O novo papa e a crise da Igreja da Católica

Papa Francisco: cara nova para a velha igreja

Escândalos de corrupção e disputas fratricidas pelo poder rondam a sucessão do trono de PedroEm seu último discurso como pontífice, a apenas um dia da aposentadoria, o Papa Bento XVI afirmou que a Igreja passava por um período de “águas turbulentas”. Uma rápida retrospectiva sobre os inúmeros escândalos que abalaram o Vaticano nos últimos anos mostra que o agora “Papa emérito” não exagerou ao qualificar desta forma os recentes abalos que atingiram a Santa Sé.

Se é verdade que a história da Igreja Católica sempre esteve permeada por escândalos, traições, corrupção e toda sorte de práticas tão mundanas, também é realidade que, desta vez, a crise é profunda e, até certo ponto, inédita. É a primeira vez que um papa renuncia ao trono desde o ano de 1415, quando o Papa Gregório XII abdicou para pôr fim à divisão que ameaçava o futuro da Igreja, que contava naquele momento com três papas, na crise que recebeu o nome de “Grande Cisma do Ocidente”. Um século antes, em 1294, o Papa Celestino V havia sido pressionado a deixar o trono após cinco meses de pontificado, num enrolado processo de sucessão que já durava dois anos.

Em todos esses séculos, o recurso extremo da renúncia (na verdade, abdicação, pois o Vaticano é uma monarquia absolutista, embora o termo não seja usado pela Santa Sé), só é utilizado quando a própria existência da Igreja está em risco. Ou seja, por mais que os verdadeiros motivos que levaram o ex-membro da juventude hitlerista, Joseph Ratzinger, a abrir mão do papado, sejam hoje nebulosos, é evidente que foi um gesto de autopreservação em uma tentativa de salvar a instituição milenar.

Escândalos
Segundo o jornal italiano La Repubblica, Ratzinger decidiu renunciar ao receber, em dezembro passado, um dossiê sobre as irregularidades e crimes no alto clero da Igreja. Além dos sucessivos escândalos de pedofilia, que custaram bilhões de indenizações à Igreja e deixaram arquidioceses falidas nos EUA e na França, agora a Cúria enfrenta novas levas de denúncias de corrupção no Banco do Vaticano. O relato de irregularidades apuradas por um grupo de cardeais foi batizada de Vatileaks pela própria Igreja.

O escândalo surgiu a partir de 2012 quando documentos oficiais do Vaticano começaram a vazar para a imprensa. Tomou corpo quando o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi publicou um livro com as correspondências pessoais do Papa Bento XVI e o seu secretário Gerog Gaenswein, “Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI”, relatando lutas fratricidas na cúpula da Igreja, chantagens e escândalos sexuais. O mordomo Paolo Gabrielle chegou a ser preso e condenado a 18 meses de prisão pelo vazamento dos documentos, mas recebeu indulto de Bento XVI.

No olho do furacão dos escândalos que atingem a Santa Sé está o Banco do Vaticano, ou o “Instituto para as Obras Religiosas”, o nome oficial da instituição financeira comandada pela Igreja Católica. Fundada em 1942 pelo Papa Pio XII, o pontífice que apoiou o nazi-fascismo e firmou o Acordo de Latrão com Mussolini para garantir a independência do Vaticano, o banco já protagonizou vários casos de corrupção. O último se deu poucos meses antes da renúncia de Ratizinger, em maio de 2011, quando o alemão foi obrigado a afastar da direção do banco o seu amigo pessoal, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi.

Ao que parece, Tedeschi ameaçava revelar os esquemas de lavagem de dinheiro do banco. Protegido pelo Estado do Vaticano, que não é obrigado a prestar contas às autoridades italianas, embora goze de toda sorte de isenção fiscal, o banco se tornou um verdadeiro paraíso fiscal fincado no coração da Itália. A situação fez com que a própria União Europeia cobrasse maior transparência por parte do microestado. Foi tamanha a gravidade dos casos de corrupção com que se deparou em sua gestão, que Tedeschi temia ser assassinado em uma tentativa de queima de arquivo.

Já no final de 2012, um grupo de cardeais apresentou ao papa um dossiê que muitos consideram ter sido determinante para a decisão da renúncia de Bento XVI. Apesar dos apelos dos demais cardeais para terem conhecimento do conteúdo do dossiê, apenas Ratzinger e os seus elaboradores sabem as irregularidades ali descritas. Segundo teria relatado uma fonte do Vaticano ao La Repubblica, os crimes se chocariam com o sexto e o sétimo mandamentos, respectivamente, “não adulterarás e não furtarás”. Especula-se que a referência ao adultério seja uma alusão aos casos de homossexualidade que, num ambiente conservador, retrógrado e hipócrita, são vistos como “escândalos sexuais”.

Em meio a uma crise de proporções catastróficas, o então Papa Bento XVI se veria no meio de uma disputa fratricida pelo poder, que estaria corroendo sua autoridade na Cúria. A renúncia, nesse contexto, lhe conferiria autoridade para, pelo menos, influir na sucessão e garantir a continuidade de uma linha ortodoxa e conservadora para os rumos da Igreja. E foi justamente o que fez.

