No celeiro do mundo, a comida está mais cara

Está cada vez mais difícil para o trabalhador levar comida para casa. Apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo e de possuir enormes áreas de terras com potencial agrícola, no último período, o país tem registrado uma forte al“Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”. Os versos de Chico Buarque, na música Construção, falam de um operário da construção civil que saboreia com prazer sua marmita, como se fosse um manjar dos deuses. A ironia de Chico, ao comparar uma comida simples a um artigo de luxo, está cada vez mais próxima da realidade.

O feijão de todo dia aumentou 207,42% entre março de 2007 e fevereiro de 2008. Os números foram medidos pelo Dieese, que aponta o alimento como o grande responsável pela alta do custo de vida. A batata subiu 51,83%, o leite, 25,18%, a carne bovina, 21,63% e o leite em pó, 46,99%. São itens cujo aumento afeta diretamente o bolso e a mesa das famílias de todos os trabalhadores. Por sua vez, a Fundação Getúlio Vargas mediu um aumento de 15,65% no preço do óleo de soja apenas em janeiro e fevereiro deste ano. Em 2007, o óleo já tinha sofrido uma alta de 36%.

A inflação dos alimentos (como está sendo chamada por especialistas) afeta diretamente o salário dos trabalhadores que, para conseguir comer, tem de trabalhar mais.

Em São Paulo, por exemplo, a cesta básica subiu 17,9%, fechando 2007 como a mais cara do país (R$ 223,94). Na seqüência, vem Porto Alegre (R$ 216,12), seguida pelo Rio de Janeiro (R$ 214,66) e Belo Horizonte (R$ 213,48).

Segundo um cálculo do Dieese, o trabalhador que ganha um salário mínimo precisou cumprir, em média, uma jornada de 102 horas e 16 minutos para comprar a cesta básica. O mesmo estudo aponta que só em São Paulo o trabalhador que recebe um mínimo teve de trabalhar quase 119 horas em março para poder comprar alimentos essenciais. De acordo com o estudo, a compra da cesta comprometeu 50,53% do rendimento destes trabalhadores.

Mas por que os preços dos alimentos não param de subir? A inflação dos alimentos não está relacionada a fatores climáticos, colheitas baixas etc. Pelo contrário, todos os dados comprovam que o Brasil, ano após ano, vem quebrando recordes na produção de alimentos.

O país terá, este ano, uma supersafra. Conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o IBGE, serão mais de 139 milhões de toneladas. Só em soja, a estimativa é de uma colheita em torno de 60 milhões de toneladas. Já o trigo terá uma safra 71% maior.

No entanto, essa produção não vai parar na mesa dos trabalhadores, pois seu destino é a exportação, abastecendo, assim, o mercado mundial.

O problema dos preços dos alimentos está ligado às transformações no campo brasileiro, com o agronegócio e a especulação financeira. Os grandes produtores de alimentos não têm como objetivo alimentar o povo, mas sim conseguir lucro. Dessa forma, produzem os alimentos para exportação que se encontram mais valorizados no mercado internacional.

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