O inimigo na casa do vizinho

O imperialismo norte-americano prepara-se para dar mais um importante passo no seu projeto de militarização da América Latina. Em maio deste ano, o Senado do Paraguai aprovou uma lei que concede imunidade às tropas dos Estados Unidos e permite que elas se desloquem para o Paraguai com objetivo de realizar exercícios militares. A lei foi posteriormente sancionada pelo presidente do país, Nicanor Duarte Frutos.

Além de dar total imunidade aos técnicos militares e tropas norte-americanas para entrar e sair do país, transportar armamentos e operar em qualquer parte do território paraguaio, a lei é parte de projeto que visa ampliar o cerco militar aos países latino-americanos. Em agosto de 2005, o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, visitou Assunção para fechar um acordo bilateral de livre comércio que teria como contrapartida a instalação da base militar norte-americana na região do Chaco, norte do Paraguai.

Olho gordo na Bolívia
País vizinho do Brasil, o Paraguai possui uma localização territorial estratégica para a região do Cone-Sul. Possui parte da maior hidroelétrica do planeta, a Itaipu, fonte de um quinto da eletricidade consumida no Brasil, e tem no seu subsolo, junto com a Argentina e o Brasil, a reserva de água potável mais importante do mundo, o aqüífero Guarani.

Sob a desculpa de combater o “terrorismo”, a lei aprovada permite que soldados norte-americanos realizem operações militares nessa região, conhecida como a tríplice fronteira.

Mas não é só isso. A instalação da base militar no Chaco tem como finalidade garantir a “segurança” das reservas de gás natural da Bolívia, que fica próxima à região, e impedir que o desenvolvimento da situação revolucionária do país possa ameaçar as empresas multinacionais que saqueiam as reservas de hidrocarbonetos (derivados de gás e petróleo). Em poucas palavras, o imperialismo poderá facilmente invadir o país caso a luta do povo boliviano coloque em xeque o lucro das empresas estrangeiras.

Para a instalação da base, os EUA contam com a pista de aterrissagem de Mariscal Estigarribia, localizada a 250 Km da fronteira boliviana. A pista tem 3.800 metros de comprimento e é capaz de receber até aviões de bombardeio, como o mortífero B-52. Hoje, existem 400 militares norte-americanos no Paraguai, mas a base tem infra-estrutura necessária para abrigar até 16 mil militares com todo o armamento necessário.

Escritórios do FBI
Como parte do acordo, Washington vai abrir no Paraguai escritórios do FBI (polícia Federal dos EUA) para “ajudar na segurança interna”. Representantes do Pentágono, conselheiros e agentes realizarão seminários para soldados e policiais paraguaios para “combater o crime e o terrorismo na região”. Em outras palavras, irão treinar especialistas em repressão das lutas sociais no Paraguai. “Hoje, todos os escritórios de segurança norte-americanos estão funcionando [no Paraguai]”, afirma o advogado Orlando Castillo, membro da Serpaj (Serviço de Justiça e Paz).

Fechando o cerco
Da mesma forma como fez no Equador, Peru, Colômbia, Panamá, Porto Rico, dentre outros países onde foram instaladas bases militares, o imperialismo quer estabelecer outra cabeça de ponte para garantir a recolonização da América Latina. Com a subserviência do Congresso e do Parlamento, a medida, como descrevem muitos analistas independentes, vai transformar o Paraguai num enclave militar dos EUA na América do Sul. Prova disso é que os exercícios militares não param de crescer. “Monitoramos 46 operações militares americanas desde 2002. Anteriormente, esses exercícios eram estabelecidos por seis meses. Depois aumentaram a quantidade de exercícios e o período, primeiro para um ano e agora para 18 meses”, disse Castillo.

O Partido dos Trabalhadores, seção paraguaia da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), soltou nota repudiando o ingresso de militares no país. “A presença de militares e funcionários dos EUA representa um perigo para toda a América Latina (…). É a entrega inescrupulosa de nossa soberania por parte do governo Nicanor e dos parlamentares de todos os partidos burgueses”. Por fim, a nota conclama a resistência para expulsar as tropas do país.

O grito “Fora Tropas Ianques de Toda a América Latina” deve ser uma bandeira empunhada por todos os trabalhadores brasileiros nos atos de repúdio à visita de Bush ao Brasil.

Às ruas contra Bush

Conlutas e Campanha Contra a Alca preparam atos para 5 de novembro contra a visita do presidente norte-americano no Brasil

Roberto Barros, da redação

A Casa Branca confirmou a participação do presidente norte-americano George W. Bush na IV Cúpula das Américas, encontro promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA), entre 3 e 5 de novembro, em Mar del Plata, na Argentina. A rejeição à vinda de Bush aumenta diante da militarização da cidade de Mar del Plata – cerca de 2,5 mil agentes norte-americanos devem desembarcar no mais ilustre balneário argentino.

Bush participará da Cúpula para “dialogar com os líderes do hemisfério democraticamente eleitos e promover a consolidação da democracia e a expansão da oportunidade econômica e da prosperidade mediante mercados abertos e livre comércio”. “Uma hipocrisia perversa”, segundo as organizações que preparam a III Cúpula dos Povos, que será realizada a partir de 10 de novembro em Mar del Plata. “Um país que invade outros usando mentiras como pretexto, que assassina e tortura a olhos vistos, não pode ensinar democracia a ninguém”, afirmam os organizadores.

Atos nos atos
Bush estará no Brasil depois de sair da Cúpula das Américas e passará algumas horas em Brasília, no dia 5 de novembro. A Conlutas, a Secretaria Nacional e o Comitê São Paulo da Campanha contra a Alca reuniram-se para tratar da organização de protestos contra a presença de Bush no Brasil. Segundo Zé Maria, da secretaria nacional da Conlutas, foi acertada na reunião a preparação de protestos unitários em todo o país contra a presença de Bush no Brasil. A idéia é fazer atos não só por onde ele passar, mas também em todas as capitais, sejam em frente aos consulados ou em empresas que simbolizem a dominação imperialista. Inicialmente, esses atos estão indicados para o dia 5 de novembro, já que essa é a data definida internacionalmente como dia de protesto em toda a América Latina contra a Cúpula das Américas e os EUA.

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