O combate ao racismo é uma luta quilombola

Em 21 de março de 1960, o exército sul-africano disparou aleatória e brutalmente contra milhares de pessoas, a maioria jovens estudantes, que se reuniam no bairro de Shaperville, em Johannesburgo, África do Sul, para um protesto contra a “Lei do Passe”. A lei obrigava negros e negras a usarem uma espécie de passaporte que registrava os locais em que eles poderiam se locomover em sua própria terra.

O ataque, que entrou para a história como o “Massacre de Shaperville”, resultou na morte de 69 pessoas, além de deixar centenas de outras feridas, e foi seguido por uma onda de protestos que sacudiu o mundo.

Anos depois, em 1969, a Organização das Nações Unidas (ONU) se viu obrigada a transformar a data no “Dia Internacional Contra a Discriminação Racial”, uma resolução que só pode ser entendida no contexto dos ventos libertários e revolucionários que sacudiram o mundo nos anos 1960 (particularmente em 1968) e, particularmente, da radicalização da luta anti-racista nos EUA.

A hipocrisia burguesa
A resolução da ONU é um daqueles exemplos do quanto a classe dominante mundial é hipócrita. Se não fosse a conjuntura mundial, ela jamais teria sido sequer votada, o que, inclusive, não quer dizer que ela jamais tenha sido realmente levado a sério.

Afinal, quando falamos da ONU, estamos falando dos mesmos países e poderosos que, desde o início do século 20, conviveram pacificamente com sucessivos governos racistas sul-africanos e fizeram vistas grossas para a implementação da legislação do “apartheid”, que está na raiz não só do Massacre de Shaperville, mas como numa série de outros crimes, que levaram, literalmente, milhões à morte, à tortura e a todas outras possíveis conseqüências de um Estado construído em base à separação (este é o significado da palavra “apartheid”) radical entre as raças.

África do Sul: a face mais clara do racismo
O que acontecia na África do Sul na década de 60 era (e ainda é) apenas uma das expressões mais evidentes e nefastas das formas que o racismo pode assumir no mundo.

Na mesma época, nos EUA, leis também proibiam que negros e brancos freqüentassem desde as mesmas escolas até os mesmos banheiros. Em países como o Brasil, sob o manto de uma pretensa “democracia racial”, toda e qualquer forma de discriminação e preconceito foi usada para barrar o acesso de negros às condições mínimas de vida. Na Europa, desde muito, “estrangeiros” e migrantes das ex-colônias foram e são empurrados paras as margens da sociedade.

O fato inegável é que em todos os cantos do mundo, o racismo e suas variantes, como a xenofobia, foram e são praticados para superexplorar enormes setores da população, visando o lucro das classes dominantes. Por isso, a opressão racial é uma questão de “raça e classe”.

E é exatamente por isso que resoluções como a da ONU só podem ser consideradas pura hipocrisia. O que, contudo, não significa que devamos esquecer sua origem combativa e resgatar o 21 de março como um dia de luta.

Um combate cada vez mais necessário
Passados 48 anos, o apartheid já não existe na África do Sul; nos Estados Unidos temos um negro concorrendo, com chances, à presidência do país e, no Brasil, o governo Lula orgulha-se de ter criado um ministério específico para tratar da questão racial.

Isso tudo, no entanto, não quer dizer que o racismo tenha diminuído. Muito pelo contrário. O mundo neoliberal e “globalizado” é um mundo mais discriminatório e um campo ainda mais fértil para a opressão racial.

Algo que em grande medida está relacionado aos rumos que a luta anti-racista tomou desde os anos 60. Na África do Sul, Nelson Mandela e seu Congresso Nacional Africano (CNA) traíram abertamente a luta de seu povo e, depois de derrubarem o apartheid, no início da década de 90, optaram por governar com a elite branca, mantendo intacta a estrutura capitalista e racista do país, o que faz com que, hoje, mesmo sem a legislação do apartheid, o desemprego atinja 44% da população e negros e negras nas mesmas condições de décadas atrás.

No Brasil, o governo Lula, ao mesmo tempo em que patrocina a ocupação do Haiti – um dos principais exemplos da luta negra no mundo – e convive com a chacina diária de jovens negros nas periferias, cooptou a maioria do movimento negro para o seu projeto, fazendo com que inclusive setores significativos de importantes organizações, como o Movimento Negro Unificado (MNU), abandonassem bandeiras históricas da luta anti-racista.

Nos EUA, Barack Obama se apresenta como um “símbolo” de um país “pós-racista”, apontando Ronald Reagan como um de seus ídolos, o que o coloca ao lado outros negros traidores como Condoleezza Rice.

Tudo isso é exemplo de que a luta anti-racista é um combate que só pode ser levado a cabo, de forma conseqüente, pelos próprios setores oprimidos, em aliança com todos os demais explorados. Um exemplo que remonta não só aos lutadores de Shaperville, mas a todos aqueles que, como os quilombolas brasileiros, voltaram-se contra o sistema, em luta pela liberdade.
Post author
Publication Date