O acordo de Cochabamba e a nova Constituição

Governo recuou de texto original, cedendo ao agronegócio e permitindo controle dos estados sobre o gásA nova Constituição é uma reivindicação histórica na Bolívia, que atenderia inúmeras bandeiras das lutas indígenas, camponesas e operárias. O governo Evo, fruto dessas lutas, teve de apresentar a proposta de texto da chamada Nova Constituição Política do Estado (NCPE). Se aprovada em sua versão original, significaria uma vitória dos movimentos. Por isso, na iminência da votação da NCPE no Congresso, a ultradireita voltou a pressionar o governo e a se mobilizar.

Pressionado pelos movimentos e pela Meia Lua, qual foi o lado escolhido por Evo?
Sobre a questão da terra, o texto inicial da NCPE limitaria as propriedades rurais em 5 ou 10 mil hectares, acabaria com os latifúndios e devolveria aos camponeses e indígenas as terras roubadas. Agora, na versão final, nenhum limite terá efeito retroativo. Logo, nada mudará na vida dos latifundiários.

Sobre os recursos naturais, o texto garantia a soberania do governo sobre as reservas. No novo texto, um artigo garante os “direitos adquiridos” pelas transnacionais e permite que os recursos naturais sejam regulamentados e administrados pelos estados. Um presente a mais para os governadores da Meia Lua.

A desfiguração da proposta inicial da NCPE foi tão grande que o governo recuou até no tema da autonomia dos estados e no da reeleição. Assim como fez na questão do IDH, o governo fazia discursos inflamados contra transnacionais, latifundiários e capitalistas. No entanto, nos bastidores, entregou até a alma à Meia Lua, modificando todo o conteúdo do texto original da NCPE. O texto da nova Constituição, que irá a plebiscito em janeiro, é um amontoado de frases eloqüentes, incapazes de mudar a vida das pessoas.

A grande marcha em La Paz
Enquanto o governo, às escondidas, entregava os anéis e os dedos à ultra-direita, os movimentos camponês, indígena, estudantil e operário demonstravam que possuem forças de sobra para lutar.

No dia 19 de outubro, uma energia impressionante e um colorido acompanharam a marcha de 70 mil pessoas que tomou as ruas da capital, La Paz. Vindos de todos os cantos da Bolívia, os manifestantes se espremeram nas pequenas ladeiras e marcharam até o Congresso.

Para os que participavam da marcha, até pela força da manifestação, a nova Constituição deveria ser empurrada “goela abaixo” da Meia Lua. Nenhum ponto deveria ser modificado do texto original. Ainda mais os principais, como os da terra, das riquezas naturais e da autonomia.

A população de La Paz recebeu a marcha com gritos de “Jallalla”, uma saudação indígena. Grande parte dos bolivianos fala, além do espanhol, uma língua indígena, como o Quíchua e o Aimará. Além da saudação e dos aplausos, um mutirão espontâneo distribuiu sucos e esguichava água nos manifestantes, para aliviar o forte calor.
Os mineiros encabeçavam a marcha e explodiam dinamites em pleno centro da cidade, repetindo um método de luta que faz a burguesia tremer de medo e os socialistas pularem de alegria com o significado histórico da ação.

Enquanto Evo encabeçava a chegada da marcha, nos corredores do Congresso o MAS desfigurava o texto constituinte. A grande maioria do povo ainda acredita que o que foi aprovado ali foram as suas reivindicações. Nem o governo, nem a Meia Lua se interessam em expor o verdadeiro conteúdo do acordo, para não perderam suas bases até o plebiscito de janeiro e as eleições presidenciais de dezembro de 2009.

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