O caso dos bombeiros

Um pequeno setor da esquerda foi contra a luta dos bombeiros do Rio de Janeiro. Eles alegam que os bombeiros são parte das Forças Armadas e que por isso sua luta é reacionária, não progressiva. Dizem, por exemplo, que quando se instala uma UPP, os bombeiros se integram à operação, subindo o morro logo atrás do BOPE. Pois bem.

Também é verdade que quando se instala uma UPP, sobe o morro, logo depois do BOPE, um verdadeiro “pelotão” de assistentes sociais, psicólogos, médicos e enfermeiros. Isso é parte da política de “morde e assopra” do governo, de engano da população. Deveríamos então considerar as assistentes sociais e os médicos como inimigos da classe trabalhadora? O caveirão e a ambulância do SAMU cumprem o mesmo papel? Se a própria pergunta soa ridículo, imaginem a resposta desses companheiros…

O fato é que tudo não passa de um mal entendido, de um acidente histórico. Os bombeiros surgiram muito depois da polícia e do Exército. Sua existência não tem nada a ver com a manutenção da sociedade de classes, mas sim com apagar incêndios e resgatar pessoas. Aliás, no início eles nem eram militares. No Brasil, a primeira corporação de bombeiros foi criada em 1856 por D. Pedro II e não tinha caráter militar. Somente em 1880 eles foram militarizados. Depois, em 1934, foram novamente desmilitarizados e assim permaneceram até o final da Segunda Guerra Mundial, quando houve a militarização definitiva. Ainda hoje, nem todos os bombeiros são militares.

Na maioria dos pequenos municípios os bombeiros são civis e estão submetidos a distintas secretarias de estado e às prefeituras. Há, também, corpos mistos, com bombeiros civis e militares trabalhando juntos. Mesmo no caso dos bombeiros militares, sua relação com a PM varia muito. Em alguns estados a independência da corporação em relação ao comando da PM é quase absoluta. Nos Estados Unidos, Japão, Austrália e em alguns países europeus os bombeiros são todos civis. Nada mais natural. Se os companheiros contrários à greve dos bombeiros olharem com bastante atenção para a cintura de qualquer membro da corporação, verão não uma pistola, como em qualquer policial, mas sim um cinto ginástico.

Mas esqueçamos os bombeiros. Suponhamos que a greve no Rio de Janeiro tivesse se dado entre os praças da Polícia Militar; que o tsunami em Copacabana tivesse sido azul e não vermelho. Qual deveria ter sido a relação da classe trabalhadora com essa greve? Ora, é evidente: se houvesse uma greve vitoriosa dos praças da PM, essa experiência de insubordinação, de indisciplina, teria ficado marcada na memória de todos os policiais grevistas. Eles teriam chegado à conclusão de que a quebra da hierarquia militar é a única forma de melhorarem suas vidas. Também teria ficado na memória deles a solidariedade prestada pelos sindicatos, pelos estudantes e pelos professores. Os mesmos estudantes e professores que eles encontrariam mais tarde em protestos e passeatas. Os soldados mais pobres teriam sentido sua unidade com o povo. Uma semente teria sido plantada. Com o tempo, ela certamente floresceria, nos dando como fruto, talvez, no momento necessário, uma ajuda, um gesto, uma piscada de olho.
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