Muitas vozes, uma só luta

Reunião internacional reúne representantes de 20 países para discutir experiências e ações comuns na luta contra os efeitos da criseOs relatos sobre as diversas experiências das delegações estrangeiras só confirmam o slogan da Reunião Internacional, convocada pela CSP-Conlutas e pela União Sindical Solidaires (França). “Mais do que nunca, diante das lutas dos trabalhadores na Europa contra os efeitos da crise e do processo revolucionário que se desenvolve no Norte da África, é urgente uma resposta unificada dos trabalhadores de todo o mundo”, afirmou Dirceu Travesso, da CSP-Conlutas, na abertura do encontro, realizado nos dias 2 e 3 de maio, em São Paulo.

“Este encontro é importante para impulsionar efetivamente a busca de uma coordenação internacional dos sindicatos de luta. Nós na Europa também temos um trabalho em que a ideia é tentar de fato ultrapassar uma etapa e chegar a construir uma rede mundial, mesmo que no princípio ela seja pequena”, disse Christian Mahjeux, secretário nacional da União Sindical Solidaires. Fatma Ramadan, do Sindicato Independente dos Trabalhadores de Giza (Egito), relatou o processo revolucionário vivido no país e saudou o evento por reunir tantas tradições distintas e defendeu a necessidade da unidade dos trabalhadores em todo o mundo.

Já no primeiro dia foi possível perceber que, apesar da grande diversidade, das diferentes tradições e formas de organização, havia muitos pontos comuns entre as delegações.

Um deles foi a experiência na construção de novas organizações que, ao mesmo tempo em que representam uma alternativa ao sindicalismo independente e combativo, ofereçam uma perspectiva aos milhares de trabalhadores que se encontram em situação de precariedade ou em movimento de luta por moradia, terra etc.

Representantes do Paraguai relataram sua positiva experiência na criação da CCT (Confederação da Classe Trabalhadora). “Hoje temos mais de 80 organizações sindicais e outros movimentos filiados a entidade. Possuímos uma estrutura semelhante a CSP-Conlutas”, contou Coco Arce, da central. “O que nos chamou a atenção é a estrutura proposta pelas CSP-Conlutas. Viemos para encontro para saber mais sobre isso”, disse Helmut, da delegação alemã.

A brutal exploração e precariedade das condições de trabalho também foram comuns nos relatos. O representante do sindicato dos trabalhadores da educação do Peru (Sute), da regional de Lima, explicou o processo de luta que a categoria vive e disse: “Hoje um professor no meu país ganha, no papel, cerca de 300 dólares, mas na realidade seu salário é de 50 dólares”.

Antonio Vidal, representante da delegação do México, denunciou a absoluta falta de proteção social enfrentada por boa parte dos trabalhadores de seu país. “Um em cada quatro mexicanos não tem Previdência Social. Mais de 40% dos trabalhadores não tem estabilidade no emprego”, disse.
Já o representante do Haiti, Didier Dominique, denunciou o plano do imperialismo norte-americano em criar as Zonas Francas em seu país para explorar “a mão de obra mais barata do continente”.

Os chamados governos de centro-esquerda e nacionalistas da América Latina (como o de José Mujica, do Uruguai; Fernando Lugo, do Paraguai, e de Ollanta Humala, do Peru) também não escaparam das críticas. Chamou atenção a fala de um dos representantes dos sindicatos de bebidas do Peru, que explicou como muitos passaram da expectativa à decepção em relação ao presidente peruano. “Hoje estamos decepcionados com Humala, que apoiamos durante a campanha, mas que faz a mesma coisa que os governos anteriores”, concluiu.

“Vai ser importante levar as experiências desta central”
Fatma Ramadan é presidente do Sindicato Independente dos Trabalhadores de Giza, membro do comitê de direção da Federação dos sindicatos independentes do Egito e do Partido da Renovação Socialista do Egito

Como vê a situação política do Egito no momento, mais de um ano depois da revolução que depôs a ditadura de Hosni Mubarak?

Fatma Ramadan – A população sofre com a presença da Junta Militar ainda no poder, que representa o antigo regime. Há duas tendências no país: a das pessoas que querem a continuidade da revolução e estão sendo atacadas pelos militares e outra parte, que constitui o próprio sistema, a direita e os contrarrevolucionários, e que obviamente não desejam mudanças.

Houve uma tentativa clara da Junta, com a ajuda da Irmandade Muçulmana, de tentar mudar o eixo da revolução, tentar tirar a população das ruas e encerrar os protestos, desviando a atenção das eleições para presidente, agora entre junho e julho, pois o objetivo dos militares é justamente diminuir o máximo possível a participação popular no processo eleitoral.

De outro lado, temos os grupos políticos do Egito, independentemente da sua filiação política e do seu lugar dentro do arco ideológico, que pretendem continuar o processo da revolução até conseguir os objetivos principais que ainda não atingiram. Um das grandes lideranças neste processo de levar adiante a revolução está na juventude egípcia.

Qual a importância do congresso da CSP-Conlutas e como avalia sua participação?
A princípio, encontrar delegados do mundo inteiro que lutam contra o imperialismo, que apoiam o direito dos índios e discutem os acidentes de trabalho e o problema dos sem-teto, unindo os objetivos, os eixos sociais e políticos, é uma ideia muito boa para levar ao Egito como proposta de luta.
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