Um novo nome para uma velha Igreja
O conclave iniciado no dia 12 de março surpreendeu pela rapidez com que o novo papa foi anunciado diante dos fieis da Praça de São Pedro. Apenas dois dias de discussão e votações foram suficientes para a definição do nome do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, contrariando as expectativas mais difundidas que polarizavam os nomes do brasileiro Dom Odilo e do italiano Scola. Ato contínuo, o novo papa, o primeiro pontífice da América Latina, escolheu o nome de Francisco, em alusão a Francisco de Assis.

Em um ato repleto de simbolismo, o novo papa apareceu pela primeira vez diante do público sem as indumentárias papais. Mais ainda, ao invés de abençoar o povo como reza a tradição, pediu aos fieis que primeiro rezassem por ele, num ato de humildade que, calculadamente, o distanciava de seu antecessor. Porém, tão logo foi divulgado o nome do novo Chefe de Estado do Vaticano, começaram a aparecer ao mundo denúncias que há muito ecoavam na Argentina.

É de conhecimento público o envolvimento da Igreja Católica argentina com a sangrenta ditadura militar no país que provocou a morte e desaparecimento de algo como 30 mil pessoas. Bergoglio não seria voz dissonante nessa cumplicidade. Segundo denúncia do jornalista Horacio Verbitsky, a partir de relatos de pessoas viveram o período, o novo papa teria sido diretamente responsável pela prisão de dois padres jesuítas em 1976.

Envolvimento com a ditadura
Os padres Orlando Yorio e Francisco Jalics eram subordinados de Bergoglio e atuavam em áreas pobres de Buenos Aires. Presos, foram torturados e permaneceram cinco meses detidos. Bergoglio também é acusado de envolvimento na prisão e assassinato do padre francês Gabriel Longueville, também em 1976.

Dos dois jesuítas presos, Jalics ainda vive, reconciliou-se com o antigo chefe e deu o caso por encerrado. Já Yorio morreu em 2000 denunciando a cumplicidade de Bergoglio com a repressão. Sua irmã, Graciela Yorio, recebeu a nomeação do novo papa com consternação. “Estou vendo Orlando na cozinha de casa, já faz uns anos, dizendo ‘ele quer ser Papa’. É a pessoa indicada para tapar a podridão” , relatou ao jornalista Verbitsky.

O novo papa também é acusado pelas Avós da Praça de Maio de omissão e acobertamento do governo no sequestro de bebês, prática recorrente da ditadura argentina chamada Plano Sistemático de Roubo de Bebês. Consistia no sequestro de crianças nascidas no cárcere ou detidas após a prisão ou assassinatos de opositores ao regime e a sua entrega para adoção por famílias escolhidas pelos militares. Tal plano recebia o suporte da igreja através do Movimento Familiar Cristão.

Bergoglio é acusado de omissão no caso do desaparecimento de Elena de la Cuadra, sequestrada em 1977 enquanto estava grávida de cinco meses. No mesmo ano, o pai de Elena, Roberto Luis de la Cuadra, teve uma audiência com Bergoglio a fim de pedir a intercessão do religioso. O caso foi passado a um bispo auxiliar, que apurou que a criança já havia sido entregue pela ditadura a uma outra família. Roberto e sua esposa, Alicia de la Cuadra, fundadora das Avós, foram então comunicados pela Igreja que a adoção já não tinha volta.

Em 2010, Bergoglio declarou em juízo não se lembrar de tal audiência e ter tido conhecimento da existência das Avós da Praça de Maio só em 1985. Estela de la Cuadra, tia do bebê roubado, classificou o caso como “um desastre, uma impunidade total”.

O que é certo, porém, é que o novo papa era uma figura muito próxima do ditador Videla e dos agentes da repressão. Tão identificado por esses setores que, nesse dia 14 de março, 44 agentes da repressão que estão agora sendo processados pela tortura, sequestro e assassinatos cometidos em um campo de concentração, o “La Perla”, comemoraram a eleição do novo papa na Corte com broches na lapela com as cores do Vaticano. Já as entidades de Direitos Humanos do país classificaram o fato como “um enorme retrocesso”.

Uma crise sem solução à vista
Muito se fala sobre a crise ideológica e espiritual da Igreja Católica, uma instituição com 1,2 bilhão de fieis espalhados pelo mundo e um evidente descolamento entre seus dogmas e o modo de vida da esmagadora maioria dos católicos. No entanto, para além dessa crise, existe uma outra muito mais profunda e concreta, que atinge uma instituição ainda poderosa que estende seus tentáculos por todo o planeta e difunde ideias retrógradas e conservadoras.

Uma crise que atinge a alta cúpula e que é perpassada pelas crises do Banco do Vaticano e a própria crise financeira na Europa. Vale lembrar que os custos do Estado do Vaticano à Itália, um dos países mais atingidos pela crise, somam a impressionante cifra de 9 bilhões de euros anuais. As inúmeras isenções e privilégios já estão sendo ameaçadas pelos governos de austeridade.

O teólogo Leonardo Boff, ao escrever sobre a escolha do nome do novo Papa, lembrou como São Francisco de Assis teria descoberto sua vocação divina, segundo conta a tradição católica. O religioso, que se tornaria santo, teria ouvido uma voz lhe dizendo “Francisco, vai e restaura minha casa; olhe que ela está em ruínas”. Ao revisitarmos o obscuro passado do Papa Francisco, porém, fica claro que sua função se aproxima mais ao relatado pelo padre jesuíta preso pela ditadura: tampar a podridão.