Bolsonaro e o agora ex-ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Antônio Cruz/Agência Brasil

No dia 29 de março, caiu um dos ministros ícones do bolsonarismo, Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Com ele, também caíram o ministro da Defesa e os chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Essa reforma deu margem a inúmeras especulações e opiniões sobre a crise do governo.

Bolsonaro está acuado, com sua popularidade em queda. Houve, inclusive, um deslocamento do próprio empresariado em relação ao seu governo (o que também incidiu e incide para que um setor da própria cúpula militar se desloque do governo). Treme em seus pés a institucionalidade burguesa.

Como prevíamos desde o início, é um governo de crise, porém militarizado e perigoso. Não se poderia descartar um autogolpe; mas, também, poderia ocorrer um aprofundamento da crise, com a mesma avançando para o principal pilar do Estado burguês: as Forças Armadas.

Bolsonaro, longe de conseguir governar sem o Congresso, foi obrigado a se jogar nos braços do centrão, que o mantém nas cordas. Por outro lado, está confrontado com governadores e prefeitos. E, agora, se estranhou com parte da cúpula militar. A mesma que foi fiadora e sócia do seu governo, mas que, assim como parte do empresariado, teme um abraço de afogados.

Um governo frágil que pode ser derrotado, mas que não deve ser subestimado

Desde que assumiu a presidência, esse governo defende abertamente um regime autoritário, utilizando uma tática de chantagem permanente e de ameaça às liberdades democráticas, mesmo não tendo correlação de forças para isto.

Se, por um lado, essa reforma ministerial apressada demonstra um governo enfraquecido e cada vez mais nas mãos do Centrão; a alteração no comando das Forças Armadas revela que ele, embora não tenha encontrado o apoio que gostaria para ameaçar com Estado de Sítio, tentou mostrar quem manda e que não vai desistir de seu projeto.

Não se estranhou com as Forças Armadas por estas defenderem a “democracia”. Basta ver que são revisionistas da História e comemoram o golpe militar de 1964. Ocorre que elas são condicionadas pela posição da maioria do empresariado e do imperialismo. E a política destes não é golpe militar, neste momento.

As Forças Armadas refletem também os humores da sociedade, ainda mais os setores médios. Existe, ainda, o temor de que a desmoralização do governo contamine suas fileiras, a exemplo do que aconteceu com Pazuello, no Ministério da Saúde.

Se isso tudo, porém, mostra um governo mais fraco e acuado, nem por isso, ele está morto e deve ser subestimado. Há setores da oposição que faziam um discurso unilateral de fortaleza do governo, o que não corresponde. Agora, parte destes mesmos setores analisa que tudo é fragilidade. Enquanto isso, mais uma vez, não enxergam nada além das eleições no horizonte. Não fazem nada para botá-lo pra fora, já. Deixam que o genocida continue matando e organizando (inclusive, armando) a extrema-direita.

Bolsonaro já deu mostras mais do que suficientes de que pretende organizar um setor das Forças Armadas e das PMs para, junto com a ultradireita, conformar o “seu Exército” (militar, paramilitar e miliciano), seguindo os exemplos do Chavismo, na Venezuela, ou, mais recentemente, de Trump, nos Estados Unidos. Inclusive, deixando explícito que não aceitará um resultado eleitoral que não o tenha como vencedor.

O pano de fundo: desemprego, fome e pandemia

Há um importante agravamento da crise política e institucional, tendo como pano de fundo a pandemia descontrolada e a enorme crise social, com o desemprego e o avanço da miséria e da fome.

O governo Bolsonaro é um governo autoritário, que surgiu e se assenta sobre uma imensa crise econômica, social e política. Crise mundial do sistema capitalista e, no Brasil, talvez a maior da nossa história. Junto e além dessa crise, o Brasil vive uma longa decadência, um processo de desindustrialização e reversão colonial, determinado por sua localização subalterna na divisão mundial do trabalho, a qual todos os governos aprofundaram, inclusive os do PT.

Bolsonaro emergiu na esteira desse desastre e, com o aparato do Estado nas mãos, tenta, por um lado, reverter o regime político, mesmo sem correlação de forças para isso; e, por outro, completar de forma acelerada esse processo de recolonização. O empresariado e toda classe dominante apoiam a política econômica do ministro Paulo Guedes.

Nesse momento, porém, um setor se desloca de Bolsonaro porque seu negacionismo e mesmo parte de sua política econômica começam a ser disfuncionais para eles. Mesmo que a política deles, ainda, não seja impeachment, pois estão ganhando rios de dinheiro e esperando pelas reformas.

Temos um país indo ladeira abaixo, em franco retrocesso e decadência. O agravamento da pandemia é um verdadeiro massacre, com o avanço exponencial das mortes, do desemprego, da miséria e da pobreza. Os pequenos comerciantes também vivem uma situação de penúria. Tudo isso faz com que cresçam a indignação e a revolta.

Foto: Pedro Guerreiro / Ag. Pará

O peso do desemprego, da pandemia e da burocracia sindical como travas à luta da classe trabalhadora

A pandemia atua como inibidor de mobilizações massivas, de rua, e o desemprego coloca especialmente a classe operária na defensiva. No entanto, contraditoriamente, sob a pandemia, a melhor forma de luta, inclusive para forçar um lockdown nacional, seria uma greve geral.

