O agravamento da crise econômica mundial

Os dados mais recentes reafirmam a hipótese de uma nova recessão no horizonte. Os EUA apresentam uma desaceleração acentuada desde o início de 2010 (de 3,9%, no primeiro trimestre, a 2,3%, no último), recuando ainda mais em 2011 (0,4%, no primeiro trimestre, e 1,3%, no segundo). Na Europa, Alemanha e França que puxaram o PIB no primeiro trimestre (1,5% e 1%), frearam bruscamente no segundo (0,3% e 0%). O restante da Europa está estagnada (Itália e Inglaterra) ou já em recessão (caso da Espanha e Grécia). O Japão já está em recessão desde o final do ano passado, agravada pelo tsunami.

O Morgan Stanley, um dos principais bancos norte-americanos, declarou na semana passada que os Estados Unidos e a Europa estariam “perigosamente a beira da recessão”.

A evolução dos países chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) continua sendo um contraponto. Na ponta, a China teve um crescimento de 9,6%, no primeiro semestre. Mas a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) está prevendo desaceleração também na China, Índia e Brasil.

Combinação perigosa
Está ocorrendo uma combinação perigosa entre a crise econômica e a luta de classes. Já existe uma instabilidade política na Europa, deflagrada pelas lutas contra os planos de austeridade dos governos imperialistas. A revolução árabe em curso foi alimentada pelas consequências da crise econômica no desemprego e no aumento dos preços dos alimentos.

Agora, a possibilidade de uma nova recessão pode realimentar todo esse processo. Por outro lado, as lutas ampliam a instabilidade e limitam as possibilidades de recuperação econômica.

Não se pode ter uma visão mecânica, do tipo “crise é igual a ascenso”, porque a recessão pode paralisar os trabalhadores pelo medo do desemprego. Mas o agravamento da crise chega em um momento distinto de 2008, em que houve uma fraca resposta do movimento de massas. Hoje, já está em curso um ascenso do movimento na Europa e no mundo árabe, que pode se radicalizar pelo agravamento da situação econômica.

Gravidade da crise fica clara a cada dia
A comparação da crise atual com a depressão de 1929 já é um indício de sua gravidade. Foi a maior catástrofe econômica do século 20. A crise foi detonada em 2008 por uma queda da taxa de lucros, com uma combinação de uma grave crise de superprodução e uma brutal crise financeira.

A superprodução pode ser comprovada pelos dados da indústria automobilística de 2009 (auge da crise), em que foram produzidos 14 milhões a menos de carros em relação a 2007. Isso é equivalente a 140 fábricas fazendo cem mil carros.

A crise financeira agrava qualitativamente a situação. A ampliação do sistema financeiro é uma das características essenciais dessa fase imperialista da globalização. Para escapar da tendência de queda da taxa de lucros, mais e mais capitais são desviados para a especulação financeira.

As operações diárias, em divisas,, passaram de 200 bilhões de dólares, na década de 80, para 3,9 trilhões, em 2008. Os derivativos, as estrelas da especulação nesses anos de globalização, já movimentavam, em 1997, o equivalente ao valor do PIB mundial. Em 2008, moviam dez vezes o PIB mundial.

Os reflexos na crise atual
Ter clara essa dimensão do problema nos permite analisar a gravidade da situação, hoje. O capitalismo, como sabemos, escapou da depressão que se anunciava em 2008 com uma injeção recorde de capitais nas empresas e bancos. Não se resolveu a crise de superprodução. Nem ocorreu a queima de capitais que existe em toda crise dessa dimensão. Cálculos aproximados indicam que, se ocorresse essa queima de capitais, ela deveria ser três vezes superior a de 1929, pela hipertrofia financeira, ou seja seu aumento quantitativo.

O Capital conseguiu evitar a depressão e se iniciou uma pequena recuperação. Mas a resultante foi que todas essas contradições se agravaram. As crises das empresas se transformaram em crises dos Estados, alguns já quebrados como Grécia, Portugal e Irlanda. As dívidas dos estados imperialistas estão passando ao nível de serem impossíveis de serem pagas, com um serviço (juros mais parcelas) superior à capacidade de arrecadação desses Estados. Já existe até mesmo uma sigla (PRAE), que significa ironicamente “Países Ricos Altamente Endividados”.

Dificuldades
Ao estarem em crise, os Estados vão ter muito mais dificuldades para continuar a salvar, como antes, os bancos e empresas. Agora, está se anunciando uma nova leva de quebradeira no sistema financeiro. Estão ameaçados bancos do nível do Bank of America (EUA), Société Générale francês, Santander (Espanha) etc.

Além disso, as grandes dívidas das famílias não permitem a ampliação do consumo. Assim se dificulta ainda mais a superação da superprodução.

Tudo aquilo que serviu para alavancar o crescimento capitalista, agora, começa a desabar. A gigantesca bolha especulativa formada com o capital investido pelos Estados nas empresas começa a desmanchar.

Longa duração
O resultado é que, mesmo com ataques cada vez mais brutais aos trabalhadores, inclusive em alguns lugares com elevação da taxa de lucros, o nível dos investimentos produtivos não se recompõe.

Essa não é uma crise a mais na história do capitalismo. Vai se estender por 10 ou 20 anos, até que o capital consiga impor derrotas tão brutais aos trabalhadores que lhe permita recompor um nível da taxa de lucros que viabilize um novo auge.
Até lá, grandes crises se anunciam. Estados podem ir à falência, junto com grandes empresas e bancos. O sistema financeiro mundial sofrerá abalos fortes com essas falências e a decadência dos EUA e do dólar.

Hipóteses
No início da crise apontamos duas hipóteses para sua evolução: uma depressão como a de 1929, ou um largo processo de decadência, com ciclos de crescimento anêmico e novas crises fortes. A segunda hipótese parece estar se comprovando. Desde 2009, ocorreu uma recuperação anêmica, e agora está se anunciando a possibilidade de uma nova recessão.

Nova recessão poderá ser bem diferente
Caso se comprove, essa nova recessão vai se dar em condições distintas, mais graves, do que em 2008. Vemos três diferenças principais. A primeira e mais importante tem a ver com a luta de classes. A situação, hoje, na Europa é bem distinta da do início da crise. Existe um ascenso do proletariado europeu, ainda que muito desigual de país a país. A juventude cumpre um papel de vanguarda por um motivo simples: já não existem condições de manter a expectativa de ascensão que antes deu base social para a democracia burguesa. Para ser preciso, nem de ascensão nem de manutenção do mesmo nível de vida de seus pais. Por outro lado a revolução árabe questiona diretamente alicerces da dominação imperialista na região e ajuda a fermentar a vanguarda em nível mundial.

A segunda diferença é a crise política dos governos imperialistas. Obama é uma pálida figura perto de seu significado em 2008. Sarkozy e Berlusconi vivem crises em seus países. Mesmo os novos governos de direita, que se aproveitaram da crise na Inglaterra e Portugal, já têm de enfrentar o desgaste das crises.

A terceira diferença é a limitação nas respostas desses Estados. Já mantém, há vários anos, uma taxa de juros praticamente igual a zero. Utilizaram muito mais do que podiam (e deviam) o dinheiro público para garantir grandes planos de salvamento para as empresas. Segue sempre colocada a hipótese de novas respostas do Capital, mas o repertório de truques está se esgotando.

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