O ‘apagão’ das empresas de telefonia

A suspensão da venda de chips e serviços das maiores companhias de telefonia do país colocou em evidência as consequências da privatização do setor.No último dia 3 de julho, a TIM, a Claro e Oi foram suspensas. Juntas, elas representam 70% do mercado brasileiro e foram acusada pela Anatel de não realizarem investimentos em infra-estrutura enquanto há uma explosão da base de assinantes. Foram suspensas as operadoras com mais reclamações, o que afetou a TIM em 19 estados, seguida da Oi em cinco e da Claro em três.

O caso mais descarado é da TIM que, logo após ter liberada a venda de chips, foi ameaçada de ser suspensa novamente. A operadora é acusada de derrubar propositalmente as ligações do plano Infinity e obrigar seus usuários a realizarem mais ligações.

Desde a privatização do setor, as operadoras de telefonia realizaram parcos investimentos em infra-estrutura. Enquanto isso houve uma agressiva expansão da venda dos serviços, especialmente dos telefones celulares. Estima-se que são vendidos um milhão de celulares por mês. Só este ano, o mercado de celulares cresceu 19%, para 255 milhões de linhas ativas no fim do primeiro trimestre de 2012 (há dez anos o páis tina 35 milhões de linhas). Entretanto, muito pouco foi investido na expansão da rede das operadoras de telefonia móvel.

No ano passado, a TIM teve um crescimento de 25,6%, totalizando 64,1 milhões de clientes. Mas, para garantir suas altas taxas de lucro a Telecom Itália, controladora da TIM, investiu apenas 5% desse valor em infra-estrutura.

Isso explica a razão dos lucros estratosféricos destas empresas. Só no ano passado, a remessa de lucros das empresas de telecomunicação (telefonia móvel, fixa, de tevê por assinatura e de internet) chegou a US$ 2,45 bilhões, valor 130% maior que em 2010.

Mas se o sinal é ruim, a tarifa é uma das mais caras do mundo. É o que afirma o deputado Ronaldo Nogueira (PTB-RS), que pretende criar uma CPI para investigar as empresas de telefonia. “O brasileiro paga R$ 270 para utilizar 200 minutos. Na Índia, o usuário gasta apenas R$ 8 para falar o mesmo tempo. Há uma distância muito grande de valores”, disse Nogueira. Só a tarifa em ligações entre clientes de diferentes operadoras de telefonia móvel representa mais de 40% do faturamento bruto das empresas, segundo o parlamentar.

O que o deputado, porém, não diz é que essa situação absurda foi criada pelo processo de privatização realizada pelo governo FHC, com o apoio do PTB de Nogueira.

A Telebrás (estatal de telefonia) era a maior holding brasileira e foi dividida em 13 empresas durante a privatização. A Telebrás era empresa mais lucrativa do país, a 15º empresa de telefonia do mundo e a maior da América Latina. Em 1997, a estatal obteve um lucro de R$ 3,9 bilhões. Como todas outras estatais, a empresa foi sub-avaliada para ser vendida a “preço de banana”. Avaliada em R$ 55 bilhões, terminou sendo vendida por R$ 22 bilhões.

A privatização da Telebrás foi um dos mais importantes capítulos da chamada “privataria tucana”, o show de corrupção que envolveu as privatizações da Telebrás e da Vale do Rio Doce, marcadas pela cobrança de propinas para beneficiar algumas empresas. Apesar de farto material, reunidos pelo jornalista Amaury Ribeiro Junior no livro “A privataria tucana”, o PT nunca investigou a fundo os casos de corrupção sobre as privatizações no período do governo FHC. Isso porque o PT nunca desejou reverter todas as privatizações tucanas – pra alegria dos negócios de Daniel Dantas, Eike Batista e muitos outros empresários convertidos ao “modo petista de governar”.

Apesar de tudo isso, até hoje figuras de proa do PSDB, ao lado da grande mídia, insistem em dizer que a privatização da Telebrás foi uma “boa privatização”, que resultou na “universalização” da telefonia móvel do país. Omitem que já existiam planos para expansão da telefonia móvel enquanto a Telebrás ainda era uma estatal. Tudo isso foi entregue ao capital estrangeiro e a única coisa “universalizada” foram as rotineiras quedas no sinal e as astronômicas tarifas.