O governo, a mídia e o próprio empresariado disputam a consciência da classe, dando a entender que parar a produção, o comércio e o transporte iria piorar ainda mais o desemprego; quando sabemos muito bem que com 4 ou 5 mil mortes ao dia, manter tudo funcionando significa genocídio e mais desemprego.

Nessa situação, seria fundamental uma campanha unificada em defesa de uma greve geral sanitária, puxada por todas as centrais, movimentos e partidos que se dizem da classe trabalhadora ou de oposição. Essa campanha é uma necessidade e uma obrigação. Se, depois de uma grande campanha, a classe não se sentisse em condições de parar, teríamos feito a nossa parte.

Mas, exceto a CSP-Conlutas, as demais centrais e toda burocracia sindical estão, cada uma ao seu modo, priorizando conversar com os diferentes blocos de presidenciáveis e da patronal, para oferecer apoio à burguesia e seu projeto de redução de salários e da jornada, além de propor que esta compre vacinas. Neste sentido, são uma trava para a mobilização.

É hora de exigir que todas as organizações da nossa classe entrem em campanha para construir uma greve geral sanitária.

A hipocrisia da oposição

O enfraquecimento de Bolsonaro deveria servir para ampliar a mobilização para tirá-lo de lá, junto com a sua corja, o mais rápido possível.  É hora de lutar por um lockdown nacional, auxílio-emergencial de R$ 600 (que, na verdade, deveria ser de, pelo menos, um salário mínimo), apoio financeiro aos pequenos empresários e vacinação para todos, exigindo a quebra de patentes e a produção em massa de vacinas.

Senão, o que teremos é mera hipocrisia, com lockdown a meio pau e vacina a conta-gotas, enquanto empilhamos mortos. Hoje, o papel do empresariado, dos governadores e prefeitos e do setor militar que começa a se afastar do governo é hipócrita e covarde. E, portanto, conivente com o genocida que aí está.

“Frente ampla” ou “frente amplíssima”: o mal menor não é saída

Se contra Bolsonaro e sua política genocida e autoritária toda unidade de ação deve ser feita, não se pode fazer o mesmo quando se trata de defender um programa para o país e um projeto de governo. A classe trabalhadora não pode ser apêndice de projetos da patronal, dos banqueiros, das multinacionais e de seus partidos.

Nesse momento, a maioria do empresariado busca um candidato de “centro-direita”; quer dizer, um candidato de oposição a Bolsonaro, mas da classe dominante “puro-sangue”. Não descarta, porém, embarcar, de novo, numa candidatura de Lula, se ela tiver um perfil ainda mais pró-capitalista do que teve em 2002.

Em discursos e entrevistas, Lula defende, abertamente, uma “frente amplíssima”, mais até do que já foram seus governos. Recentemente, defendeu as privatizações, obrigando até o senador Roberto Requião (MDB-PR) a exigir que não o fizesse.

Está chamando Biden, o presidente norte-americano, para reunir o G20 (grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia), quando o que deveria estar fazendo é uma campanha estridente pela quebra de patentes. Na verdade, Lula está se propondo a um governo de unidade nacional, que represente toda a burguesia. O PCdoB defende a mesma coisa.

O PSOL, por sua vez, ao discutir claramente o apoio a uma candidatura de Lula, não está falando em, eventualmente, chamar um voto crítico para derrotar Bolsonaro. Está falando em apoio. A maioria da direção do PSOL e Guilherme Boulos falam em discutir um projeto de governo com o PT, como se não soubessem que este projeto representaria um governo do PT em aliança com banqueiros, grandes empresários e seus partidos.

Marcelo Freixo (PSOL-RJ), por outro lado, sendo um dos principais expoentes do PSOL, defende o mesmo que Lula, se propondo a ser um palanque contra Bolsonaro no Rio, unindo do PT ao DEM de Rodrigo Maia e Eduardo Paes. Quer dizer, em qualquer caso, o PSOL se propõe a defender um projeto nos limites do capitalismo, aliando-se ao PT e a um governo seu, com a burguesia.

Acontece que este projeto já foi aplicado no Brasil durante 14 anos e a classe trabalhadora não apenas saiu mais desorganizada e enfraquecida, como retrocedeu em consciência de classe . E, enquanto isto, o país manteve o mesmo patamar de desigualdade histórica que sempre teve.

Por uma alternativa de classe e socialista

A unidade para lutar contra Bolsonaro, a pandemia, a fome e o desemprego, e também contra qualquer ameaça autoritária, é mais do que necessária. E, para essa luta, devemos nos unir. Mas, é preciso, nesta luta, construir uma alternativa de classe e socialista. Não podemos continuar ao reboque da classe dominante, nos limites do Brasil e daquilo que nos impõem há mais de 500 anos.

Precisamos de um projeto socialista, da classe trabalhadora, o único que pode garantir soberania nacional e acabar com essa desigualdade e injustiça que tanto nos envergonham. Este é o único caminho para garantir pleno emprego, moradia digna, universalização do saneamento básico, da saúde e da educação pública, estatais e de qualidade para todos.