educação para garantir o pagamento da dívida aos banqueiros. Trata-se de ajustar o programa do PT à prática de dois anos do governo Lula. Várias lições podem ser tiradas desse episódio.

A primeira é que a esquerda petista vai ter que se retorcer muito para poder justificar sua permanência em um partido que assume como programa as normas do FMI, de forma descarada.

O texto do campo majoritário adota os termos da chamada Terceira Via, que engloba o primeiro-ministro britânico Tony Blair, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton e o atual chanceler alemão Gerard Schroeder. Esta corrente defende explicitamente o neoliberalismo, agregando alguns programas sociais para disfarçar a superexploração dos trabalhadores. Só para recordar, o PSDB de FHC reivindica também a Terceira Via.

A segunda lição é sobre a noção de democracia praticada no PT. Aparentemente são muito democráticos, porque todos falam o que querem. Na verdade, são ultra-burocráticos, pois o partido só faz o que seus parlamentares e governantes querem, e não o que suas bases decidem. O encontro de 2001, que determinou o programa da campanha eleitoral de Lula, votou pela ruptura com o FMI. O governo Lula fez exatamente o oposto, aplicando um plano econômico de continuidade ao FHC. Agora, com o peso do aparato do Estado nas suas mãos, não existe nenhuma possibilidade da corrente majoritária perder o próximo encontro, e legalizar sua prática como o novo programa.

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