O povo haitiano derrotou a fraude eleitoral

Protesto na capital, Porto Principe

Finalmente, foi reconhecido o triunfo de René Préval nas eleições presidenciais haitianas. Este fato se deu depois que o Conselho Eleitoral permitiu, primeiramente, uma evidente fraude contra Préval (foram encontradas, na periferia de Porto Príncipe, várias urnas com ampla maioria de votos para ele) e, na seqüência, tentou forçar a realização de um segundo turno, com Leslie Manigat, o candidato favorito do imperialismo, que estava em segundo lugar.

Contudo, as massas haitianas derrotaram esta fraude preparada pelo imperialismo. Em primeiro lugar, votaram massivamente em Préval que, apesar da fraude, obteve quase 49% dos votos – contra menos de 12% de Manigat.

Mas, o fundamental foi que as massas se mobilizaram maçicamente para defender seu voto, tentaram tomar a sede do Conselho Eleitoral de assalto e enfrentaram a repressão das tropas de ocupação, o que acabou resultando em uma morte.
Quando finalmente o triunfo de Préval foi reconhecido, o povo haitiano festejou nas ruas, especialmente na capital Porto Príncipe.

O que ocorreu no Haiti guarda semelhanças com o que aconteceu recentemente na Palestina (a vitória eleitoral do Hamas), mesmo considerando as profundas diferenças entre ambas regiões e seus protagonistas políticos.

As eleições foram realizadas no marco de regimes coloniais e sob ocupações militares, com a intenção de “mascarar” esta situação. Em ambos os casos, o povo votou massivamente nos candidatos e movimentos que, na sua opinião, lhes permitem expressar sua oposição e sua revolta. E, consequentemente, provocaram uma crise no mecanismo eleitoral e, com isto, na própria ocupação.

Por fim, tanto a crise haitiana quanto a palestina se somam às demais que o imperialismo já vivencia com a ocupação do Iraque e nas relações com o governo iraniano.

A ocupação imperialista e o governo de Aristide
O Haiti é o país mais pobre das Américas, com indicadores sócio-econômicos similares aos das regiões mais pobres da África. No continente africano, o destino do país cairia no esquecimento. Contudo, o Haiti está no Caribe, uma área chave para o imperialismo ianque, que considera a região o seu “quintal”, no qual tem o direito de intervir política e militarmente.

No Haiti, a última invasão dos marines foi feita em 2004, para derrubar o então presidente Jean-Bertrand Arisitide, um sacerdote católico que havia ganhado prestígio na periferia de Porto Príncipe, em 1986, durante a luta que derrubou a sangrenta ditadura familiar dos Duvalier e ganhou as eleições presidenciais posteriores.

No princípio, o imperialismo, por distintas vias, manteve Aristide fora do poder. Mas, em 1992, frente ao fato de que ele era a única figura que poderia controlar a instabilidade haitiana, os marines o instalaram na presidência, em um acordo costurado entre Bill Clinton (então presidente dos EUA) e Aristide, que se comprometeu a aplicar uma política pró-imperialista baseada na receita do FMI.

Na sua segunda presidência, Arisitide começou a monopolizar em suas mãos os negócios do Estado e a ajuda econômica internacional enviada ao país. Isto provocou não somente a ruptura com a base política que o sustentava como também um forte enfrentamento com outros setores burgueses haitianos, o que acabou resultando numa guerra civil com a participação de diversas frações armadas.

Em 2004, diante da recusa de Aristide em formar um governo de “unidade nacional” com seus opositores e do risco de uma “libanização” do Haiti, os marines invadiram o país, derrubaram o presidente e o levaram para o exílio.

As tropas da ONU entram em cena
A manobra deu origem à instalação de um regime colonial sob ocupação militar. Pouco depois, para que Bush pudesse concentrar seus esforços militares no Iraque, os marines foram retirados e substituídos pelos “capacetes azuis” da ONU: cerca de 10 mil soldados de diversos países (com a participação de tropas da Argentina, Chile e Uruguais, dentre outras), encabeçadas pelo Brasil.

Esta tentativa de camuflar a situação não conseguiu ocultar o verdadeiro papel de tropas de ocupação que os capacetes azuis cumprem a serviço do imperialismo. Basta citar como exemplo, a repressão violenta a todos os que se manifestaram contra a fraude eleitoral e o assassinato, pelas tropas jordanianas, de um dos manifestantes.

Além de desnudar o papel de lacaios do imperialismo cumprido por Lula, Kirchner, Lagos e Tabaré Vázquez, a ocupação somente pode causar dor e indignação aos povos latino-americanos que têm uma dívida histórica de gratidão ao povo haitiano: o Haiti foi a primeira nação latino-americana independente (resultado de uma revolução de negros escravizados) e ofereceu refúgio e ajuda financeira para Simon Bolívar, depois da derrota de seu primeira tentativa de promover a independência na Venezuela.

E, agora, os atuais presidentes latino-americanos “pagam” esta dívida com a invasão militar e a repressão.

Uma tarefa urgente
Foi no marco deste regime colonial que as eleições foram realizadas, com a evidente intenção de legalizar a situação e neutralizar os primeiros sintomas de crise vividos pelas tropas de ocupação – como o recente suicídio do comandante brasileiro e as exigências de maior repressão por parte da burguesia haitiana.

Neste contexto, todos os candidatos se pronunciaram a favor da manutenção dos “capacetes azuis”. Préval, por exemplo, declarou que as tropas deveriam permanecer “todo o tempo que fosse necessário”. Contudo, ele capitalizou o prestígio que Aristide conserva entre as massas pobres, devido à proximidade que ele teve com o ex-presidente, no passado. Concretamente, ele não era o candidato que o imperialismo preferiria: foi a mobilização das massas que os obrigou a aceitar a vitória de Préval.

Porém, compartilhando de sua natural alegria por haver derrotado a fraude, chamamos às massas haitianas a não depositar nenhuma confiança em Préval. Tanto devido a seu caráter burguês quanto por sua aceitação da situação colonial, ele não irá lutar contra a ocupação nem governará para resolver os gravíssimos problemas sócio-econômicos do povo.

Pelo contrário. Confiamos sim, e plenamente, na luta e na mobilização do povo haitiano, que tem uma longa tradição de heroísmo e cujo ânimo, certamente, será fortalecido por este triunfo.

O povo haitiano tem diante de si uma tarefa urgente: expulsar as tropas de ocupação da ONU, como ponto de partida imprescindível para começar a melhorar sua situação. Outras tarefas muito importantes são a ruptura com o FMI (um dos responsáveis pela crítica situação econômica e social em que o país se encontra) e o imediato desarmamento da feroz polícia haitiana e das forças para-policiais de direita, cúmplices da ocupação.

Por isto, a LIT-QI defende que não somente as massas haitianas, mas os povos de todo mundo defendam “Fora os capacetes azuis do Haiti!”. Uma luta que deve ser travada especialmente nos países latino-americanos que mantém tropas de ocupação, como o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai.

Nestes países, está colocada a necessidade de impulsionar uma forte campanha e grandes mobilizações unitárias, exigindo a imediata retirada de seus soldados. É desta forma que poderemos derrotar o grande inimigo comum: o imperialismo norte-americano.

Liga Internacional dos Trabalhadores, 18 de fevereiro de 2006.
www.litci.org

Post author Declaração da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional
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